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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Enquanto não chove



Em um dos meus dias de férias, acordo já cansado, com vontade de ficar mais 3 horas na cama, mesmo se perder o sono. Mas já era tarde, três da tarde, e eu tinha um compromisso, apesar de serem férias, e precisava levantar. Abri a folha da janela do quarto que vetava a luz e minha visão para o mundo lá fora.
 Céu cinzento, chuviscando e um frio que me empurrava de volta para a cama. Mas precisava mesmo ficar acordado.

Enquanto comia algo, tomava banho e arrumava minhas coisas para sair, percebi que o chuvisco ia oscilando sua densidade. Então antes de sair decidi apanhar meu guarda-chuva, já que poderia precisar de seu abrigo, apesar de reconhecer o risco que sempre corro de perdê-lo como o fiz com outros tantos.

Quando saio de casa olho para um poste que ilumina fracamente a rua para conferir a intensidade da chuva. Sim provavelmente irá me molhar a ponto de incomodar. Abro o guarda-chuva e começo minha caminhada. Esbarro com o meu abrigo no de outras pessoas que dividem a calçada comigo e começo a perceber a quantidade de pessoas com suas sombrinhas e afins. Mas, após uns três quarteirões, já avisto pessoas andando calmamente sem proteção para a água que cai do céu.

Olho mais uma vez para a lâmpada de um poste e vejo que a chuva não parou, apenas está mais branda. Também noto que o barulho das gotas que pingam sobre a lona não é tão pesado, na verdade não condenaria alguém se dissesse que não faziam barulho. Recolho a parte aberta do meu escudo e não me incomodo mais com a pouca água que cai, apesar de ainda estar chovendo.

Nesse instante penso em várias coisas que ainda existem, não percebemos quando, ou se, mudam, mas em alguma parte do caminho deixamos apenas de nos importar.

E com o guarda-chuva fechado em mãos sigo meu caminho.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Meu coração favorito


mal sei como o faço
mas juro não é por maldade
não sei como parar
por mais que peça piedade

então estou parado
escutando que sou insensível
te digo que foi de repente
e você que isso é impossível

quando eu quiser
sei que volta para mim
pelos bons momentos
por isso que sou assim

também posso te ajudar
a colar os pedaços
te faço abrir a guarda
para fazer o que eu faço

fazer sangrar
partir rasgar
meu coração favorito
para despedaçar
meu coração favorito
para despedaçar

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Faca de dois gumes


Em um dia de sol como todo turista adoraria ver na cidade do Rio de Janeiro, estava eu isento de todo esse calor em uma não tão confortável poltrona de ônibus. Porém tinha algo nele que me fazia agradecer qualquer coisa que poderia me incomodar no momento: ar-condicionado.

Um ar refrigerado através da subtração de umidade que tem como a principal característica o egoísmo. Sim, sempre em ambientes selados para que o ar não escape, afinal não daria para resfriar o mundo inteiro. E no ambiente no qual me encontrava, o selo principal era a janela, que além de impedir que eu sinta o calor também me tornava invulnerável ao enfado proporcionado pelos sons gerados por toda grande cidade.

Porém, ao pararmos em um ponto de ônibus vi uma cena que desejei que toda essa proteção se estilhaçasse no chão e me permitisse ouvir o que um artista de rua, um violinista, tocava. Considero-me um apreciador de vários estilos de músicas e instrumentos, e sem dúvidas, o violino é um que me fascina, talvez por não souber tocar. Cada nota executada ainda me parece mágica, como a uma criança aquele coelho saindo da cartola, e por não terem trastes o instrumento, eu não consegui se quer supor que notas eram tocadas e imaginar a melodia.

Era tão estranho assistir às diferentes expressões no rosto do mesmo garoto e a mesma de indiferença das várias pessoas que passavam e não poder ouvir o que saia daquelas quatro cordas. Será que eram músicas famosas? Será que eram tão mal executadas que valiam menos que uns centavos para desencargo de consciência? Ou seria o próximo gênio da música que o grande público jamais conhecerá? Não sei e nem posso dar uma opinião, e o que mais me incomoda é que chegando ao meu ponto de descida, comecei a sentir o calor e ainda não posso julgar a arte do violinista, por que já estou muito longe agora.

domingo, 14 de agosto de 2011

Coisas que não se entende... Parte 2/2

"Ao acordar, nada diferente da manhã passada. Ele percebeu que tudo estava como o dia anterior e então resolveu ir novamente ao campo onde era tão feliz, ele carregava consigo sua caixa com a viola. Chegando ao local procurou e chamou por mais de uma hora sua amada, e nada. Sentou-se ao pé de uma árvore para descansar e lá começou a tocar acordes tão tristes quanto sua alma naquele momento. De repente aquele lugar não era nada convidativo e nada belo, era cansativo, faltava algo ali, e ele sabia o que era.

Chegando à casa de seus novos amigos ele a encontra vazia, mas tudo está intacto, móveis e enfeites, menos suas lembranças agora. Ele grita por todos, por qualquer um, por uma em especial, mas ninguém atende. Milhões de coisas passam por sua cabeça. O jovem agacha-se com a cabeça entre as pernas e começa a chorar, parece que esses poucos dias que estivera ali se transformaram em toda a sua vida. Ele pensa que aquilo é um pesadelo, nada mais pode fazer, se não esperar que alguém o acorde. Mas quem? Ele adormece ali, no chão, de tão cansado que estava.

Mais uma vez consciente, ele ainda se encontra mergulhado na mais profunda das depressões, mas ele se levanta e, com sua inspiração de artista, mas sem saber exatamente o porquê, pega um lápis e um bloco de folhas, capa de couro avermelhado, meio envelhecido, costurado a linha branca, abre-o e escreve um verso. Ele promete para si mesmo que escreveria um verso para cada dia que sua amada não estivesse com ele, mas faria com que cada verso parecesse ser o fim, ser o final de uma historia triste, o fecho de um pesadelo, com a esperança da jovem, que agora só aparecia em sonhos, voltasse.

Depois de alguns versos escritos, vizinhos diziam que ele estava louco, e fazia dias que não o viam, mesmo depois da festa já ter acabado. A casa permaneceu fechada, portas e janelas cerradas, durante esse tempo todo. Certo dia, autoridades foram chamadas e abriram a casa. Encontraram o bloco de folhas no qual o rapaz se propôs a escrever, e nele tinham versos que faziam qualquer um chorar, e estava ali, jogado, em cima da mesa central. Então se aprofundando na escuridão, que a casa fechada proporcionava, eles encontraram alguém. Era o homem que estavam procurando, ele estava em pé, mas mais alto que o normal. Quando olhavam para seus pés notava-se que ele estava em cima de uma cadeira, e seguindo a visão pelo seu corpo percebia-se uma corda em seu pescoço. Todos temiam o que ele fizesse naquele estado.

Sempre mirando a visita com seus olhos, olhos que pareciam vazios, sem medo e nem coragem ao mesmo tempo, ele pronunciou suas últimas palavras. Ele só desejava que aquela corda fosse um colar, tão belo que sua amada o desejasse a qualquer custo. Parecia que seu amor transformou-se em ódio, na mesma magnitude que sua insanidade. E então ele chutou a cadeira e em segundos se asfixiou em sua própria loucura. Todos ali, policiais, vizinhos e curiosos, viraram os rostos, ninguém queria ver aquela cena, era macabra, era triste.

Ninguém terminou seu poema, mas sabiam o que ele sentia, naquele momento de sofrimento ele transmitiu ao mundo sua mágoa.

Minutos depois, com a repercussão do caso, típico de cidade pequena, mais curiosos se aglomeraram na casa, e alguns contam que um garoto, que por sorte não sabia ler na época, na confusão, pegou aquele bloco de folhas, e o escondeu, pois o objeto nunca mais fora visto."

O jovem se impressiona com a história e entende que existem coisas que não entenderemos, mas continua achando estranho o avô pensar nisso tanto tempo, já que tudo volta à certeza de que não será entendida, não importa quanto tempo se vive. O rapaz, ainda refletindo sobre a história vê o velho levantar-se e ir até o armário da sala, aquele que ninguém podia mexer, e abastecer mais uma vez seu copo. Mas não nota, ao fundo, o verdadeiro motivo de ninguém poder chegar perto daquela repartição do móvel, um motivo com capa de couro avermelhado, meio envelhecido, costurado a linha branca.


domingo, 7 de agosto de 2011

Dúvida coerente


Por que a banana nanica é uma das maiores?

sábado, 30 de julho de 2011

Coisas que não se entende... Parte 1/2



Desde que tem lembranças, de quando era apenas um garoto, um jovem carrega duas certezas acerca de seu velho avô: que ninguém toca em suas envelhecidas garrafas de whisky, nem seu filho, pai do jovem, quando passou a ser maior de idade, nem amigos e nem sua falecida esposa. Ele mesmo fazia questão de limpar aquela parte do armário da sala escura, na qual passava poucos instantes do dia, entrava apenas para abastecer seu copo e voltava a varanda, onde, lá sim, passava horas olhando para o nada, passando a impressão de que uma lágrima escorreria a qualquer momento, o que nunca aconteceu. E isso era a segunda certeza, que agora virara uma dúvida: o garoto sempre teve a impressão de que seu avô estava triste. Anos se passaram desde a morte da esposa, netos vieram, aniversários foram comemorados, e aquela angústia pela lágrima que não escorria continuava. Até que um dia, o rapaz, certo de sua maturidade e confiança que seu avô o creditaria, resolveu perguntar ao velho se ele sempre estava triste mesmo e o porquê dessa incógnita durar tanto tempo. O velho deixou escapar um sorriso tímido de canto de boca, como se sua experiência de vida finalmente fosse útil, ou rindo da ironia da vida, pois só então alguém falou sobre com ele, e disse ao neto que aquilo não era tristeza apenas, e se a fosse, seria por pensar em coisas que nunca entenderia, nem se vivesse outros dez septênios. O rapaz, notoriamente sem entender, não precisou falar para o velho começar a se explicar, e o fez exemplificando com uma história que tinha ouvido, mas não se lembrava de quem, há alguns anos.


"Era carnaval, e a pequena cidade estava em festa. Muita luz, muita música e muitos forasteiros, dentre os quais, nada em destaque, havia um jovem com vestes baratas, como sua vida, que de nada valia, pois ele sentia que faltava algo nela, que faltava alguém nela. Ele gostava de romances épicos, de poesias e de musica, mas não as entendia, pois era como um vaso que ele sabe que contém água, mas não pode vê-la.

Não muito ocupada havia uma garota, bela, pele alva, olhos escuros como o mistério que guarda a noite. Ela gostava da festa que estava para acontecer, ela era da cidade, acostumada com o grande movimento nessa época do ano, principalmente de rapazes que a cortejavam, em vão. Ela não acreditava que podia amar alguém, ela não acreditava que alguém poderia amá-la. Nunca olhava nos olhos dos outros, desconfiança, talvez. Era tímida, mas seu sorriso era encantador, como tudo que ela era.

Com fome após chegar à estranha cidade, o jovem forasteiro procura uma casa para acolher-se, os moradores dessa cidade tinham a fama de serem bem hospitaleiros. Ele bate numa casa bem iluminada, com pessoas bem vivas dentro. Quando é atendido ele fica paralisado com a beleza da jovem que o atende, ele olha diretamente nos olhos da garota, fica hipnotizado, seu corpo gela, fica calado, e após um silencio constrangedor ele se apresenta. A garota desvia o olhar e ri, envergonhada, e também se apresenta.

Depois, já dentro da casa, ele conta sua historia para toda a família, eles não se impressionam mais como da primeira vez, que escutaram atentamente a historia de um homem que perdera um olho caçando. Ele repara que a garota que o recepcionou não estava na sala com os outros. Fica triste, ao contar sua vida, pois não entendia como pudera viver tanto tempo sem conhecer uma pessoa tão bela. Agora parecia ver a tal água do pote.


Cantarolando uma canção da festa, estava encostada na janela, vendo os viajantes, e os comerciantes. Ela não queria mais nada, não imaginava mais nada além de sua vida nessa cidade, achava estar feliz, achava ter tudo. Lembrava-se da infância, de quando corria com seus irmãos pelo campo. Lembrava-se de tudo, menos de alguém. Ninguém em especial, mas talvez a pessoa mais importante de sua vida, que ela esperava, mas não sabia como ele era. De repente, foi interrompida, com seus sonhos, por batidas na porta de madeira, eram batidas incessantes. Ela vendo que ninguém no local reparara nas batidas resolveu atender a porta. Ela estava com os olhos cheios de lagrimas, frutos de suas recordações e previsões, quando ela abriu a porta e viu um jovem, que apesar de não se vestir muito bem, belo. Ele ficou um tempo olhando para seu rosto, ela ficou envergonhada, achando que o estranho reparava em suas lagrimas. Ela desvia o olhar, e antes que pergunte o que ele deseja é mais uma vez interrompida por ele, desta vez ele se apresenta e diz o porquê de estar ali. Ela acredita, também se apresenta e permite-lhe a entrada. Ela o apresenta para a família, que feliz começa a enchê-lo de perguntas. Ela, sem ser percebida, afasta-se e vai para seus aposentos. Lá ela começa a chorar descontroladamente, sem motivo, pelo menos ela não sabia até então.

O rapaz trazia consigo uma caixa, daquelas com o formato de uma viola, o que era exatamente o que continha na mesma. Logo perguntaram se ele sabia tocar tal instrumento e ele modestamente disse que sim e instantaneamente pediram que tocasse algo para eles; ele como boa visita não se fez de rogado e começou a tocar e cantar uma musica bem festiva, uma musica alegre, mas que ao mesmo tempo tocava o coração de cada um que lá estava. Ele então se tornou a atração da família pelo resto da noite, sua musica atraia vizinhos até.

De manhã, após deliciar-se com o saudoso café que seus anfitriões o ofereceram, sai para uma caminhada pela cidade, mais com o intuito de conhecê-la. Não muito longe da casa ele achou um campo, com flores, árvores e um imenso e inspirador planalto. Ele ficou minutos a observar tal paisagem, mas, dessa vez, ele que fora interrompido. Sua admiração pela paisagem logo acabara, ele encontrou algo mais bonito que aquele lindo lugar, ou melhor, alguém mais linda, a mais linda. Ele lembrou-se da jovem, era a que atendera a porta na noite passada. E como ele se lembrava dela. Só lamentava não tê-la visto mais vezes. Ele se aproximou e a cumprimentou. Eles já sabiam que eles se amavam desde noite passada. Ninguém podia perceber, ninguém podia acabar com aquilo, mas eles se amavam.

Eles ficaram juntos a tarde toda. Perceberam que eram ligados por algo mais forte que a simples e animal atração corporal. Resolveram voltar a casa, quando chegaram lá todos felizes como sempre nessa época do ano os saudaram, sem saberem de nada que aconteceu, jantaram e foram para seus quartos.

O jovem hóspede não conseguia dormir, não parava de pensar na garota que estava a menos de dez metros dele. Ele pensava como será dali em diante. Ele pensava como seria sua vida, já que só sabia andar pelas cidades. Ele pensava nela, só nela..."

domingo, 5 de junho de 2011

Definição

Tão genérico que cabe em qualquer oração
Tão omisso que se esconde em todo coração
Tão estranho que se difere no individual
Tão confuso que todos levam para o pessoal
Tão misterioso que é difícil entender
Tão poderoso que ninguém quer perder
Tão sonhador que dá vontade de voar
Tão alucinante que dá margens para viajar
Há vezes
Tão triste que se pensa em desistir
Outrora
Tão feliz que só se consegue progredir
Tão calado que só se pode ouvir
a respiração, o tocar e o olhar
Tão iluminado como uma fonte de luz
de razão, de pensamento e sentimento
Tão próprio que não sei mais como definir
Tão genérico que coube nessa oração

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nada que me impeça




Tão distante quanto eu planejava
achei que onde estou nada me encontraria
e hoje vejo a lua que ontem eu esperava
que me faz sentir o que há tempos não sentia

Tão simples que não sei o que há comigo
costumo pensar com meus pés no chão
agora procuro como me abrigo
ou enfrento essa estranha sensação

Não sei se foi o tempo
ou o que aconteceu
só que não conheço
o que um dia foi eu

Não sei se foi a estrada
ou alguma coisa que interessa
parece que não existe
mais nada que me impeça

O sorriso no espelho agora faz sentido
meus olhos me contam sobre o que passei
a passos curtos pelo caminho escolhido
com esperança de encontrar o que sonhei

Agora o dia segue com uma luz a mais
e a chuva da madrugada não perturba meu ouvido
o frio não incomoda como a dias atrás
então eu percebo que não estou mais perdido

Não sei se foi o tempo
ou o que aconteceu
só que não conheço
o que um dia foi eu

Não sei se foi a estrada
ou alguma coisa que interessa
parece que não existe
mais nada que me impeça

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

já no ônibus...



Nesse primeiro ano morando longe de minha cidade natal aprendi muitas coisas: amadureci, faço arroz, sou mais responsável, faço arroz, planejo meus gastos, faço arroz e uso a máquina de lavar, por exemplo, porém, algo que me chamou atenção foi descobrir que as viagens de ônibus parecem seguir padrões, e o que as fazem ser diferentes somos nós: se está com sono, viagem tranquila e "rápida"; se tem um MP"x", viagem com distração; se tem companhia, viagem mais interativa, se está doente, viagem mais tensa, e assim por diante. Mas nesse texto vou escrever sobre os fatores externos, os que fazem a figuração da sua viagem.

Comecemos no terminal: ônibus de viagem raramente atrasa, mas as pessoas que vão viajar nunca o deixam de fazer. Bagageiro fechado, passageiros contados, portas fechadas, motor ligado e um sujeito correndo, carregando cinco mala, há dez metros do ônibus pedindo para esperar. Desliga o motor, abre portas, abre bagageiros e reconta passageiros.

O que mais gosto dentre as diferenças dos ônibus de viagem e os de linha é o conforto. Porém sempre tenho a impressão de que a pessoa da minha frente goza mais desse fator do que eu, quando ela reclina sua cadeira quase no meu colo. Outra coisa que gosto é a da praticidade, o simples fato de comprarmos cadeiras numeradas me convence de que a sociedade está evoluindo. Isso significa a certeza de que viajarei sentado. Mas sempre tem alguém que acha que é o sortudo que comprou uma cadeira com a do lado vazia ou se senta na janela do vizinho (sim, é preferência nacional a janela) e se faz de surpreso quando o dono da poltrona chega.

Tudo certo, estamos saindo, trânsito fluindo bem, cinco minutos de estrada e alguém se levanta, esbarra numa pá de ombros, e vai direto ao banheiro. Por que não foi A) no terminal?; B) com o ônibus parado? Eu digo A por conforto, tranquilidade e até higiene e B porque na melhor das hipóteses o sujeito vai fazer o número 1, e com o ônibus em movimento potencializa-se a chance de errar o alvo e o ônibus ficar fedendo pelo resto da viagem. Mas se for um número 2 tão urgente assim, o cara deixaria o ônibus fedendo mesmo se este fosse livre de atritos, esférico, no vácuo e nas CNTP.

A frente do ônibus é a parte geriátrica do veículo, abrigando as coisas (ou pessoas) mais antagônicas dele: as velhinhas. Sim, velhAs. Os vovôs deitam e dormem como se não houvesse amanhã, mas as vovós, essas podem ser as mais adoráveis criaturas, quando caladas ou quando te oferecem dinheiro (esse segundo tipo nunca encontrei). E mesmo no primeiro tipo fica-se aquela tensão de que falarão a qualquer instante, se transformando na velhinha-chata-do-ônibus-de-viagem-que-senta-do-seu-lado, e essa fala de vida dela, da vida dos filhos, porque tá viajando, da receita que a falecida mãe deixou, de que queria ter um pônei, e vários outros assuntos (mas esses são os clássicos, menos o do pônei).

Em contraste com as pessoas idosas, sempre estão "elas", as incansáveis crianças. Sendo justo: também existem as adoráveis, as caladas e/ou dormindo. O resto inventa uma forma de ser chata e fazer os pais se arrependerem de não terem usado camisinha. Músicas escolares, hiperatividade física, perguntas do tipo "por que?", reclamações e choradeiras. Isso quando não ficam encarando os outros passageiros. Se eu não fosse um Lord Inglês, faria sinais obscenos com a mão (advinhem: eu não sou um Lord Inglês).

Finalmente chegamos a cidade destino, não disse na rodoviária, mas isso não impede das pessoas se levantarem, pegarem suas malas de mão e formarem uma fila pelo corredor todo. Nunca vi lógica nisso, mas... E quando se percorre o corredor olhando para as cadeiras vazias passadas, logo se ve sacolas, garrafas e papéis. Então desço do ônibus, agradeço ao motorista por não ter tomado drogas vendidas ilegalmente para o manter acordado, o que provoca déficit de atenção e diminuição da velocidade de respostas de reflexos, e por conseguinte acidentes (mesmo assim, só viajo de madrugada, adoro emoções fortes), pego minhas malas e tomo meu rumo, repassando na cabeça o que aconteceu na viagem.