segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Parque conectivo

 Há um quê de paz na mesmice urbana. Bancos, padarias, semáforos, pedestres, nuvens, faixas, sacolas e loterias. Cópias estáticas que o tempo apenas parece endurecer, em sua grandeza, em sua simplicidade ou perspicácia.


Mesmo nas músicas antigas, repetidas exaustivamente ao longo da fé e do escrutínio básico em self-assessment. Pequenas oportunidades de admirar desde aquilo que perdura, ao que se modifica.


Outras convicções, outro eu. Outras pessoas, outras estradas. Novas mesmices. Velhas novidades.


A boa e velha antítese que se manifesta entre cordéis e poemas infiéis. Ironia do passado. Escárnio espelhado em Narciso sonhado. Só o presente, ineditamente repetitivo.


Carros cinza, pretos ou brancos. Exatamente como a corrente do céu inspirando tratamentos bucólicos. O barraco mantendo o barroco sucedendo a saltitante arcadia. Take me down to the paradise city, where the sky is grey and my thoughts are petty.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Mudanças

Ouvia dizer que rir da própria desgraça demonstrava força mental. O fazia então, pois ainda procurava meu lugar no mundo. Adolescente, 18, 19 anos, mal sabia o que me esperava pela frente.
Ouvia dizer que política e religião não se discute. Mal sabia aquele menino que hoje política tá se discutindo até demais, e Deus tá sendo um constante processo de desconstrução e reconstrução.
Ouvia dizer que só vivemos um grande amor na vida. Descobri então, nos lugares menos esperados, que o amor é oceano, e emana de dentro pra fora.
Ouvia dizer que vegetarianismo era negação da espécie. Hoje, um ato político.
Ouvia dizer, ouvia dizer...

Ainda bem que as coisas mudam. Não mudassem, não seriam coisas, seria outra palavra.
O que antes era só música eletrônica, hoje virou disco, house, lo-fi, deep, prog e etc.
O que antes era "só piada", hoje virou cultura do estupro.
Ainda bem que as coisas mudam.
E o que é hoje, mudará também. Os ciclos se renovam, e praticamente nada na vida remanesce o mesmo.

Ainda bem que as coisas mudam...
Até quando se repetem, elas mudam.

domingo, 19 de julho de 2020

Baile da imoralidade



Amo-te em vestes intocadas
Idolatro-te ao desnudo imaculada
Ondula-se em sinais e frequências
Gês incendeiam meu atento espírito
Rogando ar em tuas palavras doces
Misticismo inafiançável do imaginário lúdico

São,
Reveste-se pois da indomada narcísica
Sorri à relenta ternura
Suspiros aguçados, compassados: um baile!
Um brinde à conversa afrodisíaca
Que emana, encanta e fortifica
Pressurização venosa que se expõe em polvorosa
Na ejaculação da alegria maliciosa

Pureza. Antítese pois se não as ondas existentes apenas por terem base e crina
Há frente, e há por trás
Onde guarda os segredos
Que nem a ferina língua lhe salvará
Terra explorada por bandeirantes
Desbravadores imbuídos de coragem, ternura e paixão
Atormentando superfícies nervosas,
Eclodindo, pulsando, sentindo, emanando, emaranhando, buscando o único e resoluto dueto que todo homem sonha ouvir:
Que. Tesão.

Embeba-se pois de minha virilidade
Através dela que sacio sua umidade
De teu seio a lateral
Com a boca lhe deito todo véu da moral
Conecta-te aos olhos pois os dois sentidos possíveis já lhe fazem ser o que pleiteias ao acordar
Imoral.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Dia dos namoradxs

No meu teclado falta a letra x.

Me perguntei algumas vezes, quantos vocábulos e parálises pretenderia imputar nos escritos que continham esta letra. Alerto, por observação prática, que a maioria destas vem acompanhada previamente de um E. Excessos de explicações e expressões extenuantes.

O paralelo que faço com aquela que é a matéria-prima daquele que escreve. Que deve ou não deve ser expresso, tendo ou não o gabarito, a abertura, o composto. Conto com a possibilidade, através das palavras, palavras, palavras, palavras, como diria Cássia Eller, de exprimir o que bem entender. Bonito suficiente é a tua infinitude interpretativa. Não conto com esta, uma vez que não constitui o meu sonho.

Um dia que supostamente seria aleatório, não fosse o significado capitalista dado. 12 de Junho. Interpelado pelas mesmices anuais. Fotos de casal, rolês no shopping, cinema, jantares, motéis. Ironicamente assassinado pela crise epidêmica. E eis o x da questão.

Me encontro na cruzada entre expressar o que não preciso e viver o que quero. Como se deseja algo por alguém que não se sabe a reação. Como voar se não se sabe onde pousar. Como atirar sabendo que o alvo está se movendo. Incógnito, estranho, incerto. É como pedir um aumento. É como viver. E que diabos a vida quer da gente?

Ironicamente confortável a expressão aqui contida. Desdenhosa de tristezas ou morbidez, afaga com carinho um coração cheio que adora um significado, se entorpece da admiração gigante e mais, compreende. Compreende que amar definha o medo. Amar é coragem. É se estrepar, mas também é conquistar os mais altos castelos, os mais protegidos dragões, ter as maiores e mais belas borboletas a girar em seu sistema digestivo e, finalmente se DESAPAIxONAR. E ri de si pelo x que cá não se capitaliza. Ri de si pela alusão aos contos-de-fada. Ri da própria porcaria literária. Falta de repertório, gorda referência. Referência!

E entende, talvez noutro equívoco, a solidez.
No seio de nossa coisinha, reside o x.
Agradeço, a quem não é mais, por ser mais.

xxxxx xxx xxx xxxxxxxxx.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Irrisória conclusão

Habita em minhas entranhas um duende. Colorido, pequeno, barbudo e gaiato. Parece um gnomo. Ou seria um anão. Uma criatura. Que se desdobra em mil pra denunciar a comédia. Que se encolhe e abraça os joelhos quando a tragédia grita em seus olhos.

Não questiona, apenas reage. O questionamento fica pro que acham que tem que ficar. Tão ricos quanto infindáveis. Traveste-se de ciência, saúde, mas não passa do exercício clássico de dinamizar pensamentos em existência. Tão sem nexo quanto humano.

O pequenino ser se ajusta como pode, mas atira-se ao chão na tentativa de fazer-se atendido. Infantil, quer o que quer, na hora que quer. Faz o que quer. E quando não é atendido, irrita-se, faz manha, tem "tantrums". Surpreende. Me encanto ainda com sua capacidade inata de, ao mesmo tempo que tem de prostrar-se como um pedinte esfomeado, trazer o mundo aos seus pés. E o mundo o responde com amor.

Diria que sábio, sabe que recebe o que promove. E se cansa, chora em seu canto engolindo a dor de estar dado desequilíbrio no dar e receber. Senta-se e contempla a comédia com lágrimas, achando bonito as estranhas formas que o universo pertina nas sinapses aleatórias de que há sim, equilíbrio entre todas as coisas. É como crer na sabedoria milenar, sacra, é como crer em Deus.

Se Deus é como concebido, é inclusive um duende desalmado que habita estômagos vazios.
"Fez o homem à sua imagem e semelhança".
Deus então, hoje
Usa máscara.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Autoignorância

A fumaça daqui não é de fumo,
Mas de incenso

E não tem vinil,
Mas live

Os livros variam entre digitais 
E impressos

Há um charme nas coisas de tempos anteriores
Eu enxergo

Faz tempo
Que não passo mais de uma hora em silêncio

Ouvindo o silêncio
Curtindo o silêncio

Parece urgência ouvir porque posso ouvir
Mesmo podendo escolher se ouço ou não

Faz tempo também que ignoro minha tristeza
Talvez por isso nunca me boto em silêncio

Com outros estímulos, jamais pensarei no que me tomaria tempo
Quando nada mais toma

Talvez por isso eu passe o dia ouvindo tudo,
Sentindo o cheiro

Ouvindo e vendo
Ouvindo e lendo
Ouvindo e teclando

Só faltou ouvir e falar 
E só não falo porque não tem com quem

(O século 21 é assim: tudo chega muito o tempo todo em mim, e nada sai).

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Se eu te visse hoje

Se eu te visse hoje
Te roubaria um beijo
Te leria mais um poema
E falaria qualquer bobeira dele
Só pra te impressionar

Também inventaria um
E te pediria pra cantar as canções 
Perdidas no tempo
Em que não te vi

Se eu te visse hoje
Eu provavelmente faria tudo aquilo
Que eu sei que você quer que eu faça
E te diria
Eu também quero

Eu naturalmente te faria rir
E riria mais ainda
Porque é o que eu faço
Quando mato saudade

Se eu te visse hoje
Talvez não encontrasse motivos pra te escrever
Estaria ocupada demais vivendo
E não sei se isso é bom ou ruim

Se vivo enquanto escrevo
Ou morro cada vez mais
Porque vivo
Só sei que o hoje não te tem 
E eu espero que o amanhã sim.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O olhar de quem quarentena

Um passante com uma flor em mãos. Quatro da tarde. Seis continentes. Duzentas mil mortes. Duzentas mil vidas. Um observador de sua sacada. Muitos carros. Milhões de indagações. Nenhuma explicação. O passante mascarado passava. As horas corriam. O observador observava. O mundo girava, enquanto parado, por mais uma jornada. Parado para quem? Era dia e então já era noite. Às vezes o observador trocava um pelo outro. Dessa vez, por ter conseguido ver tão bem, era dia. Parecia injusto o passante passar com tanta objetividade carregando aquela flor. O observador só poderia imaginar o porvir da cena, mas nunca saberia. Como ficam as histórias de amor quando todos são obrigados a ficarem distantes? Há uma lacuna na vivência de contos da Terra? É esse mais um conto coletivo? Talvez todos os amantes desrespeitem um pouco o decreto de isolamento. Talvez pudessem morrer de tristeza, em vez de virose. Talvez os duzentos mil mortos também o fizessem, estivessem eles vivos para amar.  Talvez aquele passante estivesse indo amar alguém em segredo, sem saber que era observado; sem saber que o maior desejo de quem o observava era, também, poder amar, sem carregar nas costas o peso de todas as vidas que continuariam a ser amadas quando tudo passasse, se não estivessem perdidas. 
O passante passado e a injustiça aceita fizeram o observador quitar seu olhar para baixo. Olhou, agora, duas horas depois, para o céu. Já havia uma estrela. Uma pipa apareceu e rapidamente sumiu por trás de outra casa. Uns oito pássaros iam e vinham. Talvez contar o tempo, os pássaros, as pipas, as estrelas, preenchesse um pouco aquele vazio que parecia existir no mundo... em si, já que não se podia contar com a colaboração de outras pessoas para a contenção de um mal global. Da sacada, o observador observou tudo: o passante passar, os elementos da mesma paisagem de sempre, o dia virar noite, a dor do mundo, a dor de si. Fechou o lado de lá junto à porta que o conectava com ele – a da sacada –; abriu a porta de dentro para primeiro se curar. Depois, quiçá, permitir-se-ia indagar mais. Pode ser que daí viesse alguma resposta. Que aquele passante vá e ame e volte protegido de sua aventura, enquanto o observador se protege a esperar.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Pranco

Luz ou escuridão, a divagação da existência vai além dos 4 elementos. Ou de forças indescritíveis.
Diria que a inspiração ou a expressão nascem da escuridão, a própria ideia da criação surge nesta.
Seja na escuridão intelectual, colérica, absenteísmo luminoso ou mesmo na ausência, completa.

Não funcionamos na ausência de luz, mas criamos. A interrogação que coça na nuca é: a criação começa a luz ou a luz começa na criação?

E essa tendência a remeter palavras automaticamente a um ou outro...

Vazio... escuridão
Alma... luz
Noite
Dia
Dor
Alegria

Como se pudéssemos colorir o incolorível, autorizar o imaginário a plantar abstratícies em um plano de fundo automaticamente iluminado ou escurecido...

E contemplo o vazio púrpura
Devorado pela hipocrisia
Extenuado pelo que não se possui
Agraciado pela completude rósea
Esverdeada essência
Energética turquesa
Matriz do que se vê

Se expressa, inclusive na inexpressão
Da escuridão.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O viajante


Só hoje, atravessei o vale das incertezas, mergulhei no lago dos sonhos, pedalei na estrada da nostalgia e me aventurei na taverna da esperança. Cada qual em sua particularidade infinita, conferi a confusão encerrada do ser frente ao espelho das formas abstratas. Inegável apelo ao Olimpo, clarividência, clemência, piedade. Outrora épica, a narrativa simples do camponês e sua donzela, felicidade como se brinda a cartilha - morada, grata, fácil e farta – tornara-se odisseia.

Perde tortuosidade na fuga pelo simples, o encontro humano nas infinitudes do acaso. Va lá o infinito particular, implacável e cessado não-tedioso dando espaço às experiências inerentes das primeiras-vezes. Na contrapartida sensivelmente poética do apaixonar-se por alguém como você, há a dureza do fato. A própria partida da contrapartida. Enxergar o vibrante arco-íris da existência em cima da montanha de caca do ser. O balanço humano, sem perfeições, sinestésico, adaptável e mutável.

Na rua das saudades, já me perdi umas quarenta e oito vezes. Possibilidades inócuas em algumas saídas, probabilidades reescritas em outras. Sobrevivência. Na sabedoria contemporânea no dirty talk de uma incipiente celebridade, a astúcia da experiência humana: saudade do que ainda nem foi vivido.

O espaço inexplorado, datado como mais um. Dia 27, mais um. Onde o viajante se perde e se encontra. Sabendo seu valor, sua cor e seu caos. Não sabendo nada, ao mesmo tempo. Sente falta do devido abraço, do devido apreço. Se deleita ao sorriso, ao rir da vida com a capacidade da criança que sabe que está absolutamente tudo bem. O viajante sabe o valor de casa pois já se perdera. O sedentário sabe o valor de casa pois já se encontrara.

Flexível rigidez do vento que sopra às pedras, balança árvores e não derruba frutos. Agressiva, ciclicamente busca natureza. A flecha só vai mais ao longe aumentando a tensão. Sente, tensão, o desejo. De querer, de contar, de somar e caminhar. Só se conhece aquele que se perde, sabe o viajante; vence aquele que não perde. Quando dói, o foco é na dor até que se cure; sapiência natural de desenvolvimento ancestral. Vibra gratidão, clama retomada.

E segue a caminhada.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Intrépida

Roga pois a experiência. Carne posta à mesa, banquete viril. Nem os vegetais se adequariam, secura mórbida em pratos esparsos.
Vide pois o reino dos homens. Às mulheres, os louros e pérolas. Uvas que decaem sobre engalfinhadas garras das sedentas vontades. Jovialidade, reinserção posta ao amargo contragosto

- Vá, apanha-me morangos e os coloque à serventia daqueles vassalos! - exclamou o príncipe.
- Ordens a quem se dedica, vossa alteza - Intrépida cerra-lhe os punhos
- Àqueles que lhes acometer - balbucia o príncipe - Não sois tu que a todos rogam clamor?
- Sou apenas a que rege, à revelia - responde a mulher, em tom neutro.
- E não buscas nada, fidalga? - com entonação provocativa o príncipe a encara - vives à margem da revelia?
- A revelia é a calma, aglutino conhecimentos como amantes, mangas como figos e tratos como escolhas - encerrou.
- Não sejas por isso - aclamou o príncipe - Ergam as taças! - no gesto clássico de quem brinda - À mulher de vestes leves!

Pós devida repetição, intrepidamente fitou-lhe os olhos, em agradecimento não-servil. Olhos cúmplices, bocas meladas.
Não para menos, tamanha gordura no ambiente. Findou-se o banquete à norma do palácio, cerrou-se a realeza seus aposentos. A mulher se iria então ao encontro de seus amantes em sonhos. Compreendendo-se incompreendida, atirou-se de vestes e tudo ao que seria a masmorra para uns. Lugar comum para ela. Lá, na masmorra se encontra e dela seus desejos se colocam à prova de tudo, pouco se importando com o julgo, mexendo-se conforme a música; os sons da noite.

Em seu aposento, fita-lhe o príncipe, estático. A bradar e retomar grandes gestos, não garantia a atenção de sua querida. Lhe recolocava à cabeça, não obstante pois todas as amantes do reino, a que lhe acometeria os elementos era indomável. Aceitar a beleza do que é, compartir os augúrios da monarquia com a infusão da vida. Intrépida. Lhe restava o sabor do travesseiro e clarear do dia. Sábio homem, esperava sem esperar e vivia a morrer.

Sábia mulher, que fez de seu ventre o universo e de seu coração morada. Regia porque podia. Fez do tabelião seu escravo e do escravo seu amante. Romarias mal-vindas lhe passavam enquanto tecia seu leque sob a cruz. Havia de tocar-lhe a espada. Acerta bainha, mexe a cadeira. Acena a quem lhe acena. Observa a quem lhe observa. Queima a quem lhe umedece. Agracia a quem dedica. 

Justa.

Amanhece no reino. O príncipe acredita ser o primeiro a cumprimentar o sol. Olha abaixo, no estábulo, ela entrelaça cordas em trouxas e prepara a sela de longa trilha. "Viajará", concluiu o monarca. Brotava-lhe à memória suas andanças e empreitadas. A cabeça de alguns cavaleiros lhe remontavam à memória, aventura que lhe cerne. Seu reino continua, amanhecendo mais uma vez, sob sua batuta, reconhecendo-se não como o mais honrado, mas o que seus entes precisam. Cresce com a cidade e à ela dedica sua existência temporária. Segue em direção à amada:

- Tens tudo que precisa? - indaga-lhe calmamente o homem.
- Sim.
- Faças então, bom proveito. Apenas não desfaleça. - conclui o príncipe.
- Nem tu. Cuide de meu jardim - sorriu-lhe brevemente, intrépida.

E ambos cumprimentariam o sol nascente.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A Forja

   As trevas estão sendo dissipadas pelos primeiros raios da alvorada, um deles gentilmente me desperta no improvável frio da manhã no deserto. Meus lábios estão ressecados e um gosto amargo faz morada na minha boca, por alguns segundos ainda tenho na memória as doces lembranças do sonho que estava tendo, mas ela evapora assim como a manhã fez com a noite e deixa em meu peito apenas a sensação de ausência.
   Meus companheiros de viagem sugeriram que eu fosse por outro caminho, que os acompanhesse por outra rota, uma que passasse por vales mais amenos onde encontraríamos aventuras no estilo a qual estamos já acostumados.
   Mas nessa época do ano eles sabem que preciso me retirar para o deserto, aqui continuo a busca pela Forja Miraculosa, onde poderia construir o que estou a tanto tempo almejando.
   Ninguém nunca encontrou a localização verdadeira dela, ou se encontrou guardou apenas para si o segredo, apenas lendas falam sobre onde encontrá-la e como ela é. Temo nunca a achar ou pior, já tê-la visto e não a reconhecido.
   Tento afastar os pensamentos ruins e me levanto lentamente, desfazendo o acampamento e pegando o velho cantil de couro, sorvendo água para me despertar completamente. O deserto pela manhã é uma das coisas mais lindas da Criação, tons de vermelho e dourado dançam no horizonte enquanto o vento canta suaves canções sobre tempos imemoráveis. A assepsia da paisagem pega apenas o olhar incauto, pois o veterano dessa parte do mundo consegue enxergar os pequenos animais e as peçonhas  ocultas no movimento das dunas.
   Meu manto vermelho protege me do sol e do vento a medida que o dia avança e já ao cair da noite encontro ruínas de um templo antigo que nunca havia encontrado antes. Questiono-me se meus mapas estão com algum erro, pois a rota que estou fazendo não é nova e este caminho já usei como passagem anteriormente, além de ser uma rota comercial relativamente famosa. Algo assim estaria pelo menos mencionado nos cartas geográficas.
   Encho-me de esperança na expectativa de minha jornada finalmente estar chegando ao final e entro cautelosamente nas ruínas.
   A realidade se impõem novamente esmagando meus tolos sonhos e o templo se revela pouco maior do que uns poucos metros quadrados sem nenhum sinal de Forja. Com meu lampião me aproximo das paredes na busca por alguma pintura ou linguagem que ajude a decifrar aquele misterioso local, mas nada relevante é revelado.
   Decepcionado tento pelo menos me animar com a possibilidade de um lugar seguro para passar a noite. Acendo uma fogueira e começo a assar um rato-do-deserto que havia encontrado durante o dia. Não tarda alguns minutos ouço passos lentos do lado de fora, minhas magias de detecção não notam nenhum perigo iminente - o que sempre me deixa preocupado, pois pode não ser nada ou pode ser algo tão perigoso que conseguiu ludibriar minhas capacidades arcanas - lenta e ritmadamente ouço a aproximação nas areias do deserto e me adianto:
- Quem vem lá? Se busca tesouros veio ao lugar errado, se busca problemas acabou de encontrar.
   Um voz frágil de decrépita responde:
- Misericórdia ó bravo viajante, sou apenas um cego andarilho. Senti o cheiro de vosso preparo e venho humildemente mendigar os restos se não for muito incomodo.
   Na entrada do templo surge um senhor cego, vestido em trapos e usando como guia uma vara e um cão mestiço de orelhas pontudas. A etiqueta dos viajantes fala que nunca se deve negar comida para alguém em necessidade, principalmente no deserto, pois nunca se sabe quando você mesmo estará nessa posição.
- Aproxime-se meu senhor, não tenho muito a oferecer, mas posso compartilhar minha água e meu alimento.
- Louvado sejam os Deuses!
   O estranho se aproxima e conversamos sobre o deserto enquanto dividimos a modesta refeição. Pergunto seu nome, mas ele me responde que se um dia teve um nome, já o esqueceu há muito tempo atrás, lembrava apenas do nome do cachorro, que era Vareta, penso ser uma escolha inusitada para nomear uma criatura, mas coerente com a função que está tendo.
   O senhor é um dos improváveis habitantes do deserto, sempre vagando por dias e dias na esperança de encontrar um oásis ou uma caravana que lhe dê alimento por algumas horas e em seguida retornar a sua eterna caminhada. Questiono-o se não seria melhor ir morar em uma cidade, mas sou prontamente respondido que o deserto é muito mais seguro e tranquilo que qualquer cidade que ele conheça. Isso não posso discordar, mesmo ficando em dúvida sobre a parte da segurança.
- Então, Estranho Andarilho, o senhor sabe algo sobre a Forja Miraculosa? Alguém que passa a vida inteira nessas bandas deve ter ouvido pelo menos uma lenda sobre ela.
- A Forja!? Claro que eu a conheço, estava lá há alguns dias atrás...
   Meu coração dispara. Finalmente posso ter uma pista concreta sobre sua localização e atropelando a fala lenta do velho, pergunto onde ela fica.
   Ele dá uma gargalha que rapidamente se mistura com uma tosse e responde
- Você realmente está pedindo direções para um velho cego e senil!? Hahahaha Pensei que fosse mais inteligente.
   Noto minha inocência e fico cabisbaixo.
- Não fique triste tolo viajante, a Forja está em algum lugar nessa vastidão. Ela não se parece com nada do que você espera, mas mesmo assim, saberá com certeza quando a encontrar.
   Suas palavras não faziam o menor sentido e realizo que pode ter sido apenas um delírio, da idade ou do sol, que o fez pensar ter encontrado a Forja e que sua história não seria nada além do que é. Uma história.
   Mas ele continuou.
- Ela já teve muitas formas e vai ter mais formas ainda. A cada par de horas ela muda de lugar e forma... Não... A cada lua nova ela muda de forma e a cada meio dia ela muda de lugar... Não era isso... era algo no meio disso... Entende?
- Acho que sim - Respondo na esperança que ele fique quieto.
- Ufa, que bom, achava que não estava sendo claro o suficiente. Sinto muito não poder te ajudar a encontrá-la... Agora estou me sentindo culpado pela minha inutilidade... Já sei, em retribuição a sua honrosa hospitalidade e paciência, posso dizer como Ela era quando a encontrei.
- Já é algo.
   Falo em tom seco. Ele parece não se abalar pela minha falta de vontade e começa a contar a sua história, porém noto que as pedras mágicas que servem como fogueira estão estalando em uma frequência maior que o normal e o cãozinho perdeu o interesse nos ossos do rato-do-deserto e está com os olhos vidrados em seus senhor.
- A primeira vez que a encontrei eu era um jovem, provavelmente da mesma idade que você. Ainda enxergava alguma coisa e a vi de maneira que nunca me deixou dúvida a famosa Forja Miraculosa. Não vou mentir que em um primeiro momento fiquei decepcionado, pois era apenas uma fogueira no  Deserto com um ser encapuzado do lado. Me aproximei e fiz o que qualquer idiota faria, perguntei se estava diante da Forja e com uma voz que não consigo descrever muito bem... Seria como se as estrelas tivessem respondido... O misterioso ser disse que sim. Disse ainda que minha busca havia terminado e que poderia criar qualquer coisa ali. Não havia restrições morais nem materiais. Aquele lugar era a última coisa que Deus fez na criação, lá qualquer criatura poderia ser criador, mas para ser criador tem-se que dar algo em troca. Não precisa ser na mesma proporção ou do mesmo tipo do qual a coisa que você criará, precisa apenas que agrade o guardião da Forja... Dei algo e recebi algo... Não lembro bem o que era... Mas era algo importante... Como não lembro de mais quase nada mesmo, acho que não faz diferença, não é?
- Acho que sim...
   Respondo impactado.
   Ofereço minha esteira para o velho dormir e durmo sobre o meu manto em outro lugar. Sonho novamente com doces ilusões que não estão mais aqui e acordo com um vento gelado que salpica de areia meu rosto.
   Quando levanto o senhor não está mais no templo e sob minha esteira vazia encontro um punhado de pedras preciosas, do tipo que já havia acabado há muito tempo nesse lado do mundo.
   Peço ao vento que leve meus agradecimentos a quem as havia deixado aqui e percebo que é tempo de voltar para os meus companheiros.

terça-feira, 13 de março de 2018

Réquiem do Amor

- Abre - disse a dualidade.

- Suplica que não lhe esmurres mais a ponto de corte - diz a consciência.

- Limito-me à tentativa de reforçar-me com uma a mais - lhe retruca o imaterial.

- Como lhe dá forma, se não a vil semântica da recorrente dor? - indaga-lhe a consciência.

- Sirvo-me de experimentos, de sensações e constatações. Sem estas, nada sou, nada me torno e nada me transformo - conclui imaterialmente.

- Se as constatações se repetem, o esforço é em vão - resume-lhe conscientemente.

- Às vezes a compreensão vai além do vão. Necessita da profundidade.

- Me é ininteligível.

- Me é como a água à garganta insaciada.

- Me é como a tortura da alma.

Conscientemente, passa a ser inconsciente. Ciente daquilo que indefine-se e passa. Cansado da constante dor. Dá-se por vencido.

- Nem o mais nobre dos sentimentos é capaz de suportar isso! - Brada a consciência.

- Você pouco sabe sobre resiliência, racionalizando o imaterial! Deixe-me ir além, deixe-me tentar novamente! - Exalta-se o coração.

- Quem manda aqui sou eu! Pelo menos é assim que concebo a nossa incoerente coexistência. - retruca.

- Mal sabe o quão manipulada estás. A dor me traz vida, é um sensação construtiva.

- Insistência resulta em acúmulos. De erros. De lágrimas. De devaneios descontrolados.

- Me parece apetitoso.

- Lhe é venenoso.

Torna-lhe inconsciente de sua consciência. Fading. O existencial perde ainda mais o sentido. Chão? Segurança? Imateriais. Sonhos construídos desalicerçados. Tortos. Lindos, à medida do romantismo.

Fica, nobre anjo
Que o entardecer se aproxima
A noite que lhe abriga
Derruba-lhe com abranjo

Roda, tontura
Me chama de tudo
Divide-se em nulo
Desiludidamente perdura

Se nomeia eterno
Faça-lhe ruir
Desgraçadamente cair
Ao findar do inverno

O requiém da nobreza
Grata, farta
Destituída, infarta
Conjura a Natureza

Procura crescer
Jovem mancebo
Que já é cedo
Ao amanhecer

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Quem vai, vai.

Perplexidade. Definição do ser. Complexidade. Ou complexamos. Construção, desconstrução: reconstrução. Saber, sentir. Agregar. Agregar sentimentos para que se possa saber.

A trilha pode ser colorida, canto dos pássaros. Dádiva. Gratidão e Gratidão. Desce um trovão, cai um pé d’água, destrói tudo. Desgraça. Aversão e Aversão.

Por que um é um e o outro é outro? Há exatidão na efetivação do cotidiano?

Embaralho, confusão. Se nem um é um inteiro, quiçá o Eu se chamar de um, definido ou indefinido. Não há regra. Para tudo há regras. Limitar para conviver. É tudo muito estranho logo quando aprendemos que para se libertar, é preciso limitar.

E o limite tende ao infinito.

O desespero.

Quando nem bem esse limite é explicado, logo é extrapolado. Quando extrapolado, alguém saiu machucado, nem certo, nem errado. Não enxergamos o futuro com clareza. Intuição? Só quando sua vibração está em sintonia com o ser. O coração, mente... espírito.

Ego. Fere-se com machadadas, acaricia-se com luvas de veludo. Não sabe se ou quando se recupera, se é que se recupera. Alô torcida do perdão, aquele abraço. Não sabe se está envaidecido ou se está lhe justificando. Nada, absolutamente nada é de crédito geral do um. Muito menos a culpa.

Maldita culpa. Separando vínculos, quebrando autoestimas, confianças, retratos e amores. Bendita culpa. Do arrependimento que ensina, do retorno positivo. Modificação.

O tempo.

Respeito. Gravidade. Suporte. O senhor máximo da humanidade. Construtivo quando concedido, destrutivo quando tirado. Simbolização do inexistente. O caos, a ordem. Mínimas respostas gerando máximas perguntas. Só o tempo pode inverter a lógica.

O tempo vai. O tempo corre. O tempo passa devagar. O tempo voa. Não volta. E segue o curso, retilíneo, curvilíneo, com ou sem obstáculos. Reflexão. Eu sou apressado ou devagar? É questão de estar.

O amor.

Aquele que queima sem arder. Depositamos o significado. A fé. A importância. Sacamos troca. Confiança. Partilha. Do que seria o mundo sem o amor? Dedicamos amor até ao inexistente. Fé. Amamos tanto e com tanta intensidade...

Machuca. Desejamos não amar nunca mais. Desejo. Briga. Desiste. E ama de novo. Apaixona. Apanha. Apaixona de novo. Apanha mais um pouco. E ama. Até quando se vê incapaz de amar, continua amando. Parece a visão do horizonte: um vislumbre sem fim. Um ciclo que não cicla.

A visão.

Do novo, do velho. O futuro insiste em repetir o passado. Mas muda. Sutilezas mudam. A borboleta. O furacão. A velha impressão de já ter escrito isso antes. Mas não é a mesma coisa. Não é nem o mesmo autor.

Incomoda a coluna, belisca o peito. Parece que afoga. E às vezes afoga mesmo. Se perde, se resgata. Se mata um tempo, mas um tempo... e ainda parece que tem uma coisa reservada ali na esquina. E sempre tem,


A vida.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Movimentos Peristálticos

Movimentos peristálticos.

É assim que geralmente começam as primeiras sinapses, fagulhas de uma mente acostumada ao fisiologismo. Não importando a circunstância, a temperatura, o local, a iluminação ou o sentimento, a certeza é uma: vai dar merda.

Um som atravessado advindo da região abdominal pode indicar várias coisas, limitadas pelo sistema digestivo. Não é uma história de boy meets girl, é uma história de merda mesmo. Cocô. Ou um pum. Às vezes até um arroto. O final é o mesmo. Nada exclusivo ou especial. Na verdade, de forma abrangente, é uma das coisas que nos faz iguais.

Uma cagada pode ser aliviante. Pode ser cômica. Às vezes angustiante. Uma prisão do ser. Prioridade um. Uma boa cagada pode levar todos os seus problemas, literalmente, pelo ralo. Um descarrego mal feito pode resultar num péssimo dia. Não importa o segundo anterior, ou posterior. No momento que o ânus pisca, nada te torna mais animal que a grosseria do seu corpo expelindo aquilo que lhe é desnecessário.

Um conselho: dê uma bela cagada todos os dias. Bata no peito, respeite-se. Dê uma tchauzinho na hora de se despedir. Afinal, os seus rejeitos não são apenas residuais, mas uma constatação daquilo que lhe é inútil. Cague mesmo, real ou metaforicamente; cague pro que não te faz bem, cague pro que não lhe é necessário, cague pro que já foi consumido e absorvido pelo corpo. Prender-se ao que não te faz bem só não é pior que prisão de ventre.

Quando alguém vier lhe perguntar "Tem dor maior que dor de amor?", pergunte-lhe, com sinceridade "Já ficou 5 dias sem cagar?". Reveja suas prioridades. Mais vale um bostejo na privada que no seu feed do facebook. 

Vá cagar.

E se tiver sorte, um sonzinho no estômago de alguém especial pode virar a premissa de um dia maravilhoso.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A menina que dorme (e ama)

Provavelmente esta não é a primeira vez que você se depara com esta frase: Ela dorme. Muito. Talvez você viva sob a acunha desta frase, conjugando-a em primeira pessoa.

Pode ser que você já tenha se identificado com esta frase um dia.

Contudo, de todos os seres que dormem, tão únicos quanto seus sonhos ou perambuladas em REM, monte à imaginação o ser/estar angelical de quem amas.

Ela vive. A rotina que desmonta, a rotina que disciplina, a rotina que ensina, que restringe e que liberta. Dia após dia, tramando por si os planos de conquista, de virada, de passagem. Bem tem uns 3 ou 4 dias, que no meio da madrugada, ela se esquivou de um ninja, plantou um limoeiro, viajou a Bangladesh e ainda leu um poema nas ruas de Florença.

Numa outra noite dessas se transformara no pernilongo que lhe incomodava, e na melhor genialidade de “feitiço contra o feiticeiro”, zumbiu por 40 minutos na cabeça do mosquito, e este, de tédio morrera.

Vez ou outra, remonta amizades, revisita amores, reconstrói diálogos, revive momentos. Vez ou outra o que era par ser sonho, é real. De vez em quando, o que era para ser real era sonho.

Ao raiar de umas 3 horas da tarde qualquer, beijara seu amado, abraçara a mãe, cantava com os amigos, encenava com o rei. Beijara uma amiga, brindava com o primo e ensinara o passinho do romano à avó.

Brincava que era uma deputada, soltava uma pipa, dançava com um sorriso que encantava dos mais tolos às mais convictas. Cantava com a tonalidade angelical de quem conviveu com os bardos em alguma realidade alternativa.

O que é vida, o que é sonho, apenas você pode dizer.

No caso da menina que dorme, o que posso lhe confidenciar é que com ela, às vezes, a vida parece um sonho. E que sonhar é viver.


Ela dorme, levanta, come, conversa, ri, faz rir, conta, estuda, trabalha, come mais um pouco, vota, discute, expõe, ensina, aprende e no meio disso tudo, ela ama como se não houvesse outra fonte de amor no mundo. Sem escusas, sem malícias, sem dúvidas... ela ama tanto que de tanto amar ela dorme. E de tanto dormir, ela ama.

Tanto é que por vezes há indefinição, se ela dorme porque ama, ou se ama porque dorme. De certo, ela ama dormir.

Do início ao fim, do título ao ponto final, madrinha da partícula de inspiração que colore estas linhas de ausência de cor, fica a alcunha que lhe coube - a menina que ama (e dorme).

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Finalmente

O tecido se move gracioso em um dança provocativa vermelha e dourada, assim como aprendeu quando ainda era muito pequeno. Seu corpo está sublimemente ereto, tal qual um bailarino, mas diferente deste, ele está com um fina espada e uma rosa em suas mãos.

A arena inteira está em silêncio aguardando o próximo movimento, que assim como todos, pode ser o último. O silêncio é quebrado quando após a besta passar furiosa, toda a torcida rompe em um grandioso "Olé!".

O couro do torso do touro toca suavemente a roupa brilhante de seu nêmeses, que apesar da falha imperceptível para a plateia, sabe que cometeu um erro e mesmo decepcionado continua com seu olhar pétreo para o adversário, fazendo pequenos movimentos nessa dança cruel.

O toureiro está na arena e não está, os antigos chamam isso de espirito da arena. Quem comanda seus passos não é a sua vontade própria, mas sim a vontade de todos os toureiros que vieram antes dele e antes dos toureiros, do próprio Deus que ensinou essa arte aos homens.

A plateia veio pelo banho de sangue, mas ele está ali em respeito as antigas tradições e até mesmo em respeito ao próprio touro. Cada trote desembestado da criatura é correspondido com um movimento técnico. A fúria e a razão dançando enquanto são aplaudidas por uma legião de ignorantes.

Tudo é belo, tudo é cruel. O toureiro cansa o touro fazendo o mínimo esforço. A besta tenta desesperadamente matar o toureiro, mas mira no lugar errado. Assim ambos continuam, assim ambos mantem este ritual que só termina com a morte de um dos dançarinos.

Mas neste dia foi diferente, o dançarino não se manteve no espírito da arena, deixou seu coração ser tomado pela mesma fúria que havia no coração do touro. Lembrou-se do dia anterior, quando sua amada resolveu partir e com a fúria, veio o medo e com o medo, a cegueira.

Uma piscada mais longa. Somente estes poucos segundos de trevas absolutas, foram necessários para dar fim a dança. O longo chifre pontiagudo da criatura perfurou seu peito, no exato local onde estava seu já dolorido coração e agora toureiro e touro são apenas um ser horrendo e bizarro circulando pela arena.

A rosa vai o chão e a torcida horrorizada com desfecho do macabro espetáculo grita desesperadamente, retirando crianças agora traumatizadas e se pisoteando-se na busca por alguma saída daquele teatro de horrores. Todos compartilham agora o medo, a fúria, o desespero do touro. O ritual tem o seu pior desfecho.

A consciência do toureiro voa por todos os lugares que já esteve, rememorando alegrias e tristezas, momentos felizes e traumas secretos. Tudo enquanto trota em agonia junto a criatura a qual deveria ter sido o assassino.

Sabendo que tudo está perdido e que suas esperanças de glória e amor terminaram naquela sangrenta arena, utiliza suas últimas forças para, com sua espada, causar um golpe fatal na besta assassina. O ritual foi profanado. Ele sabe que deveria dar ao touro o direito de viver, assim como o teria caso tivesse sido o vencedor da disputa.

Sua mão encontra o couro ainda quente da besta e com um toque quase carinhoso, pede desculpa.

Agora ambos podem finalmente descansar.



domingo, 3 de janeiro de 2016

5 Coisas que Aprendi em 2015

Se existem duas coisas que a internet adora nessa época de virada de ano são: retrospectivas e listas. Então, mesmo soando um pouco clichê para os leitores mais exigentes, aqui estão cinco coisas que aprendi em 2015.

1. Você vai perder coisas pelo caminho.

A vida gosta de testar seus tripulantes com desafios para mensurar a sua vontade, e um dos piores testes que ela pode fazer é tirar coisas que você tinha dado como certas. Quem me conhece sabe que não sou o cara mais aberto do mundo e por fingir um nível de sabedoria maior do que tenho, propago a máxima da "impermanência do mundo", mas mesmo já teorizando sobre isso, sentir na pele é bem mais complicado e doloroso. Por incrível que pareça, o aprendizado que essas perdas vão te dar, te levarão a descobrir uma simples e subvalorizada coisa: Você vai sobreviver. Pode até parecer impossível na hora, mas você vai sobreviver.

2. Você vai encontrar coisas pelo caminho.

Nesses tortuosos caminhos, algumas vezes, coisas que irão reacender a chama da inspiração no seu coração e isso vai te fazer ver - ou voltar a ver - cor nessa louca viagem que passamos na bola azul. Ela pode vir de muitas formas, podem ser pessoas, oportunidades, ideais, livros, o que for, aceite, nunca devemos desperdiçar essa fagulha quando ela aparece. No entanto, é bom - para não dizer fundamental - saber diferenciar o que realmente acende essa fagulha, para não desperdiçar energia e tempo com "não-fagulhas".

3. Sempre seremos perfeitos estranhos.

Não importa o quanto conheçamos alguém, amores, amigos, parentes, nunca conheceremos de verdade essa pessoa. Dá sua mãe ao padeiro da esquina, você só vai se saber uma fagulha mínima do que elas pensam e sentem no fundo de suas almas, podendo haver pântanos pútridos onde pensamos existir belos jardins e vice versa. Essa impossibilidade de concretização da meta não tira seu mérito e mesmo que por apenas uma noite, devemos tentar conhecer os outros.


4. É Ok pensar em desistir às vezes. 

Campbell com a sua Jornada do Herói já cantava a pedra, dizendo que todos os heróis vão, no começo de sua jornada, negar o caminho que foi escolhido no fundo de seus corações. Não pretendo me considerar um herói, mas como mitos são generalizações dos indivíduos, posso pegar emprestado essas etapas e tentar adequar a minha humilde existência. Pensei em largar meu caminho esse ano e percebi que a simples contemplação do que seria a vida sem os meus objetivos me fez retornar a senda que apetece minha alma. É importante lembrar que mesmo que deixemos de fazer o que queremos de verdade por um tempo, temos que sempre voltar ao nosso objetivo principal.

5. Atravesse a ponte.


A origem dessa lição é meio boboca. Nesse ano fiz minha primeira viagem para fora do Brasil, mesmo que apenas por algumas horas, estive fora do território nacional e tudo que tive fazer foi atravessar uma ponte, como tantas outras que já atravessei aqui no Brasil, mas diferentes destas, aquela me levava para o mais longe que já estive de casa. Podem até os quilômetros não serem tantos, mas o contexto fazia com que fossem. E o que tive de fazer foi atravessar uma ponte.
Essa sensação é meio estranha de descrever, pois ainda que meu corpo estivesse tenso e meu olhar atento, o meu coração batia com uma felicidade que há tempos  não batia.

Se puder aprender apenas uma lição de 2015, mesmo que seja misterioso e desconhecido, atravesse a ponte.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O primeiro sorriso


Foi de cara. De primeira. Espontâneo. Instantâneo. Sem planejamento. Simples. Profundo. Significou muito. Abrigava uma vida. Acomodava um século em um segundo. O tempo parou.

Em um breve momento, houve uma transposição. Qualquer aflição, qualquer dúvida, qualquer briga com o passado, qualquer vício ou descrença se desfizeram. A certeza da felicidade estava ali, em um lapso. Sabe aquele lance da vida ficar mais colorida? Era inspiração para qualquer artista.

Transporte. Em um segundo é como sair da realidade cinzenta, rotineira, do pensamento preguiçoso que nem se esforça para voar. E parar em uma casa no campo, harmônica, verde, tranquila. A paz sintetizada em um momento. A brisa fresca toca o rosto no mais fechado dos ambientes. Te faz acreditar. Nem dá pra saber em quê, mas acreditar. Acreditar que o mesmo Deus que fez os céus, as estrelas e os rios, fez aquele sorriso.

Repetição. Saber que é possível atingir aquele êxtase com pouco. Se esforçando muito ou pouco, basta saber que com amor e dedicação as coisas acontecem. Uma piada boba, uma declaração simples, um discurso prolongado, um olhar. Um sorriso que será certamente correspondido com outro. Ela pode nem saber, mas seu sorriso é um banho para a alma. É capaz de transcender a matéria, o metafísico, o espiritual, atingindo patamares desconhecidos pela interpretação do cérebro. É aquele velho protocolo do sentimento: o que o torna real é senti-lo.

Descrição. E o que se sente se descreve? Nessa constante batalha para traduzir em comunicação o que temos dentro de nós e externar, compartilhar, ser ouvido, entendido e/ou compreendido, seja em palavras, imagens ou qualquer coisa interpretada por outrem, só concluo que... o vocabulário da língua portuguesa ainda não me ensinou um termo que descreva-o. Não é apenas lindo, ou perfeito. Talvez catártico ou sinestésico. Certamente mágico.

Causa. Causou perda. Perda do medo. Do tédio. Da solidão. Da dúvida. Da importância de muitas coisas, inclusive do que já não devia importar mais.

Foi o primeiro. O primeiro de muitos que viriam. Mas aquele primeiro sorriso foi fulminante. Automático. Um tiro no coração, uma leveza na alma, uma mudança de perspectiva, uma contraída nas pupilas, uma certeza do que viria: plenitude. O que fica é a gratidão. Essa experiência dá propósito, muda a perspectiva, dá vontade. Dá um puta tesão de viver. E sabe qual é o melhor dessa história? Quando você percebe que o primeiro nada mais é  que o próximo.



Mas aquele primeiro sorriso... 

domingo, 20 de dezembro de 2015

Amor Metropolitano


Ela que entende a minha solidão
Trouxe a sua disfarçada de sorrisos
Para dividir comigo nessa cidade cinza

Ela que trouxe chuva
Para o Cantareira
Do meu coração

Ela que alivia
A minha certeza de Paulista
Com os seus olhos misteriosos
De Augusta

Disse que quer ficar
E não pensar em partir
Meu jeito sozinho de tão sozinho
Quer até não ser mais sozinho