Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O olhar de quem quarentena

Um passante com uma flor em mãos. Quatro da tarde. Seis continentes. Duzentas mil mortes. Duzentas mil vidas. Um observador de sua sacada. Muitos carros. Milhões de indagações. Nenhuma explicação. O passante mascarado passava. As horas corriam. O observador observava. O mundo girava, enquanto parado, por mais uma jornada. Parado para quem? Era dia e então já era noite. Às vezes o observador trocava um pelo outro. Dessa vez, por ter conseguido ver tão bem, era dia. Parecia injusto o passante passar com tanta objetividade carregando aquela flor. O observador só poderia imaginar o porvir da cena, mas nunca saberia. Como ficam as histórias de amor quando todos são obrigados a ficarem distantes? Há uma lacuna na vivência de contos da Terra? É esse mais um conto coletivo? Talvez todos os amantes desrespeitem um pouco o decreto de isolamento. Talvez pudessem morrer de tristeza, em vez de virose. Talvez os duzentos mil mortos também o fizessem, estivessem eles vivos para amar.  Talvez aquele passante estivesse indo amar alguém em segredo, sem saber que era observado; sem saber que o maior desejo de quem o observava era, também, poder amar, sem carregar nas costas o peso de todas as vidas que continuariam a ser amadas quando tudo passasse, se não estivessem perdidas. 
O passante passado e a injustiça aceita fizeram o observador quitar seu olhar para baixo. Olhou, agora, duas horas depois, para o céu. Já havia uma estrela. Uma pipa apareceu e rapidamente sumiu por trás de outra casa. Uns oito pássaros iam e vinham. Talvez contar o tempo, os pássaros, as pipas, as estrelas, preenchesse um pouco aquele vazio que parecia existir no mundo... em si, já que não se podia contar com a colaboração de outras pessoas para a contenção de um mal global. Da sacada, o observador observou tudo: o passante passar, os elementos da mesma paisagem de sempre, o dia virar noite, a dor do mundo, a dor de si. Fechou o lado de lá junto à porta que o conectava com ele – a da sacada –; abriu a porta de dentro para primeiro se curar. Depois, quiçá, permitir-se-ia indagar mais. Pode ser que daí viesse alguma resposta. Que aquele passante vá e ame e volte protegido de sua aventura, enquanto o observador se protege a esperar.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A menina que dorme (e ama)

Provavelmente esta não é a primeira vez que você se depara com esta frase: Ela dorme. Muito. Talvez você viva sob a acunha desta frase, conjugando-a em primeira pessoa.

Pode ser que você já tenha se identificado com esta frase um dia.

Contudo, de todos os seres que dormem, tão únicos quanto seus sonhos ou perambuladas em REM, monte à imaginação o ser/estar angelical de quem amas.

Ela vive. A rotina que desmonta, a rotina que disciplina, a rotina que ensina, que restringe e que liberta. Dia após dia, tramando por si os planos de conquista, de virada, de passagem. Bem tem uns 3 ou 4 dias, que no meio da madrugada, ela se esquivou de um ninja, plantou um limoeiro, viajou a Bangladesh e ainda leu um poema nas ruas de Florença.

Numa outra noite dessas se transformara no pernilongo que lhe incomodava, e na melhor genialidade de “feitiço contra o feiticeiro”, zumbiu por 40 minutos na cabeça do mosquito, e este, de tédio morrera.

Vez ou outra, remonta amizades, revisita amores, reconstrói diálogos, revive momentos. Vez ou outra o que era par ser sonho, é real. De vez em quando, o que era para ser real era sonho.

Ao raiar de umas 3 horas da tarde qualquer, beijara seu amado, abraçara a mãe, cantava com os amigos, encenava com o rei. Beijara uma amiga, brindava com o primo e ensinara o passinho do romano à avó.

Brincava que era uma deputada, soltava uma pipa, dançava com um sorriso que encantava dos mais tolos às mais convictas. Cantava com a tonalidade angelical de quem conviveu com os bardos em alguma realidade alternativa.

O que é vida, o que é sonho, apenas você pode dizer.

No caso da menina que dorme, o que posso lhe confidenciar é que com ela, às vezes, a vida parece um sonho. E que sonhar é viver.


Ela dorme, levanta, come, conversa, ri, faz rir, conta, estuda, trabalha, come mais um pouco, vota, discute, expõe, ensina, aprende e no meio disso tudo, ela ama como se não houvesse outra fonte de amor no mundo. Sem escusas, sem malícias, sem dúvidas... ela ama tanto que de tanto amar ela dorme. E de tanto dormir, ela ama.

Tanto é que por vezes há indefinição, se ela dorme porque ama, ou se ama porque dorme. De certo, ela ama dormir.

Do início ao fim, do título ao ponto final, madrinha da partícula de inspiração que colore estas linhas de ausência de cor, fica a alcunha que lhe coube - a menina que ama (e dorme).

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A morte


Faz tempo, não me lembro direito quando,  mas o que lembro é que foi em uma manhã. Meu sono foi perturbado por um delicado chacoalhar que foi aumentando de intensidade até me arrancar do reino de Morpheu, ainda atordoado, com a vista recuperando o foco e se adaptando aos poucos raios da luz matinal que entravam pela janela vi minha morte ao lado da cama.

Nunca a tinha visto antes, mas ao fitar seu semblante soube instantaneamente que era a minha morte, só tive tempo de uma breve oração antes dela começar a falar.

- Pode parar com isso, não vim para te levar agora, vim apenas te falar que hoje eu posso te levar, então é bom começar a arrumar as coisas.

Tentei argumentar,  mas antes que as palavras saíssem ela já não estava mais no quarto. Corri feito um louco, tomei o melhor banho da minha vida, pois tinha a certeza que era o último,  tomei o café com a mesma certeza, falei com todos que quis, escondendo a mesma certeza, pois achei melhor evitar prantos desnecessários antes da hora.

O dia voou e nem sinal da minha morte, fui dormir com a certeza que seria durante o sono que ira passar dessa pra melhor.

De repente sinto o agora conhecido chacoalhar e ao abrir os olhos vejo novamente minha morte.

- Estou pronto - digo com a mais digna certeza - pode me levar para onde for.

- Levar?

Acho que escuto uma risada, se é que a Morte pode rir.

- Não vou te levar, só vim dizer que posso te levar hoje.

Fico atônito.

- Não foi isso que você me disse ontem?

- Sim e direi isso todos os dias pelo resto da sua vida para que nunca se esqueça que estou a um passo de distância,  todas as suas ações devem ser guiadas com a convicção que posso te levar a qualquer momento.

- Devo viver como se não houvesse amanhã?

- Não vim te dizer como deve viver. Vim apenas dizer que estou sempre por perto.

E assim ela desapareceu novamente.

Nos primeiros dias corri para fazer tudo que me desse vontade,  sempre sendo acordado nas manhãs pelo meu insólito despertador, mas os dias foram passando e meu único encontro com a ceifadora era no despertar.

Isso foi me dando confiança para tentar coisas de mais longo prazo,  buscar a ocupação que queria, o relacionamento que desejava, fazer os exercícios que achava interessante, tudo isso sabendo que podia ser a minha última ação,  pensava "se morrer agora, morrerei tendo feito o que quis ".

Teve vezes que tentei barganhar, por motivos mais e menos nobres, as vezes quis negociar alguns minutinhos mais na cama e em outros implorei que ela me desse a garantia que não me levaria pelo menos enquanto os meu filhos fossem pequenos,  mas independente da nobreza dos meus pedidos,  ela apenas falava que poderia me levar a qualquer momento e desaparecia.

Os anos se passaram e a quantidade de sacolejos necessários para me despertar iam aumentando. Foi então que um dia a minha Morte ao entrar no quarto ponderou se deveria me conceder os tão pleiteados cinco minutos, mas ao ver meu sorriso enquanto dormia, sorriu também e me deu muito mais do que cinco minutos,  me deu a eternidade.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Bem-vindo à Arena (Welcome to the Grind)

Levante e brilhe.

São 6 da manhã, você ainda nem desligou o seu despertador e as vozes na sua cabeça começam a dizer que está muito cedo, muito escuro e muito frio para sair da cama.

As dores no corpo começam uma rebelião, fingindo que seu cérebro não está ordenando-lhe para se mover. Uma legião de vozes está gritando em coro unânime para apertar o botão de soneca e voltar à terra dos sonhos.

Mas você não pediu a sua opinião.

A voz que você escolheu ouvir é uma que te desafia. A voz que diz que há uma razão para você ter definido esse alarme em primeiro lugar.

Então, sente, coloque os pés no chão e não olhe para trás, porque temos trabalho a fazer.

Bem-vindo à Arena

Cada dia será uma série de batalhas entre o caminho certo e o caminho fácil. Dez mil caminhos para o delta do rio surgem diante de você, cada uma prometendo ser o caminho de menor resistência.

A questão é que você está indo contra a correnteza.

Quando você fizer essa escolha, quando decidir virar as costas para o que é confortável, seguro, e que alguns chamariam de "senso comum". Bem, esse é o primeiro dia, dai em diante só fica mais difícil.

Então é preciso ter certeza que isso é algo que você realmente quer. Porque o caminho fácil sempre estará lá pronto para afastá-lo. Tudo que você tem a fazer é segui-lo.

Mas você não vai, não é? A cada passo, vem à decisão de tomar o outro.

Você está no seu caminho agora, mas isso não é sobre de quão longe você veio.

Você está em uma luta contra um adversário que não se pode ver, mas pode sentir.

Você pode senti-lo respirando bem atrás de você.

Você sabe o quem é, certo? Isso mesmo, é você.

Seus medos, suas dúvidas, suas inseguranças todos eles alinhados como um pelotão antiaéreo pronto para derrubá-lo do céu.

Mas não desanimamos.

Eles podem não ser facilmente derrotados, mas estão longe de ser invencíveis.

Lembre-se, esta é a Arena.

A batalha definitiva entre você, sua mente, seu corpo, e o diabo em seu ombro dizendo que  “é apenas um jogo”, “isto é apenas um desperdício de tempo”, “Seus oponentes são mais fortes do que você”.

Abafe a voz da incerteza com o som do seu próprio coração, queime a sua insegurança com o fogo aceso dentro de você.

Lembre-se porque você está lutando e nunca se esqueça de que o momento é uma amante cruel, ela pode destruí-lo com o menor dos erros, está sempre procurando o ponto fraco da sua armadura, aquele que você se esqueceu de preparar.

O diabo se esconde nos detalhes, mas a questão permanece .... Isso é tudo que você tem?

Tem certeza?

Quando a resposta for "sim", você já fez tudo o que pode para se preparar para a batalha. Essa é hora de seguir em frente e corajosamente enfrentar o seu inimigo.

O inimigo interior.

Agora você deve levar essa luta para o campo aberto, em território hostil.

Você é um leão em um campo de leões, todos caçando a mesma presa ilusória com uma fome desesperada, que diz: "A vitória é a única coisa que pode mantê-lo vivo".

Acredite na voz que diz: "você pode correr um pouco mais rápido.” “você pode fazer as coisas melhor”.

Para você, as leis da física são apenas uma sugestão.

Sorte é para aqueles que querem acreditar que a vitória só pode acontecer por acidente.

Suor, por outro lado, é para aqueles que sabem que é uma escolha.

Portanto, decida agora, porque o destino não espera por ninguém.

Quando chegar a sua hora e mil vozes diferentes estiverem tentando dizer: "Você não está pronto para isso!".

Invés disso, ouça a pequena voz que diz: "Você está pronto! Você está preparado! É tudo com você agora!".


Então, levante e brilhe.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Calor, né?



Meus pais moram em um prédio de 11 andares desde que se mudaram pra lá em 1991. Conta rápida, fazem 23 anos que eles se mudaram pra lá. Assim como meus pais, tem 23 anos que o Sr. Pereira (nome fictício), um oriental vindo do interior do Estado de São Paulo, casado e pai de um casal, mora neste edifício de 11 andares. Sr. Pereira foi um dos primeiros adultos que conheci no prédio, que ainda era pouco habitado no início de 1991. Sempre muito sorridente, era comum encontrar com o Sr. Pereira no elevador ou no saguão do prédio, a levar seu cachorro para fazer necessidades na rua. Infelizmente, apesar de seu belo e cativante sorriso, Sr. Pereira não era detentor de outras habilidades sociais. Toda vez que nos encontrávamos era sempre o mesmo tipo de comentário sobre o tempo: "Que calor, hein! Tá demais esse ano. Assim ninguém aguenta." ou "Nossa, nesse frio fica difícil levar o cachorro na rua. Odeio esse frio." 

Como meus pais e o Sr. Pereira ainda residem por lá, é comum que eu o encontre quando vou visitar meus pais. Hoje o Sr. Pereira sorri menos, com dentes amarelados, os filhos do Sr. Pereira se mudaram do prédio, a mulher do Sr. Pereira se mudou do prédio, o cabelo do Sr. Pereira se mudou de sua cabeça, o elevador do prédio mudou, os porteiros mudaram, a cor do prédio mudou, o cachorro do Sr. Pereira mudou (o primeiro morreu), mas tem uma coisa que não muda nunca: o assunto do Sr. Pereira ao me encontrar no elevador, e seu ódio constante tanto pelo frio quanto pelo calor. 

Ei, Sr. Pereira, vai tomar no meio do seu cú! Nossa, que vontade mórbida eu tenho de segurar a cabeça dele contra a porta corrediça do elevador quando ele começa a falar do tempo. Infelizmente o Sr. Pereira não é o único. 7 a cada 5 pessoas que puxam assunto falando do tempo o fazem reclamando. Bom, deixa eu falar uma coisa pra vocês, Srs. Pereiras: todo ano vai ter verão, vai chover um monte e vai fazer calor pra carelho, vai ter inverno e vai fazer um frio da porra e você vai ter que aguentar isso, querendo ou não, porque não há nada que se possa fazer para evitar as estações do ano. Toquem a vida, sejam felizes, reclamem de algo em que possamos trabalhar pra melhorar. Enquanto isso não acontece, vão se foderem e não me incomodem com esse mimimi sobre o clima. Obrigado

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Centenário 5/5


Os atos
Arnaldo viu o filho atravessar o salão e se dirigir para as escadas. Não havia prestado atenção se ele havia dito para onde ia, de certo pegar o carro para buscar algo. Com outro copo vazio na mão um aborrecimento cotidiano latejava em sua mente, sua nora. Lá estava ela, pura casta, perfeita... Errada. A simpatia constante, a paciência contínua, o sorriso pronto, não entravam em sua cabeça. Como ela podia se acreditar tão boa? Se fazer tão MELHOR que todas as outras?
Arnaldo a considerava uma blasfêmia encarnada, entre dentes dizia, fitando Clarinha de longe:
- Essa mulher é um desacato ao gênero humano, um desaforo à criação. Conviver com ela é como assistir uma adaptação de Dom Casmurro com uma Capitu anti-machadiana, ou a Engraçadinha Anti-Nelson Rodrigues. Ela é a garota anti-mulher, que ofende as demais com a sua pureza... Como as velhas falam mesmo? “A mulher sem pecado”. Seu sorriso zomba de todas as outras como quem diz: “Seu destino é pecar”
Com isso em mente Arnaldo encheu o copo, bebeu de um trago e se levantou. Se aproximou da noiva e avisou que o Jorge a esperava no apartamento, com urgência.
Na garagem Jorge caminhava atônito pelo espaço mal iluminado entre os carros, não sabia onde Lúcia estava, talvez aquela ordinária só estivesse brincando com ele e nem tivesse ido para a garagem. O lugar é grande, Jorge não tem muito onde procurar até que uma idéia lhe vem a cabeça. Procura pelas chaves do carro no terno mas não as encontra.
- Safadinha...
No 15° andar Clarinha sai do elevador e vai até o apartamento, caminha por ele todo chamando por Jorge, está vazio, na saída encontra Arnaldo na porta.
Ao chegar em seu carro Jorge abre a porta dianteira, como esperado o alarme não dispara, a luz interna acende e Lúcia está deitada no banco de trás com as chaves na mão... O que ele não esperava era encontrá-la nua e sorridente.
Num suspiro suando frio ainda conseguiu imaginar Clarinha flagrando-o nesse ato e de alguma forma se culpando, considerando que ele buscava suprir alguma insuficiência sua e dizendo em prantos: “Jorge, perdoa-me por me traíres”. Esse pensamento deveria ajudá-lo a parar, mas só lhe deu forças para num último lampejo de moralidade arriscar:
- Isso é muito errado...
Ao que ela respondeu entre um tom sexy e infantil.
- Ops... E você vai me castigar?
- Sim... concluiu ele sorrindo - ... Toda essa nudez será castigada.
Com esse comentário ela riu histericamente, ao que ele saltou para dentro do carro e tapou-lhe a boca, gesto que ela respondeu com leves mordidas em seus dedos, antes de um beijo voluptuoso.
No apartamento Clarinha não entendia a situação, assustada interpelava o sogro enquanto buscava se afastar.
- Senhor Arnaldo, o que está acontecendo? Onde está o Jorge?
- Saiu...
- Saiu pra onde? O senhor está me assustando! Se se aproximar mais eu vou ser obrigada a gritar! Soc...
Num movimento rápido Arnaldo aperta a boca da garota abafando qualquer som, pressionando seu tórax contra o corpo mirrado de Clarinha ele fala enchendo suas pequenas narinas com seu hálito de uísque, enquanto a outra mão rasga o vestido espalhando pérolas pipocantes pelo chão escuro.
- Passou da hora de você ver a vida como ela é....



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Centenário 4/5


A cunhada
Desceram. Jorge acreditava que a presença de seu pai inibiria seus olhares para Lúcia, mas eis que vem a serpente se esgueirando por entre os convidados, aquele anjo negro encarando-o e se aproximando.
- Você sumiu Jorginho, dançou com a minha irmã quando chegaram e foi pra não sei onde! Que graça tem ir em um casamento e não dançar com o noivo? Escuta, essa já é a valsa de n° 6 que toca e eu sem te encontrar.
Puxou-o para a pista. Enquanto dançavam ela mordiscava levemente o lábio inferior retirando um pouco do batom dourado usado para combinar com seu colar. Jorge olhava fixamente para aquela boca de ouro. Ao fim da música Lúcia sussurrou-lhe ao ouvido:
- Te quero agora, vou te esperar na garagem.
-Estás louca. Respondia entre dentes Jorge.
- Se não quiser é só não ir.
Enquanto ela se afastava, ainda fitando-o, Jorge com os olhos no rosto pérfido da cunhada pensava: “- Que garota ordinária...” Então ela se vira e segue caminhando rebolativamente pelo salão, contemplando tal rebolado completa o pensamento: “... Mas bonitinha”.
Voltou para o lado do pai que se mostrava visivelmente incomodado, ficou sem saber se o velho havia notado algo. Soltou meia-dúzia de palavras, volta e meia lançando olhares para a saída de incêndio que dava na garagem.
Por fim disse ao pai que se alguém o procurasse ele estava indo resolver um problema e demoraria um pouco, ergueu a cabeça enquanto caminhava e seguiu decidido a conversar com a cunhada, esclarecer as coisas... Afinal, que mal pode haver em uma conversa?


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Centenário 3/5


Arnaldo
Sentado na sacada do 15° andar Arnaldo folheava o álbum de família. Via com nostalgia a casa em Saquarema, as férias em Angra ainda na velha brasília, Boris o labrador, Felícia  a gatinha... Parou um instante, uma foto de quando a dita gata deu à luz sete gatinhos. Lá estavam eles junto à Felícia, o menorzinho no colo da Rita... A falecida gostava muito de gatos.
Arnaldo não era desses viúvos melancólicos, mas, naquela noite procurava por algumas lembranças que o mantivessem nos eixos. Olhou para o copo de uísque quase vazio na mesa, talvez também precisasse parar com o álcool, talvez, e jogou o que restava na garganta.
Nesse instante Jorge irrompe porta à dentro com estrondo, fazendo o homem saltar de susto se engasgando. Ainda tossindo gritou.
- Nossa Senhora dos Afogados, Jorge, para que essa ignorância toda?
Sorrindo o rapaz emendou: - Está inventando nome de santo agora pai? Ora, vim aqui leva-lo de volta para minha festa de casamento!
- Bebi demais, é melhor ficar por aqui pra não fazer besteira.
- Nada disso, há um monte de bêbados lá em baixo, não é o senhor que vai ficar de fora! Olha só, está andando bem, e conversando perfeitamente! Deixa de conversa.
Recolocando o álbum na estante Arnaldo pensa: “- Não existe perfeição assim... não dá.”

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Centenário 2/5


O noivo
Por fim, chegou o grande dia. E após uma cerimônia com rompantes de emoção de tias e madrinhas suficiente para encher um livro, os convidados foram para a festa no condomínio do noivo, em Laranjeiras.
-Então Jorge, qual a sensação da forca? Caçoava Carlos, seu amigo mais chegado.
-Até agora uma ótima sensação. Não tenho do que reclamar.
- Bem, você tem 30 minutos de casado, voltarei a perguntar quando tiver 30 anos. Dito isso caiu em uma gargalhada ébria,
Jorge poderia tê-lo acompanhado no riso, mas estava atento ao movimento do outro lado do salão, onde Clarinha recebia as felicitações de diversos conhecidos acompanhada de perto por Lúcia, sua irmã. As duas faziam um belo contraste em sua caminhada. Clarinha em seu vestido de noiva sem alças e com botões de pérola, de uma alvura estonteante. Lúcia com um vestidinho preto que lhe mostrava boa parte das pernas e um decote que ressaltava os seios ornados por um colar dourado. Jorge refletia como uma garota de 17 anos podia ostentar aquele corpo.
Jorge respirou fundo, ele acabara de se casar, olhar para a irmã da noiva daquela forma era de um descaramento... Uma traição a seus princípios.
Normalmente a visão de Lúcia não era um problema, afinal ela estava sempre acompanhada e se esfregando em seu namoradinho playboy. Garoto ridículo... Jorge não pode evitar um risinho ao lembrar que o Fulano não veio ao casamento por ter caído de moto naquele dia. Torcia para que ele tivesse dado um tremendo de um beijo no asfalto!
Balançando a cabeça tentando pensar em outra coisa olhou em volta e sentiu falta de um convidado que deveria estar na festa.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Centenário 1/5


A noiva
Quinta-feira quente. O céu de Copacabana doía a vista de tão límpido. Próxima  à janela de um apartamento com vista pro mar D. Dorotéia, uma das mais tradicionais costureiras da cidade, dava os últimos ajustes no Vestido de Noiva.
Fazia um trabalho minucioso, conhecia Clarinha, a noiva, há tempos. Sem dúvidas ela era merecedora de todo esse esmero; uma jovem bonita, simpática, educada, atenciosa e de ótimo coração. Quando se referia a ela para suas amigas D. Dorotéia normalmente empregava o epíteto de “aquela santa mulher”, ou ainda, “A mulher sem pecado”, tamanho era seu carinho pela jovem. Logo, o vestido deveria ficar um mimo.
Na hora marcada para a prova do vestido Clarinha bateu à porta da velha senhora. Apertava a bolsa com as mãos angustiada, pensando nos preparativos para o matrimônio, o grande dia. Esperava que o vestido estivesse pronto.
Foi prontamente atendida pela boa senhora que disse:
- Olá meu anjo, vamos, entre. Fique à vontade.
Já com o vestido Clarinha se extasiava de frente para o espelho. Fazendas, sedas, bordados e botões de pérola se somavam em um conjunto deslumbrante. Na saída parou na porta e interpelou Dorotéia:
- Ficou perfeito Dô. Tem tantos detalhes, tanta beleza! Deve ter dado muito trabalho, estou até sem graça de pagar tão pouco. O preço está bem abaixo do que eu vi nas lojas...
- Não se preocupe minha filha, apenas não extrapolo os preços como umas e outras por aí. Como já dizia minha santa mãe no fim de sua vida, sou viúva, porém honesta, não trabalho extorquindo ninguém, não passo necessidades nem nada, e mesmo que passasse, não justificaria isso, certo?
Com um sorriso angelical Clarinha pagou o combinado e voltou para o carro onde Jorge a esperava.
- Não entendo o porquê de me fazer esperar aqui. Disse ligando o carro.
-Ué, nunca te disseram amor? O noivo ver o vestido antes do casamento dá azar.
Brincou a jovem se ajeitando no banco do carona.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Enquanto não chove



Em um dos meus dias de férias, acordo já cansado, com vontade de ficar mais 3 horas na cama, mesmo se perder o sono. Mas já era tarde, três da tarde, e eu tinha um compromisso, apesar de serem férias, e precisava levantar. Abri a folha da janela do quarto que vetava a luz e minha visão para o mundo lá fora.
 Céu cinzento, chuviscando e um frio que me empurrava de volta para a cama. Mas precisava mesmo ficar acordado.

Enquanto comia algo, tomava banho e arrumava minhas coisas para sair, percebi que o chuvisco ia oscilando sua densidade. Então antes de sair decidi apanhar meu guarda-chuva, já que poderia precisar de seu abrigo, apesar de reconhecer o risco que sempre corro de perdê-lo como o fiz com outros tantos.

Quando saio de casa olho para um poste que ilumina fracamente a rua para conferir a intensidade da chuva. Sim provavelmente irá me molhar a ponto de incomodar. Abro o guarda-chuva e começo minha caminhada. Esbarro com o meu abrigo no de outras pessoas que dividem a calçada comigo e começo a perceber a quantidade de pessoas com suas sombrinhas e afins. Mas, após uns três quarteirões, já avisto pessoas andando calmamente sem proteção para a água que cai do céu.

Olho mais uma vez para a lâmpada de um poste e vejo que a chuva não parou, apenas está mais branda. Também noto que o barulho das gotas que pingam sobre a lona não é tão pesado, na verdade não condenaria alguém se dissesse que não faziam barulho. Recolho a parte aberta do meu escudo e não me incomodo mais com a pouca água que cai, apesar de ainda estar chovendo.

Nesse instante penso em várias coisas que ainda existem, não percebemos quando, ou se, mudam, mas em alguma parte do caminho deixamos apenas de nos importar.

E com o guarda-chuva fechado em mãos sigo meu caminho.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Enfim, não torço porque...

Sou ateu.



O Futebol, o torcer por futebol tem muitas semelhanças com religião. Vamos do início: como se escolher uma religião? Se for ainda na infância, somos influenciados a escolher aquela à qual nossos pais pertencem, pois frequentam com determinada assiduidade a cultos, missas ou reuniões. Se a escolha ocorre mais tardiamente, pode ser que a mídia e os grupos de amizades venham a influenciar. O mesmo acontece com o futebol. Se a escolha ocorre na infância, geralmente há a outorga por parte do pai para que seus filhos torçam para o mesmo time que ele. Se a escolha ocorre mais tarde, a mídia mostra os times mais populares, as camisetas mais numerosas na rua, e os grupos de amigos convidam a ver jogos em bares ou estádios.

A prática do torcer tem ares de culto religioso. As pessoas se vestem e se pintam com as cores e o emblema de seus times e ídolos, assim como em cultos a determinados deuses. As danças e músicas entoadas com temas de vitória e glória ocorrem em ambos os ambientes, futebolístico e religioso.

O Futebol, assim como determinadas seitas, possui seus santos milagreiros, seus pastores. No futebol eles são chamados de craques, de ídolos, e são capazes de coisas impossíveis como um gol decisivo aos 47 do 2º tempo. Esses feitos são lembrados e relembrados por gerações, e bradados por torcedores que muitas vezes nem viram o feito de seu santo... foi seu pai quem lhe contou.

Hordas de torcedores de clubes diferentes se confrontam em disputas mortais apenas por usar camisetas e tintas diferentes, ignorando o fato de que muitas vezes adoraram os mesmo santos e deuses, (ídolos trocam de times  e súditos com certa frequência) assim como jovens católicos e protestantes na irlanda.

O torcedor gasta seu dinheiro, tempo, batimentos cardíacos e saúde no esforço de promover os valores de um clube, milagres de campeonatos que há muito estão no passado, de glórias conquistadas por santos mortos, de milagres que ele mesmo não viu. Promove valores fictícios que estão atrelados à violência, à marginalidade e à incoerência. O mesmo faz o religioso que ostenta seus símbolos, seus valores que encobrem crimes e vergonhas, milagres que nunca viu de santos que muitas das vezes nem existiram.

Adoro futebol. Sou um ótimo zagueiro se querem saber, e tenho o sonho de poder voltar a jogar minha pelada semanal como antigamente. Mas quero que me dê uma bixeira no cú no dia em que eu voltar a torcer por futebol.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

The Fool


tolo
to.lo
(ô) adj 1 Pobre de inteligência. 2 Que raciocina ou procede ininteligentemente; simplório, idiota, tonto, ingênuo, parvo, pateta. 3 Que não tem nexo ou significação. 4 Que faz ou diz disparate. 5 Que não tem razão de ser; despropositado. 6Ridículo, desagradável (falando das coisas). 7 Enfatuado, vaidoso. 8 Boquiaberto, espantado, pasmado. sm Indivíduo que não tem juízo; bobo, idiota, simplório, sebastião. Aum: toleirão e tolaz. Pl: tolos (ô). Fem: tola (ô). Antôn (acepções 1 e 2): inteligente.

Essa carta me faz pensar sobre muitas coisas, "O Tolo", é o 1° carta do baralho e não tem essa posição por acaso, todos somos "tolos" quando começamos coisas novas.

Ao contrário do que se poderia pensar, ela não recebe o número 1, recebe na verdade o número 0, talvez simbolizando que a verdadeira jornada ainda não começou, ele é ainda apenas um iniciante, um tolo, que acredita estar no caminho certo.

Não o menosprezemos, tolice é fundamental para o início de qualquer jornada, mesmo que seja para o precipício. 

Encarar desafios que estão fora da nossa compreensão é uma característica peculiar dos tolos, eles acreditam que as coisas são simples e simplesmente seguindo em linha reta podem chegar aos seus objetivos.

Este segundo ponto ajuda a entender outros elementos que existem nessa pequena imagem, ele caminha para o abismo enquanto observa as alturas. Seus objetivos podem ser nobres, talvez esteja buscando chegar a morada das estrelas, ou talvez não passe de um bocó que simplesmente não presta atenção no caminho que está seguindo.

Um cachorro tenta alertá-lo do caminho perigoso, ou melhor, desconhecido, que está trilhando. Qual é a altura do despenhadeiro? O que existe lá embaixo? Ele conseguirá retornar ao lugar onde iniciou caso precise? Não sabemos.

Se der ouvidos ao cão, poderá perceber as adversidades que o caminho esconde e se proteger adequadamente ou até mesmo desistir do caminho.

Pensando bem, mesmo que ouça o pequeno canino, ele continuará no caminho, afinal de contas ele é O Tolo.

Para sua jornada leva apenas algumas poucas coisas em uma sacola e uma flor branca, pobre Tolo, em sua inocência acredita que sua flor poderá servir de escudo contra qualquer eventualidade do caminho, o tempo dirá se é o suficiente, mas já posso afirmar que ele encontrará outra finalidade para ela em sua, talvez, épica saga.

O Abismo também é interessante. Ele guarda mistérios que não podemos ver, guarda talvez o maior mistério de todos os mistérios terrenos a Morte.

Quem em sã consciência o desafiaria? Teria que ter uma mente insana, ou pelo menos um corpo são para tentar tal empreitada.

O Tolo não o teme, provavelmente por não o conhecer, e se dirige despretensiosamente para ele.

Após encarar seu desconhecido caminho ele se tornará um iniciado, O Mago. Mas também devemos ressaltar que existe a possibilidade dele simplesmente morrer na queda.

Encerrando, tem um elemento que passa desapercebido para a maioria das pessoas, o Sol.

Ele não está ali por acaso, nada está ali por acaso.

Ele ilumina - até podemos dizer que observa - o caminho do Tolo, o que ele representa? Deus? A razão? Depende do freguês.

Poderia entrar em uma conversa mais mística, mas acho que não vem ao caso, quem sabe um dia continuo a falar sobre estas cartas e contar histórias mirabolantes (ou não) sobre elas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Faca de dois gumes


Em um dia de sol como todo turista adoraria ver na cidade do Rio de Janeiro, estava eu isento de todo esse calor em uma não tão confortável poltrona de ônibus. Porém tinha algo nele que me fazia agradecer qualquer coisa que poderia me incomodar no momento: ar-condicionado.

Um ar refrigerado através da subtração de umidade que tem como a principal característica o egoísmo. Sim, sempre em ambientes selados para que o ar não escape, afinal não daria para resfriar o mundo inteiro. E no ambiente no qual me encontrava, o selo principal era a janela, que além de impedir que eu sinta o calor também me tornava invulnerável ao enfado proporcionado pelos sons gerados por toda grande cidade.

Porém, ao pararmos em um ponto de ônibus vi uma cena que desejei que toda essa proteção se estilhaçasse no chão e me permitisse ouvir o que um artista de rua, um violinista, tocava. Considero-me um apreciador de vários estilos de músicas e instrumentos, e sem dúvidas, o violino é um que me fascina, talvez por não souber tocar. Cada nota executada ainda me parece mágica, como a uma criança aquele coelho saindo da cartola, e por não terem trastes o instrumento, eu não consegui se quer supor que notas eram tocadas e imaginar a melodia.

Era tão estranho assistir às diferentes expressões no rosto do mesmo garoto e a mesma de indiferença das várias pessoas que passavam e não poder ouvir o que saia daquelas quatro cordas. Será que eram músicas famosas? Será que eram tão mal executadas que valiam menos que uns centavos para desencargo de consciência? Ou seria o próximo gênio da música que o grande público jamais conhecerá? Não sei e nem posso dar uma opinião, e o que mais me incomoda é que chegando ao meu ponto de descida, comecei a sentir o calor e ainda não posso julgar a arte do violinista, por que já estou muito longe agora.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Não torço porque... parte 1




Recentemente me mudei de cidade pra fazer faculdade, e acabei conhecendo um monte de gente nova. Como sempre acontece, as pessoas que não se conhecem fazem perguntas umas às outras, buscando determinadas afinidades. Estando no Brasil, uma das perguntas mais comuns de se ouvir é "Pra que time você torce?". Há muitos anos eu não torço pra time algum, e me vi respondendo, ante olhares surpresos e preconceituosos: "Eu não torço." As pessoas acham estranho, mas eu tenho boas razões pra não torcer pra time algum:

1 - Eu sou medroso: 
Um vez, quando mais novo, estava andando de bicicleta pelas ruas de Resende, ostentando uma belíssima camiseta da TJB (Torcida Jovem Botafoguense... é eu torcia pelo Botafogo) quando parei num semáforo vermelho. Próximo ao semáforo havia um bar-reduto de flamenguistas, cheio de torcedores a assistir uma partida. Quando me viram, logo correram em minha direção e me cercaram. Eu não tive escolha a não ser esperar ser abordado, já que o tráfico de veículos automotores impedia uma fuga deses perada. Um dos meliantes rubro-negros chegou mais perto de mim e disse: "Tira essa camiseta que a gente vai pôr fogo nela!" Eu  fiquei estarrecido. Mal tinha 11 anos naquela época, e estava sendo brutalmente assediado e obrigado a me livrar da camiseta que eu tanto adorava. Tentei argumentar, mas logo senti os primeiros contatos físicos de punhos junto à minha nuca. Caí da bicicleta e, surpreendentemente uma mão veio à minha ajuda: era um antigo colega de escola que me disse: "Cara, pega a camiseta, enfia na cueca e se manda, que eu seguro o pessoal aqui." Foi o que eu fiz. Depois disso nunca mais usei minha tão adorada camiseta: tinha medo de que não pudesse ser salvo numa outra ocasião. Continuei dizendo ser botagfoguense a quem perguntasse, mas não ostentava mais o escudo do meu amado time, por medo.
Anos depois estava eu, já com 18 anos, em São Paulo, prestando vestibular pela primeira vez. Eu usava um cabelo azul-cor-de-orelhão-da-telemar. Com o tempo a tinta azul ia saindo e o cabelo ficando verde. Era final de 2003 e, se não me engano, o Palmeiras estava sendo rebaixado para a segunda divisão, enquanto o Corinthians comemorava alguma coisa. Estava voltando da prova da FUVEST com duas amigas quando nos deparamos com uma Av. Paulista fechada por torcedores do Corinthians, na altura do Pq. Trianon. De repente ouço: "Ei palmerense viado!","Se fodeu porco filho de uma puta". Fiquei pensando quem seria o louco do palmeirense a sair de casa num dia daqueles com a camiseta. Fiquei olhando para os lados, procurando esse ser idiota, quando ouço: "Vâmo pegá a bicha palmeirense do cabelo verde!". A pressão baixou e a visão enturveceu, num dos maiores momentos FODEU da minha vida. Uma das minhas amigas puxou minha mão e correu em direção à estação de metrô do Trianon. Mal negócio. Era domingo e a estação tava fechada com correntes e tudo mais. Quando olhamos para trás estávamos presos entre uma estação fechada e uma manada de corinthianos, separados apenas por uma leve estrutura de acrílico. Minhas calças começavam a se umedecer, quando, antes do pior, um senhor baixinho (pouco mais de 1,5m) com camiseta listrada de preto e branco entrou correndo, abraçou a gente e só largou depois que não tinha mais nenhum corinthiano à vista. Depois desse episódio eu fiquei paranóico, e pensava duas vezes antes de vestir qualquer tipo de roupa ou usar qualquer tipo de acessório que pudesse remeter a qualquer agremiação futebolística, e parei definitivamente de pintar o cabelo de azul.


eu gostava :(

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Devaneio Sentimental

Eis um pequeno texto, que escrevi de forma despreocupada e de cabeça vazia, pra (jargão seja usado) dona do meu coração. Só pra registrar que ainda não 'morri'...

"Dizer que amor da minha vida é redundância. Daqui até a eternidade, talvez, muita pretensão. Acreditar que nossos caminhos foram traçados na maternidade é praticamente afirmar que papai noel existe. Paixão desenfreada. Arranjar mil rosas é complicado, roubá-las ainda, inimaginável... e pra qual motivo?! Desculpar minhas mentiras, mancadas?! Não é necessário tanto, isso, como diz o título, é exagero. E aí o ponto... não sou exagerado, nem me jogo aos seus pés. Mas se o sufixo é suficiente, posso afirmar veementemente: sou apaixonado. E meu amor não é inventado. Ele é criado, com bases sólidas e design impecável. Se a distorção de um dos maiores clichês do romance brasileiro pode ser ousada, ao menos me permite resumir a peripécia em poucas palavras, e usando o gancho: Eu, exageradamente, amo você."

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Agradecimento ao Invisível



Já passei por alguns momentos bem difíceis na minha, ainda curta, vida. E nas horas de aperto sempre recorri ao Invisível. Já o chamaram de muitas coisas, Deus, acaso, coincidência, o nome não importa, o que importa é o que acontece.

Pode ser na noite mais escura, aquelas do tipo que o frio e as trevas fazem você esquecer que uma hora o sol nascerá novamente que costumamos pedir ajuda a trupe do Invisível. E invariavelmente eles nos ajudam. Podemos não perceber no momento, mas eles ajudam.

Por isso que gostaria de agradecer a esse (ou esses) amigo(s) Invisíveis que têm sempre me apoiado nos caminhos que sigo.
Gostaria de agradecer por todos os amigos, mulheres, familiares e experiências que eles têm me proporcionado viver e encontrar.

Gostaria de agradecer, como o poeta um dia já fez, ao Invisível por ter me dado uma alma invencível, que mesmo tento passado por dificuldades em algumas batalhas tem a certeza que sairá vitoriosa dessa vida.

Do fundo do meu inexperiente e algumas vezes tolo coração, obrigado.