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sábado, 10 de janeiro de 2015

A Sacola

       Noite quente de domingo, sentado diante da bancada do botequim José vê o velho proprietário servir a segunda garrafa de cerveja para a senhora loira que fala com ele em um tom alto, chato e estridente. Com notas de intimidade que os anos ou as doses de álcool lhe deram. Em resposta ele sorri e dá um pouco de trela, vez ou outra olha com o rabo de olho, a fim de ver se o outro cliente precisa de algo. Não, ainda está no primeiro copo da cerveja.
       Ontem foi o último dia de festa na cidadezinha, ela já começa a retomar seu ar pacato e modorrento, com as horas se arrastando preguiçosamente por entre as ruas de pedra, as mesmas pessoas, os mesmos cumprimentos. José torce o nariz pensativo. Melhor assim, mais sossego para sua vida, desde que essa maldita festa tinha começado era a primeira vez que conseguia sentar e tomar sua cervejinha sem aporrinhação de turista.
       Olha para a rua, vez ou outra um transeunte carregando sua mala passa diante do bar. Rostos desconhecidos. Talvez não fosse de todo ruim esse alvoroço, às vezes a novidade cai bem. É, promessa de ano novo: Esse ano havia de mudar de vida, ir pra cidade, ganhar um dinheiro bom, ou pelo menos uma boa história, conhecer uma bela mulher...
       Quem queria enganar? Ali nascera a mais de trinta anos, ali estava, ali havia de ficar, naquele lugar onde nada parecia mudar, o tempo parado nas sombras frias de um túnel...
       Nesse instante dois jovens passam diante do bar carregando bolsas e malas. Um deles para, olha rapidamente para o interior do bar e aponta discretamente para José enquanto balbucia algo, o outro entra no bar e faz um leve aceno com a cabeça para os seus ocupantes, o suor escorre de sua barba e seus óculos deixam ver olhos cansados, talvez de uma longa caminhada. Por um instante o olhar do estrangeiro cruza com o de José e este sente um arrepio sombrio. O estranho de pele morena e olhos cansados deposita uma sacola plástica fechada na lixeira, bem ao lado dos pés de José, e vai embora.
       José assiste a caminhada das duas figuras até perdê-los de vista. A entrada do homem moreno não perturbou a fala da loira, e pouca atenção teve do velho,  por outro lado José olhava fixamente para a sacola plástica depositada na lixeira. Quem entraria em um bar só para jogar aquilo ali, e sem falar com ninguém?
       De certo era só alguma garrafa plástica... Não, parecia algo disforme. Talvez uma latinha amassada, mas não havia feito som metálico quando fora ali depositado. Seria comida?
       Quando deu por si José estava arcado por sobre a lixeirinha, um estranho corcunda que voltava a ficar ereto num movimento abrupto e bebericava a cerveja com a face ruborizada, sem olhar para as outras pessoas no botequim enquanto murmurava:
       - Oiá pro cê vê... Que que eu tô fazendo?!
       Terminou sua cerveja, pediu outra. A loira saiu, um boiadeiro chegou com uns amigos, contando o causo do sujeito que caçou uma onça usando um prego como bala, todos riam e bebiam. Menos José, este olhava fixamente para o copo, depois para a sacola na lixeira, tornava a olhar o copo, então bebia.
       As primeiras gotas de chuva começaram a cair, um vento frio entrou pelas portas do boteco e o lembraram do arrepio estranho provocado pelo olhar do estranho. Pagou a conta em um acesso de pressa justificado pela tempestade ajeitou e tornou a ajeitar suas coisas no embornal até que numa tentativa frustrada de ser discreto passou a mão na sacola de lixo e saiu em carreira rua a fora. Direto pra casa, entrou, sentou no sofá e desfez lentamente o laço que fechava o saco.
       Dentro, alguns cogumelos, que deveriam ser brancos, mas já estavam levemente enegrecidos pelo tempo. Por qual motivo alguém carregaria uma sacola de cogumelos ali? Certamente se confundiram, acharam que era algo útil. Já tinha ouvido falar de pessoas que comiam essas coisas, mas sempre soube que era um veneno.
       Ou será que não? Teria o jovem de pele morena e expressão dura dado a ele a chance de ver algo novo, sentir uma experiência nova? Um tio-avô, muito tempo atrás lhe contara algo sobre um amigo que comera um desses, e que disse ter visto coisas maravilhosas.
       Lorotas.
       Saiu de casa para pendurar a sacola junto com o restante do lixo, abriu a porta e sentiu o vento borrifando gotas de chuva no seu rosto, sentou-se no degrau que separava a calçada do portal olhando para o conteúdo de suas mãos e deixando o ar úmido tocar seu rosto.
        Qual criança olhou para o céu contemplando a chuva que cessava, dando espaço para as primeiras estrelas. Lembrou que não sabia o nome de todas, uma ou outra só, que o avô lhe ensinara, as três marias, o cruzeiro... Deus, havia tantas! Alguém saberia o nome de todas? Ele poderia dar o nome a alguma? Elas sempre estavam lá, mas se mudassem, veríamos a diferença?
       Fechou os olhos e se lembrou de quando ainda moço ajudava o pai e os irmãos na roça de feijão, dos banhos de ribeirão e das noites caçando pacas. Das inúmeras cavalgadas, das diversas enchentes, de um ou outro amor não correspondido, do cheiro doce das flores no enterro da mãe, e a água em seu rosto não se sabia se era da chuva ou alguma lágrima ladina que saltara de seus olhos.
       Notou então José que o tempo não havia parado, levantou-se e jogou fora a sacola. Caminhou pela rua, era tempo de ver um novo dia nascer.
   

     

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Vazio

Vazios os caminhos da mente.
Um vazio pesado e denso,
incômodo esgarçar sorridente
de aspecto sinistro e tenso.
Vazios, de tão cheios.

Vazios os discursos alheios,
compostos de significantes pomposos,
propícios à pútridos paleios,
mas no significado insossos.
Vazios, de tão cheios.

Vazios os olhos opacos
que de tanto ver parecem hipnotizados
como se fitassem um basilísco
mas sem ficar horrorizados.
Vazios, de tão cheios.

Vazias as páginas da internet,
mesmo cheias de exclamações, cores
e uma esperança torpe e grudenta como chiclete
de um riso fácil logo adiante, esperança sem pudores.
Vazias, de tão cheias...

Vazio




terça-feira, 4 de setembro de 2012

Monumento

Monumento

mo.nu.men.to
sm (lat monumentu) 1 Obra de arte levantada em honra de alguém, ou para comemorar algum acontecimento notável. 2 Construção ou obra de escultura digna de admiração pela sua antiguidade ou magnificência. 3 Mausoléu. 4 Obra intelectual ou material digna de passar à posteridade. 5 Lembrança, recordação. 

Ao ouvir a palavra monumento, via de regra, nos vem a mente uma grande estrutura, uma escultura em pedra ou metal. Pululam em nossas mentes imagens do Cristo Redentor, Torre Eiffel, Taj Mahal. Ou descrições de grandiosidades perdidas no passado, como o Mausoléu de Halicarnásso, a Biblioteca de Alexandria e a estátua de Palas Athena. Perfeitamente correta essa acepção. Entretanto, pretendo falar hoje de uma compreensão um tanto quanto diferente dessa palavra.
Me incomoda a visão estática que se tem dos monumentos, de que são estruturas fixas, que remetem a um momento, personagem ou sentimento exato.
Me lembro de um fato, durante as guerras na Grécia antiga, quando uma batalha era vencida, um monumento era erguido com os escudos e armas do exército inimigo. No ponto em que este começou a recuar, ponto este denominado tropein, de "dar a volta" e o monumento de tropaion, o qual originou a palavra troféu. Mas qual o intuito disso? Qual o porquê desse tipo de atitude?
Não me satisfaço com a resposta "comemorar um acontecimento notável", ou "lembrar os personagens desse evento". Na minha visão responder desta forma é confundir um mecanismo com um fato.
Digo isso raciocinando que o ato de lembrar, por mais que nos seja caro, ainda é pouco perto do que pode nos suscitar um monumento.
Ao marchar no campo de batalha ao lado de um monumento feito com os espólios do inimigo será que os soldados gregos apenas se lembravam que naquele lugar, em um certo dia, de um certo mês, houve uma vitória? Nada mais agia neles? Não havia algo dinâmico, motor, ativo?

Contemplar, ou melhor, vivenciar um monumento é, ao meu ver, algo mais do que lembrar. Mas sim, através dessa lembrança, suscitar ideias, revoluções, quebras e construções de pensamento.
 Os Lusíadas foram escritos para homenagear a bravura dos portugueses no tempo das navegações. É uma "4 Obra intelectual ou material digna de passar à posteridade", é uma lembrança, a sinalização de um marco na história, mas para além disso, é um marco capaz de tocar profundamente aquele que o olhar atentamente, que vivenciá-lo. Por isso traz em si um caráter monumental.
O Cristo Redentor me aparece como um monumento quando ao fitá-lo me permito um espaço. Um espaço de calar para vivenciar a contemplação, para lembrar que a construção dele foi feita com donativos da população de todo o país, para me indignar com o fato de que o acesso a ele, que deveria ser um bem público, é realizado necessariamente por uma empresa de vans, (ou pagando o mesmo valor da passagem em um "ingresso" caso você suba a pé pela trilha), ou simplesmente, me transformando em sua presença. Monumentos, no meu pensamento, são complexos com os quais entramos em contato e que fazem isso, nos transformam e nos transmutam. Dessa forma, considero que hajam em nosso cotidiano muito mais monumentos do que imaginamos, muito além das armações de concreto e aço, um pouco além do papel e tinta.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Centenário 5/5


Os atos
Arnaldo viu o filho atravessar o salão e se dirigir para as escadas. Não havia prestado atenção se ele havia dito para onde ia, de certo pegar o carro para buscar algo. Com outro copo vazio na mão um aborrecimento cotidiano latejava em sua mente, sua nora. Lá estava ela, pura casta, perfeita... Errada. A simpatia constante, a paciência contínua, o sorriso pronto, não entravam em sua cabeça. Como ela podia se acreditar tão boa? Se fazer tão MELHOR que todas as outras?
Arnaldo a considerava uma blasfêmia encarnada, entre dentes dizia, fitando Clarinha de longe:
- Essa mulher é um desacato ao gênero humano, um desaforo à criação. Conviver com ela é como assistir uma adaptação de Dom Casmurro com uma Capitu anti-machadiana, ou a Engraçadinha Anti-Nelson Rodrigues. Ela é a garota anti-mulher, que ofende as demais com a sua pureza... Como as velhas falam mesmo? “A mulher sem pecado”. Seu sorriso zomba de todas as outras como quem diz: “Seu destino é pecar”
Com isso em mente Arnaldo encheu o copo, bebeu de um trago e se levantou. Se aproximou da noiva e avisou que o Jorge a esperava no apartamento, com urgência.
Na garagem Jorge caminhava atônito pelo espaço mal iluminado entre os carros, não sabia onde Lúcia estava, talvez aquela ordinária só estivesse brincando com ele e nem tivesse ido para a garagem. O lugar é grande, Jorge não tem muito onde procurar até que uma idéia lhe vem a cabeça. Procura pelas chaves do carro no terno mas não as encontra.
- Safadinha...
No 15° andar Clarinha sai do elevador e vai até o apartamento, caminha por ele todo chamando por Jorge, está vazio, na saída encontra Arnaldo na porta.
Ao chegar em seu carro Jorge abre a porta dianteira, como esperado o alarme não dispara, a luz interna acende e Lúcia está deitada no banco de trás com as chaves na mão... O que ele não esperava era encontrá-la nua e sorridente.
Num suspiro suando frio ainda conseguiu imaginar Clarinha flagrando-o nesse ato e de alguma forma se culpando, considerando que ele buscava suprir alguma insuficiência sua e dizendo em prantos: “Jorge, perdoa-me por me traíres”. Esse pensamento deveria ajudá-lo a parar, mas só lhe deu forças para num último lampejo de moralidade arriscar:
- Isso é muito errado...
Ao que ela respondeu entre um tom sexy e infantil.
- Ops... E você vai me castigar?
- Sim... concluiu ele sorrindo - ... Toda essa nudez será castigada.
Com esse comentário ela riu histericamente, ao que ele saltou para dentro do carro e tapou-lhe a boca, gesto que ela respondeu com leves mordidas em seus dedos, antes de um beijo voluptuoso.
No apartamento Clarinha não entendia a situação, assustada interpelava o sogro enquanto buscava se afastar.
- Senhor Arnaldo, o que está acontecendo? Onde está o Jorge?
- Saiu...
- Saiu pra onde? O senhor está me assustando! Se se aproximar mais eu vou ser obrigada a gritar! Soc...
Num movimento rápido Arnaldo aperta a boca da garota abafando qualquer som, pressionando seu tórax contra o corpo mirrado de Clarinha ele fala enchendo suas pequenas narinas com seu hálito de uísque, enquanto a outra mão rasga o vestido espalhando pérolas pipocantes pelo chão escuro.
- Passou da hora de você ver a vida como ela é....



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Centenário 4/5


A cunhada
Desceram. Jorge acreditava que a presença de seu pai inibiria seus olhares para Lúcia, mas eis que vem a serpente se esgueirando por entre os convidados, aquele anjo negro encarando-o e se aproximando.
- Você sumiu Jorginho, dançou com a minha irmã quando chegaram e foi pra não sei onde! Que graça tem ir em um casamento e não dançar com o noivo? Escuta, essa já é a valsa de n° 6 que toca e eu sem te encontrar.
Puxou-o para a pista. Enquanto dançavam ela mordiscava levemente o lábio inferior retirando um pouco do batom dourado usado para combinar com seu colar. Jorge olhava fixamente para aquela boca de ouro. Ao fim da música Lúcia sussurrou-lhe ao ouvido:
- Te quero agora, vou te esperar na garagem.
-Estás louca. Respondia entre dentes Jorge.
- Se não quiser é só não ir.
Enquanto ela se afastava, ainda fitando-o, Jorge com os olhos no rosto pérfido da cunhada pensava: “- Que garota ordinária...” Então ela se vira e segue caminhando rebolativamente pelo salão, contemplando tal rebolado completa o pensamento: “... Mas bonitinha”.
Voltou para o lado do pai que se mostrava visivelmente incomodado, ficou sem saber se o velho havia notado algo. Soltou meia-dúzia de palavras, volta e meia lançando olhares para a saída de incêndio que dava na garagem.
Por fim disse ao pai que se alguém o procurasse ele estava indo resolver um problema e demoraria um pouco, ergueu a cabeça enquanto caminhava e seguiu decidido a conversar com a cunhada, esclarecer as coisas... Afinal, que mal pode haver em uma conversa?


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Centenário 3/5


Arnaldo
Sentado na sacada do 15° andar Arnaldo folheava o álbum de família. Via com nostalgia a casa em Saquarema, as férias em Angra ainda na velha brasília, Boris o labrador, Felícia  a gatinha... Parou um instante, uma foto de quando a dita gata deu à luz sete gatinhos. Lá estavam eles junto à Felícia, o menorzinho no colo da Rita... A falecida gostava muito de gatos.
Arnaldo não era desses viúvos melancólicos, mas, naquela noite procurava por algumas lembranças que o mantivessem nos eixos. Olhou para o copo de uísque quase vazio na mesa, talvez também precisasse parar com o álcool, talvez, e jogou o que restava na garganta.
Nesse instante Jorge irrompe porta à dentro com estrondo, fazendo o homem saltar de susto se engasgando. Ainda tossindo gritou.
- Nossa Senhora dos Afogados, Jorge, para que essa ignorância toda?
Sorrindo o rapaz emendou: - Está inventando nome de santo agora pai? Ora, vim aqui leva-lo de volta para minha festa de casamento!
- Bebi demais, é melhor ficar por aqui pra não fazer besteira.
- Nada disso, há um monte de bêbados lá em baixo, não é o senhor que vai ficar de fora! Olha só, está andando bem, e conversando perfeitamente! Deixa de conversa.
Recolocando o álbum na estante Arnaldo pensa: “- Não existe perfeição assim... não dá.”

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Centenário 2/5


O noivo
Por fim, chegou o grande dia. E após uma cerimônia com rompantes de emoção de tias e madrinhas suficiente para encher um livro, os convidados foram para a festa no condomínio do noivo, em Laranjeiras.
-Então Jorge, qual a sensação da forca? Caçoava Carlos, seu amigo mais chegado.
-Até agora uma ótima sensação. Não tenho do que reclamar.
- Bem, você tem 30 minutos de casado, voltarei a perguntar quando tiver 30 anos. Dito isso caiu em uma gargalhada ébria,
Jorge poderia tê-lo acompanhado no riso, mas estava atento ao movimento do outro lado do salão, onde Clarinha recebia as felicitações de diversos conhecidos acompanhada de perto por Lúcia, sua irmã. As duas faziam um belo contraste em sua caminhada. Clarinha em seu vestido de noiva sem alças e com botões de pérola, de uma alvura estonteante. Lúcia com um vestidinho preto que lhe mostrava boa parte das pernas e um decote que ressaltava os seios ornados por um colar dourado. Jorge refletia como uma garota de 17 anos podia ostentar aquele corpo.
Jorge respirou fundo, ele acabara de se casar, olhar para a irmã da noiva daquela forma era de um descaramento... Uma traição a seus princípios.
Normalmente a visão de Lúcia não era um problema, afinal ela estava sempre acompanhada e se esfregando em seu namoradinho playboy. Garoto ridículo... Jorge não pode evitar um risinho ao lembrar que o Fulano não veio ao casamento por ter caído de moto naquele dia. Torcia para que ele tivesse dado um tremendo de um beijo no asfalto!
Balançando a cabeça tentando pensar em outra coisa olhou em volta e sentiu falta de um convidado que deveria estar na festa.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Centenário 1/5


A noiva
Quinta-feira quente. O céu de Copacabana doía a vista de tão límpido. Próxima  à janela de um apartamento com vista pro mar D. Dorotéia, uma das mais tradicionais costureiras da cidade, dava os últimos ajustes no Vestido de Noiva.
Fazia um trabalho minucioso, conhecia Clarinha, a noiva, há tempos. Sem dúvidas ela era merecedora de todo esse esmero; uma jovem bonita, simpática, educada, atenciosa e de ótimo coração. Quando se referia a ela para suas amigas D. Dorotéia normalmente empregava o epíteto de “aquela santa mulher”, ou ainda, “A mulher sem pecado”, tamanho era seu carinho pela jovem. Logo, o vestido deveria ficar um mimo.
Na hora marcada para a prova do vestido Clarinha bateu à porta da velha senhora. Apertava a bolsa com as mãos angustiada, pensando nos preparativos para o matrimônio, o grande dia. Esperava que o vestido estivesse pronto.
Foi prontamente atendida pela boa senhora que disse:
- Olá meu anjo, vamos, entre. Fique à vontade.
Já com o vestido Clarinha se extasiava de frente para o espelho. Fazendas, sedas, bordados e botões de pérola se somavam em um conjunto deslumbrante. Na saída parou na porta e interpelou Dorotéia:
- Ficou perfeito Dô. Tem tantos detalhes, tanta beleza! Deve ter dado muito trabalho, estou até sem graça de pagar tão pouco. O preço está bem abaixo do que eu vi nas lojas...
- Não se preocupe minha filha, apenas não extrapolo os preços como umas e outras por aí. Como já dizia minha santa mãe no fim de sua vida, sou viúva, porém honesta, não trabalho extorquindo ninguém, não passo necessidades nem nada, e mesmo que passasse, não justificaria isso, certo?
Com um sorriso angelical Clarinha pagou o combinado e voltou para o carro onde Jorge a esperava.
- Não entendo o porquê de me fazer esperar aqui. Disse ligando o carro.
-Ué, nunca te disseram amor? O noivo ver o vestido antes do casamento dá azar.
Brincou a jovem se ajeitando no banco do carona.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Cela

Asilo Arkham para criminosos insanos - Cela 0801

 Quatorze dias atrás - 19:00h = A porta da cela acolchoada se abre lentamente, por ela entra a jovem Dr.ª Harleen Quinzel para visitar seu mais intrigante paciente. Ele está, como de costume, acomodado no acento, preso em uma camisa de força, olhando para frente e sorrindo. Mas não qualquer sorriso, um sorriso esgarçado, contínuo, que muitos consideram apavorante... Mas ela sabe que ele é apenas mais um incompreendido, na verdade ela consegue enxergar uma melhora substancial no quadro do paciente.

- Olá. Boa noite.
Ainda fixando a parede ele respondeu
- Boa noite doutora Quinzel. A que devo a visita?
- Me chame de Harleen, por favor. Gosto de ser tratada pelo meu nome, assim como gostaria de poder tratá-lo pelo seu.
Direcionando seus olhos atentamente para a jovem
- Você sabe meu nome.
- Err.. Bem, quero dizer, seu nome real.

Ao ouvir tal afirmação o paciente gargalha, de forma alta, estridente e contínua. Isso desagrada a jovem psiquiatra, haviam passado duas visitas sem esses rompantes e agora uma escolha errada de abordagem e pronto. Ela sentia que estava tão perto de alcançar melhoras, de processar uma cura no maior psicopata de Gotham.
Após o riso ele voltou a olhar atentamente para a parede acolchoada, como se novamente estivesse sozinho. Por cinco minutos a médica falou, buscou reaver a atenção do paciente. Por fim desistiu, ao se levantar para ir embora estancou ao ouvi-lo comentar:

- Há canteiros nos jardins do asilo... eles me lembram canteiros que vi há muito tempo.

Sentando-se novamente ela pede para que ele lhe diga mais, ao que o paciente responde negativamente. Não pode falar de algo que não conhece. Somente durante sua entrada no Arkham ele viu de relance o dito jardim.
Eis a chave, aí está a questão. Os olhos de Harleen se iluminam ao fitar um sorriso já nada aterrador. Ela trabalharia com o Coringa fora da cela!


 Treze dias atrás - 12:00h = A portinhola na porta da solitária 0801 se abre, vê-se a silhueta de Donnavan Sharp, atual diretor geral do Asilo Arkham.

- Olá Donnavan, esperava por você. Não quer entrar? Fique à vontade, afinal, a casa é sua. Hahahahaha, hehehe...
- Muito bem seu maníaco, por algum motivo a Drª Quinzel passou toda a manhã me propondo uma nova experiência de tratamento com você. Não gosto da ideia de fazer experiências com você... E se algo der errado? Vai acabar machucando alguém. Ela insistiu para que eu viesse ver sua melhora, ver como você anseia por ser curado... Para mim você continua o mesmo verme psicótico!

O criminoso ouvia atentamente, cada palavra, cada entonação do afamado diretor, membro da mais alta elite de Gotham, e por entre as sensatas e hipócritas palavras do administrador ele sabia que havia mais coisas.

-Nã-nã-não... Olhe os modos Diretor. Cada um de nós tem suas prioridades, apenas peço que me ajude, e quem sabe, eu possa te ajudar.

Disse o criminoso balançando a cabeça divertidamente.
Se afastando da porta Donnavan se sentiu nauseado por um instante, do que aquela aberração estava falando?

- Me ajudar? Com o que?
-Com coisas que um homem como você deseja, mas só um homem como eu pode fazer. Hahahahahahaha


Oito dias atrás - 20:00h = Um homem alto e forte se esgueira até a entrada da cela. Do lado de dentro o criminoso, já sem suas amarras, está deitado tranquilo, até que ouve uma leve batida na porta.

- Olá, cê tá acordado? Murmurou o homem.
-Sssiiiimmm.... murmurou com escárinio uma voz do interior da cela.
- O meu "contratante" disse que você tinha instruções para um serviço.

O homem olhava para todos os lados e suava frio, já não tinha certeza se era uma boa ideia estar ali.

- Você trouxe papel e lápis? Passe pela portinhola da comida aqui em baixo.Pedi ao seu "contratante", hehehehe, que me conseguisse alguém capaz de invadir uma residência. pois bem, quero que deixe o material que eu vou te indicar no telhado de uma casa, alguém irá deixar uma carga lá dentro, você irá trazer essa carga para o "contratante", o diretor. Certo?
- Bem.. acho que sim.
- Você parece nervoso... Minha voz te incomoda? Hahahahahaha

A gargalhada fez com que o homem olhasse em todas as direções, não queria ser notado ali, mas não tinha coragem de reprender o Coringa.

- É estou um pouco desconfortável, mas o diretor me garantiu que você anseia pela sua liberdade, por isso ia ajudar, então tá tudo certo.

O psicopata parecia não prestar atenção ao que o meliante dizia. - Ahan... aqui estão as instruções e o endereço da casa. Este outro papel contém um recado que você deve deixar neste outro endereço que está aí. Por fim quero saber se você consegue uma quantidade relativamente pequena deste ácido.

- Acho que sim.
- Ótimo.

E nesse momento ecoou pelo Arkham uma risada que fez o homem desejar estar em outro lugar, com todas as suas forças.

Cinco dias atrás - 23:00h = Um som leve de metal sendo arranhado acorda o criminoso.
- Olá Gatinha, que bom que aceitou meu convite...
- Como sabe meu endereço? O que você está tramando? 

 Os grandes olhos castanhos por trás da máscara denotavam uma severa preocupação. Não era nada agradável saber que seu paradeiro era do conhecimento do Coringa. Afinal, mesmo com ele preso naquele cubículo chegou na sua correspondência um papel com os dizeres "Olá Gatinha, preciso que me faça uma visitinha. Coringa". Ela precisava ter certeza de que ao menos ele continuava preso.

- Detalhes que não vem ao caso. Quero apenas que realize algo que será igualmente lucrativo para mim e para você.
- E o que seria?
- Gostaria que apanhasse um pequeno suvenir da mansão do prefeito. O Brilho de Gotham. O que me diz?
- O diamante 111 quilates? Eu adoraria, risonho, mas se fosse tão simples eu já o teria pego. Nada feito, estou com outras prioridades agora...
- Podemos unir o diamante a essas "Prioridades" que você fala.

A jovem se aproxima da pequena portinhola para fitar de mais perto a fileira de dentes que aparece sobre a fraca luz vinda do corredor.

- Como assim?
- Bem, somos seres de gostos diferentes. Eu gosto de coisas que escorrem, sangue, entranhas, viscos dos mais diversos. Você gosta de coisas que brilham, diamantes, rubis, ouro... Eu me pergunto, o que tem brilhado mais que ouro para você Gatinha? Seria essa sua prioridade? Seria ELE a sua prioridade?
- Não sei do que você esta´ falando.

Rindo e batendo a cabeça no estofamento das paredes ele retruca:
- Sua vadia, não se faça.. haha.. de idiota. Vamos lá, você atinge o orgulho dessa cidade pra mim, e é claro que o morcego vai te perseguir. E vai te encontrar. Haha-hahaha-hahahahahahah. Ahh... hehe... No telhado, acima da janela do gabinete do prefeito há um compartimento, um mecanismo camuflado, no qual você poderá guardar o diamante e buscar depois que for presa...
- Eu não quero ser presa!

O Coringa balança a cabeça em um ar de desaprovação. Todo mundo insiste em ter vontades por aqui.

- Bem, ELE vai estar lá, e se te prender com o diamante pronto, mas, se ele te prender sem o diamante... Criamos um espaço para futuros diálogos, não?
- Pelo visto você está avido por vingança, só isso.
- Não é o suficiente? Você está ávida pelo quê? Hehehehe. Venha cá, deixe eu te passar os detalhes da minha ideia... Hahaha...Primeiramente gostaria de dar-lhe as boas vindas ao Arkham, NOSSO lar.
- Seu lar Coringa,  não tenho nada a ver com isso aqui.
- Ora, ora minha cara, todos temos a ver com este lugar. Ele aceita a todos de bom grado, sem preconceitos. Quando não são mais capazes de sustentar suas máscaras cotidianas, é pra cá que todos vem. Trocar uma vida inteira de agonia, por uma cama e injeções duas vezes ao dia. Hahahahahaah-hihihih



Hoje - 8:00h = Donnavan Sharp se recosta em frente a cela. Sua voz está tensa, mas satisfeita.
- Você conseguiu... o diamante foi roubado ontem à noite, o seguro de roubo já foi acionado e eu, como membro da elite de Gotham vou receber parte do que contribui para segurar nosso "tão valioso patrimônio". A Mulher-Gato foi presa e antes de retornar à cena do crime Lúcio já havia resgatado o conteúdo do mecanismo e trocado pela pedra falsa. Ele acabou de me entregar o Brilho de Gotham. Infelizmente, não posso oferecer sua tão almejada liberdade... Mas irei estudar as propostas da Drª Quinzel, ela é uma psiquiatra muito competente.
- É, eu sei... tenho notado Diretor Sharp, ela é muito proeminente aqui no Asilo. Estive pensando quais postos ela pode alcançar se não tiver nenhum... empecilho. Hehehehe-hahahaha-hihi-hahahaha

 O Diretor Donnavan Sharp assiste o criminoso se contorcer em uma gargalhada cheia de espasmos caindo na cela. Ainda ouvindo o riso segue para seu gabinete. Chegando lá se dá conta que Lúcio foi embora, melhor, quanto menos contato tiver com esse mercenário menos chances de algo dar errado. A gargalhada ainda ecoa pelos corredores do Arkham. Mas não importa, ele tem o diamante... o dinheiro do seguro... e nenhum envolvimento direto com a situação. Ninguém pode atingi-lo. Ele pega sua garrafa de uísque e enche um copo generoso. Precisa se acalmar, ainda está ouvindo a maldita risada do lunático!
Vira de um trago o conteúdo do copo, que desce por sua garganta de uma forma ácida, rasgante e dolorosa... Ele ainda ouve risos...








segunda-feira, 23 de julho de 2012

Senhoras idosas, suspense e casas antigas...



Eu caminhava tranquilamente pelas ruas de Niterói, já era noite, estava voltando para casa. Eis que passo diante de uma senhora idosa parada diante de uma residência antiga, ela se encontrava visivelmente abalada. Eu poderia ter feito o que os poucos outros transeuntes na rua faziam e apenas seguir meu caminho, dar uma tossida, olhar pro céu com aquela cara de "Nossa, será que vai chover?" ou outra dessas singelas desculpas para ignorar o mundo a nossa volta. Mas por algum motivo resolvi parar.

Olhei para ela e perguntei se precisava de algo, ao que me respondeu quase aos prantos que a mãe dela estava mal, e que por algum motivo ela tinha que pedir ajuda naquela casa, mas não alcançava as janelas para bater, e nem conseguia gritar para ser ouvida.

De pronto o alter-ego de super herói que há em muitos de nós se inflou dentro de mim e deixei escapar um sorridente "Deixe comigo!"

Fui até a grande janela de madeira, (dessas de casas do inicio do século XX, com venezianas em madeira e tal) e bati de leve. Não obtendo resposta bati mais forte.. Por fim desferi um belo, mas não tão potente murro na estrutura de madeira. E nada de ser atendido. Já estava ficando impaciente e a pobre senhora estava visivelmente desesperada. Resolvi perguntar para ela se havia algum nome que eu poderia chamar, e afinal quem estava naquela casa, a qual não me parecia um posto de saúde, ou nada do tipo que eu procuraria para socorrer minha mãe doente.

Ela então me disse entre soluços que era melhor esperar, pois, nas palavras da própria "Eles não gostam de ser incomodados durante a sessão."

"Sessão? Como assim sessão?" Era o pensamento que permeava minha mente e provavelmente vazou pelas minhas feições, pois sem que eu precisasse dizer nada ela já explicou, com a maior naturalidade do mundo que ali era um centro de espiritismo e então começou a chorar olhando para a janela.

Nesse momento um calafrio passou pela minha espinha ao olhar novamente para a senhora que eu buscava ajudar. No minimo ela tinha seus 65 anos. E ela disse que a "mãe dela estava mal"... A dedução "mal de saúde" foi por minha conta. Então olhei novamente para a janela da velha casa, janela do centro espírita onde estava tendo uma sessão, janela essa que eu estava espancando minutos antes, e pensei: "Só pode ser brincadeira..." 

Costumo me vangloriar por não ser um cara facilmente impressionável com esse tipo de histórias e eventos sobrenaturais. Gosto de tentar entender as coisas antes de especular para o lado do sobrenatural e tudo o mais. Mas nessa hora o sujeito fica seriamente com o pé atrás.

Bem, devido aos possíveis constrangimentos de se perguntar: "- A mãe da senhora tá viva, né?" optei por uma abordagem com mais tato: "A mãe da senhora está aí dentro?"

Ao que ela respondeu com palavras entrecortadas por choros e soluços e um tanto quanto confusas que não, que ela estava lá.

O "lá", a guisa de esclarecimento, era o fim da rua. Não em uma casa no fim da rua, na rua.

Como eu disse... Confuso. 

Quando tentei acalmá-la o portão se abre e um jovem todo de branco com olhar bondoso aparece. Neste momento cometi o velho erro de pensar que a partir desse ponto tudo se ajeitaria. Dei um aceno para a senhora e já ia virando as costas quando ela começou a explicar a situação para o rapaz. Explicou que a mãe dela estava mal e precisava de ajuda, estava com o filho dela (Filho? Isso já tinha entrado na história?) e então.. choro... muito choro. Não me preocupei, o rapaz parecia extremamente tranquilo, parecia saber qual o próximo passo a seguir. Então ele olhou pra mim e disse: "Ela está muito abalada, me leve até a mãe dela."
...
......
..........
"OI?!?Como assim meu rapaz?! Devagar com o andor que o santo é de barro meu jovem."

Nisso surgem outros quatro homens, esses impacientes tentando entender a situação, perguntando pra mim o que estava acontecendo. Na impossibilidade de dizer, "entra na fila moço, tô tentando a meia hora" resolvi expor o que sabia: A mãe dela está mal. Está lá. Com o filho... (Ela reforçou todas as minhas afirmações com sinais de cabeça, ao menos pra ela minhas palavras faziam sentido.) Então... é isso.

Todos se olham sem saber o que fazer, até que ela em um esforço de concentração gigantesco consegue articular "Ela está em um Pálio cinza!"

Ahh... agora tudo ficou mais fácil, não? Depois de um piquezinho de 50m encontramos um carro com o homem (filho da senhora) e a mãe dela (um ser vivo, para minha felicidade). No fim tudo ficou bem, não fiquei por lá para ver como ajudariam a mãe da senhora, mas a situação parecia estar sob controle. E eu ganhei mais um conto para a minha coleção de histórias.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Frio

Muitas vezes ele havia sentido frio caminhando pela cidade. Era uma cidade fria, úmida e cinza.O ar era denso e poluído. As pessoas andavam cabisbaixas e arredias, por deus, como ele amava poder viver ali e odiar aquela cidade.
Entretanto, naquela noite o frio o incomodava, movendo os braços em volta de seu corpo ele olha para o céu que se estende além dos luminosos edifícios, a lua nova que abre o inverno parece tragar tudo a sua volta em um rodamoinho de trevas e opacidade.Então ele vê uma escuridão, uma escuridão em si próprio que parece bulir com a vaga profunda dos céus, ao notar-se tão mais profunda e atemorizadora... Faz frio.
Ele puxa o zíper da jaqueta lentamente até o pescoço, o som o faz lembrar de um dia agora distante, quando movia outro zíper, de outra blusa, em trajetória inversa, permitindo-se acariciar a pele suave do pescoço dela enquanto sentia seu perfume... Nunca se perdoaria por não saber qual era o perfume...
Balançando a cabeça se afasta deste rápido pensamento, aquelas eram lembranças mornas de uma paixão quente. Hoje faz frio.
Um frio quase denso, quase tangível, acompanhado de um vento não muito forte que passa continuamente deixando a sensação de um corte gelado sobre a pele.Será possível que não haveria nenhum bar com um preço aceitável aberto até chegar em casa!?
Após uma respiração marcada escapa um bafejo esfumaçado, que dança diante de sua fronte ao sabor do vento, como melodia que escapasse de um concerto de blues antes de se esvair na escuridão da noite. Até o ar de seus polmões se infectava de tristeza...
Continuando sua caminhada rememorou alguns amigos que poderiam estar ali para dividir experiências com ele, das mais tristes até as mais jocosas, deixar fluir a memória simplesmente. Eis que diante de si passa um homem que olha assustado para as variadas sombras ao seu redor, na rua, nas esquinas e calçadas, e segue apressado seu caminho. Hoje faz muito frio.
Tal acontecimento o remonta à um diálogo recente, quando falava a um amigo sobre medos e misticismos, como as sombras geravam monstros e demônios, e lembrando disso olhou novamente para a lua. Esse ano ocorrerá novamente o fenômeno da Lua Azul, a segunda lua cheia em um mesmo mês, a última foi na virada do ano de 2009 para 2010... Nessa época ainda nem sonhava em conhecê-la, quanto mais em perdê-la...
Sem saber dizer se já passou muito ou pouco tempo desde então, ele segue caminhando rumo ao lar, pensando em tudo para não pensar nela.
Hoje faz realmente muito frio, um frio que cobre de azul a palidez da cidade de concreto.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Maço

Jaz um maço, roto e esfarrapado
de tinta borrado de lado a lado
com os mais diversos ícones gravado
às vezes ditando certo e errado.

Outras vezes no entanto contesta,
repudia, incomoda, faz festa.
Pela capa não podes dizer se presta,
 pois caminha por realidade diversa desta.

Traz em si a loucura de um quixote
galopando em seu tropego trote,
bradando resoluto seu mote
para tanto desafiar a morte.

Ou mesmo o amor insano de um Montecchio
pelo tesouro Capuleto que o deixava ébrio,
com seu profundo olhar de mistério
da sacada de seu pseudo-monastério.

Pronto a mudar a vida do contemplador,
apto a gerar a dúvida no impositor,
prestes a mover o empacador,
jaz um maço, roto, esfarrapado, edificador...


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Lua Nova -Parte 2/2

O soldado entra na sala e confere as algemas do homem. Após isso informa que ele veio sem qualquer documentação e que ainda não conseguiram descobrir sua identidade pelo banco de dados, com o fim deste momento protocolar Saldanha se mostra extremamente deslocado no ambiente, até que Ricardo lhe diz que poderia aguardar do lado de fora.

O assassino se manteve olhando para Ricardo desde sua entrada, parando apenas para lançar um sorriso para o soldado enquanto esse conferia suas algemas. Agora estavam apenas os dois na sala, mas Ricardo estava surpreendentemente calmo, analisando cada detalhe daquela expressão imutável, até que depositou sua valise sobre a mesa e anunciou:

- Bem, meu nome é Ricardo, vou fazer um pequeno teste com você amigo. Se importa de me dizer seu nome?

- Ainda não tenho um.

Ricardo olhou para o individuo, ele realmente parecia muito à vontade ali, e por mais descabida que tenha sido a resposta, seu tom foi de uma total naturalidade.

- Como assim não tem um nome?

- Ora meu rapaz? Não acompanha os jornais? Ou até mesmo filmes, sabe, cultura geral? É a imprensa quem nomeia pessoas como eu. Estou aguardando meu batizado de sangue. Mas pelo visto não consegui sangue o suficiente para tal batismo, nada que eu não resolva em breve.

Tal comentário foi seguido de um sorriso descontraído, quase uma gargalhada.

- Bem, não querendo te fazer mudar de ideia amigo, mas você está preso agora. Não sei se poderá fazer isso.

Ele apenas riu.

- Bem, vou começar em breve, devo informar-lhe que este procedimento será gravado.

- Nada me deixaria mais satisfeito. Esfregando as mãos enquanto falava emendou. - Então, o que você quer saber primeiro?

- Primeiro gostaria de saber seu nome, o que está em seus documentos.

- Estou sem meus documentos agora Ricardo. Como já lhe informou nosso intrépido guarda que está do outro lado da porta.

- E por isso deixa de ter um nome?

- Temporariamente. Guardei meus documentos e outras coisas de valor em um lugar seguro, onde eu possa reavê-los quando acabar meu trabalho.

- Você se entregou, seu trabalho não terminou?

No momento seguinte Ricardo desejou ser capaz de engolir de volta suas palavras antes que elas chegassem aos ouvidos do criminoso, sem dúvidas esse não era o caminho para conseguir algo de concreto. Afinal bater de frente através de perguntas diretas dessa natureza seriam parte do jogo mental dele, ou simplesmente fariam com que ele se calasse. Mas já estava feito, e Ricardo assistiu ao seu interlocutor mudar de feição e tomar um ar de extrema seriedade.

- Eu pareço com um homem que terminou seu trabalho Ricardo?

As coisas não corriam para o caminho devido, afrontá-lo não era adequado, melhor passar direto para o teste. Abrindo sua valise Ricardo começa a retirar várias lâminas e um bloco de anotações, desejando ardentemente que estivesse a quilômetros dali deitado no colo de sua noiva enquanto ela lhe fazia um cafuné.

- Certo, vou apenas realizar uns testes aqui amigo. Irei lhe mostrar algumas lâminas com desenhos, e você me diz a primeira coisa que lhe vier a cabeça. Estamos entendidos?

- Unn... Parece legítimo para mim. Outra risada. Nesse momento ele olha para o lado de forma pensativa, seus olhos pairam lentamente sobre as divisões da parede cinza e caminham até a mão esquerda do entrevistador, onde ele se fixa demoradamente.

- Ok, vamos dar inicio.

- Uma linda borboleta.

- Mancha de mostarda.

- Lindas flores.

Cada resposta era seguida de um riso, que aumentava gradativamente. Ricardo estava impaciente com aquilo, em uma situação normal não interromperia, mas aquela não era uma situação normal.

- Certo... cara, quero que me diga a verdade. O que essas figuras te lembram? Você tem algum problema em colaborar aqui?

- Eu? Nenhum problema! Quero saber se você não tem problemas com o que pode ouvir aqui. Você tem?

Sem tirar os olhos do criminoso sorridente Ricardo respondeu que estava preparado para qualquer coisa que ele viesse a dizer.

- Apenas me diga o que vem à mente quando vê essas imagens para darmos andamento aqui.

– Sabe Ricardo, muitas das pessoas tem prazer com coisas muito específicas, é o seu caso?

- Por favor, tente se concentrar nas imagens.

- Claro, claro. Só estou dizendo que na minha opinião as pessoas são movidas pelos seus desejos. E em mim, esses desejos são quase sempre transferíveis para uma natureza sensorial.

- Por exemplo, a filha do delegado... Orelhas arrancadas ... era uma bela garota, para os padrões da nossa sociedade, talvez estupra-la fosse prazeroso, mas para mim, não seria tão prazeroso como foi cortar-lhe fora as orelhas, ouvindo o som de cada fibra muscular se desprendendo enquanto eu as puxava e depois sentindo nas minhas mãos a maciez de suas cartilagens... Pele queimada.... ou quando lancei o padeiro dentro do forno da padaria. Era preciso muita atenção para ouvir por detrás dos gritos do infeliz o som de sua pele pululando em bolhas, por outro lado o odor ainda permanecia perceptível a dois quarteirões de distância. Provavelmente por que retirei-o ainda vivo. E você sabe por que “amigo”? Por causa do maior prazer que você pode extrair de um moribundo. Os olhos do homem cintilavam e um fio de saliva ameaçava escorrer de sua boca. Você já assistiu alguém morrer? No momento da morte, o brilho dos seus olhos se desfalece em uma coloração opaca, única, como se a fosse iluminado por algo de dentro para fora, fazendo com que a parte que enxergamos ficasse negra e sem vida. Como a lua, na sua fase nova. Nada no mundo me é mais prazeroso do que assistir a esse momento. No inicio achava que só seria possível com olhos negros mas fiz alguns experimentos, e hoje sei que a cor dos olhos afeta a beleza do momento, mas não o suficiente para fazê-lo perder o prazer. A propósito essa última são Olhos sobrepostos. Vários deles, sabe?

- Ricardo? Você me parece muito silencioso, achei que fossemos conversar mais... Agora o homem gargalhava quase incontrolavelmente.

Ricardo guardava suas lâminas e seu bloco de anotações, em branco. Ele queria se concentrar no seu trabalho ali. Ouvir a gravação depois e tirar conclusões dela, agora ele estava perturbado, sentia que ia vomitar, então ele apenas se levantou e se dirigiu para a porta.

- Adeus, estranho.

- Até breve Ricardo. Até breve, ou acha que vou ficar preso por muito tempo?

- Acho que vai ficar preso para o resto da sua vida.

- Acho que vou ficar preso por tão pouco tempo que nem vão acreditar que fui realmente pego, o que não fui. Mas não se preocupe Ricardo, não vou atrás de você...

Com as mãos trêmulas Ricardo abriu a porta e antes de sair olhou para trás uma última vez, a tempo de ver o assassino do outro lado da mesa sorrindo da mesma forma em que estava quando entrou, e também de ouvi-lo dizer.

-... Não de você.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lua nova - Parte 1/2

Noite fria e escura, típica da fase nova da lua. Ricardo olha para a porta do prédio cinza e mal acabado da DPO de Santo Amaro. Definitivamente ele não queria estar ali.

Após respirar fundo aperta com força a alça da valise preta com sua mão direita enquanto retira o suor da testa com as costas da outra. Ele caminha para a entrada, no saguão principal, um ambiente relativamente pequeno de trinta metros quadrados, com várias cadeiras e uma escrivaninha.

- Senhor Ricardo, o delegado está te esperando na sala dele. Avisou respeitosamente o jovem secretário de trás da mesa.

Com um aceno de cabeça e um sorriso Ricardo passa por ele e entra em um corredor. A gola da camisa social parecia apertar seu pescoço. Mais alguns passos até o escritório do delegado.

Da porta ele vê um homem baixo e gordo, vestindo um terno marrom e uma camisa social listrada sem os botões da barriga. Olheiras profundas denunciavam tempos difíceis e muitas noites em claro. Bem, Ricardo sabia que todos na região tinham um motivo para não dormir bem. Ele estava ali para ver esse motivo. Entretanto a garrafa de uísque pela metade lhe dizia que algo estava errado.

- Então, Doutor Ângelo, você conseguiu! Capturou o assassino. Sabe, fico muito feliz com isso. Mas, o senhor não esclareceu as coisas pelo telefone... O homem que vocês tem aqui é apenas um suspeito? Ou pegaram-no em flagrante? Houve outro assassinato?

O homem na escrivaninha sequer olhou para cima. Apenas virou outro copo do líquido e manteve os olhos na parede a sua frente.

- Ele se entregou Ricardo. O desgraçado veio aqui, exatamente onde você está, sorriu e disse: “Eu tenho feito coisas muito, muito más, senhor policial.” Então deu uma gargalhada.

Ricardo continuava olhando para o delegado, fazendo o possível para não externar seu desconforto. Então, o assassino em série simplesmente veio e se entregou.

Bem, não é de todo sem sentido, na sua mente ele deve precisar de uma plateia interativa, com a qual ele possa jogar e afetar, como o delegado aqui.

- Sou um inútil Ricardo?

- Perdão senhor?

- Ele pensa que sou um inútil. Nunca pegaria ele. Eu já imaginava que ele fosse confiante, mas, não sei, isso é demais, sabe? Aí ele veio, ele veio e riu! Desgraçado!!! Vai apodrecer na cadeia!!

A essas alturas o delegado já dava murros na mesa. O suor lhe escorria pelo rosto transfigurado pelo ódio. Um homem acabado e humilhado, bufando de raiva.

- Bem... se é esse o caso Ângelo. Por que me chamou aqui?

- Por que quero ferrar esse infeliz. A procuradoria e a defensoria pública já estão tomando suas providências, mas veja, não temos provas, ele pode ser só um idiota fingindo ser o que não é, pode ser uma distração, pode ser a merda de outro plano. Preciso de um parecer profissional, quero saber se esse é o nosso cara, se ele é perigoso. Preciso saber tudo antes que a PF apareça aqui amanhã com duzentos peritos à tira colo e tirem ele de mim! Eu vou acabar com a vida desse infeliz, assim como ele acabou com a minha!

- Sabe que não tenho muita experiência com isso, certo?

- Você quer o que Ricardo? Aonde vou arrumar um psicólogo criminal com experiência “nisso”? Ou um psiquiatra de confiança em plena madrugada? Você é novo, mas vai servir. Apenas vá lá e faça algo. Saldanha! Ei, leve o doutor aqui até a sala do maníaco.

O soldado Saldanha era um homem com seus 35 anos. Magro, não muito alto e visivelmente transtornado. Mas Ricardo não o julgava por isso, nem pelo modo como suas mãos tremiam ao procurar as chaves da sala de interrogatório. Esse policial provavelmente estava acostumado com acidentes de carro, ladrões, drogados, traficantes. Com certeza já havia participado da prisão de um ou outro assassino passional. Mas nunca algo como este homem. A polícia local contabilizava 15 mortes em um mês. Muito foi abafado mas a grande imprensa já fervilhava. Ricardo sabia que já havia agentes da Polícia Federal na cidade investigando. Sabia também que eles só não estavam ali naquele momento por que Ângelo devia ter negligenciado a ação de dar esse informe.

Na frente da sala há três policiais que abrem caminho, provavelmente ouviram dali os urros do delegado.

Ricardo para diante da porta enquanto Saldanha se atrapalha com as chaves. Ele sente como se fosse partir a alça da valise com a mão. A porta se abre, e sentado diante de uma mesa se encontra um homem alto, de boa aparência, cabelos escuros e curtos, trajando uma roupa social estranhamente bem alinhada para a situação. O homem encara o psicólogo e sorri.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Queda que as mulheres têm pelos homens tolos - Machado de Asis

" Enfim, o homem de espírito, em vista do que é, inspira às mulheres uma secreta repulsa. Elas se admiram com o ver tímido, acanham-se com o ver delicado, humilham-se com o vê-lo distinto.

Por muito que ele faça para descer até elas, nunca consegue fazê-las perder o acanhamento; choca-as, incomoda-as, e esse acanhamento, de que ele é causa, torna frias as conversações mais indiferentes, afasta a familiaridade e assusta a inclinação prestes a nascer.

Mas o tolo não atrapalha, nem ofusca as mulheres. Desde a primeira entrevista, ele anima e fraterniza-se com elas. Eleva-se sem acanhamento nas conversas mais insulsas, palra e requebra-se como elas. Compreende-as e elas o compreendem. Longe de se sentirem deslocadas na sua companhia, elas a procuram, porque brilham nela. Podem diante dele absorver todos os assuntos e conversar sobre tudo, inocentemente, sem consequência. Na persuasão de que ele não pensa melhor, nem contrário a elas, auxiliam o triste, quando a ideia lhe falta, suprem-lhe a indigência. Como se fazem valer por ele, é justo que lhe paguem, e por isso consentem em ouvi-lo e tudo. Entregam-lhe assim os seus ouvidos, que é o caminho do seu coração, e um belo dia admiram-se de ter encontrado no amigo complacente um senhor imperioso!(Miscelânea, O. C.; Vol. III, p. 971)"

Garotas... essas mulheres... Não sejam essas mulheres.
Happy Valentine's Day.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pela avenida, se esquecendo da vida

São 2 horas da tarde. Caminho já no fim da Presidente Vargas, tenho que passar nas Barcas para recarregar meu bilhete único antes de pegar o ônibus para Botafogo. Por sorte tive de buscar esse documento no Colégio Pedro II e me lembrei que ele estava quase zerado, provavelmente só havia o suficiente para mais uma passagem, e amanhã tenho uma entrevista de estágio em Niterói, sem o bilhete estaria enrolado.

Procuro inutilmente uma sombra para me abrigar desse sol de fritar calango, típico do Rio de Janeiro. Decido que é mais vantajoso apertar o passo para voltar logo pra casa.

Alguns metros depois vejo ao longe uma moça se aproximando na mesma calçada que eu. Dou inicio a uma sequência de pensamentos idiotas. Será que ela é bonita como está parecendo de longe? Parece que sim. Unn... tem cabelos castanhos. Pode ser a Débora Secco. Será? Ou talvez outra atriz? Podia ser... Uma atriz podia se apaixonar por mim, ia ser legal ter um romance com uma atriz! Se bem que seria muito conturbado... Não gosto de gente fuxicando minha vida. Olhando mais de perto parece a Carla lá da faculdade. Nossa, a Carla é muito gata! Quando encontrar aquela garota de novo vou fazer alguma coisa pra me aproximar dela, talvez e...

- Oi Marcos!

- Carla?!? Err... Tudo, tudo.
(Calma Marcos... calma. Postura, estufa o peito e sorria) Caramba, que surpresa te encontrar aqui no Rio, o que faz por aqui?

- Eu moro aqui Marcos, você esqueceu?

(
A voz Marcos, melhora a voz) - Ahh... Mil perdões minha cara, é que passa muita coisa nessa mente aqui! (Unn... talvez eu tenha exagerado na encenação)

Ela começa a rir divertidamente. - Ahan, sei Marcos. Espero que esse semestre cálculo esteja entre essas coisas, você já está bem enrolado com essa matéria. Hehehe, você é uma graça garoto!

Ela diz isso colocando sua mão sobre meu ombro e sorrindo ternamente, nos despedimos com um aceno e ela dizendo que nos vemos em breve na faculdade. Ainda a vejo se distanciando rebolativamente pela calçada. Nossa como ela é gostosa! Acho que fiz uma boa impressão, sim, fiz sim.

Sigo meu caminho mantendo a pose altiva de quando conversava com ela. Olho para o lado e vejo meu reflexo no vidro de um prédio. Estou estranhamente com a espinha arcada para trás, com um ombro mais alto que o outro, escorrendo suor pelo rosto, o cabelo parece ter sido propositalmente emaranhado, ainda ostento duas pizzas na camisa social com apenas um botão preso deixando à mostra uma camisa estampada de gosto duvidoso.

- É... talvez não uma impressão tão boa assim. Me endireito o melhor que posso, vejo um ônibus que vai no sentido Botafogo, corro até o ponto e sigo o fluxo de passageiros até conseguir um lugar para sentar.

Droga, não lembro o que vim fazer por aqui. Pelo menos encontrei com a Carla.
Bem, ela parou pra falar comigo, quem sabe ela não é afim de mim? Pode ser...

Olho contemplativamente para a paisagem através da janela, no céu vejo aves maritmas que sobrevoam a Baía de Guanabara passando agora por cima de uma das Barcas...

Unn... Merda!



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Titanomaquia Parte 2 - O Monte Olimpo

Capítulo 10

- Peguei-a Óbulo! Peguei-a! Gritava Zeus efusivo.

- Mantenha-a firme Zeus, vamos evitar mais surpresas desagradáveis. Agora, senhorita, poderia trazer nossos amigos de volta à consciência?


Métis lutava ainda de costas para seu atacante, incapaz de vê-lo, a aproximação da águia fazia a situação piorar. Maldita hora em que resolvi desvendar os mistérios de Réia, maldita curiosidade, maldita sede de conhecimento! Assim que tiver uma oportunidade irei cravar meu punhal no peito deste bárbaro que me mantém presa, depois me preocupo com a ave.
Já de frente para a jovem Óbulo insiste - Vamos lá minha cara, imaginei que dissipar o aroma cortaria o efeito de seu sortilégio, vejo que não funcionou. Então, como faço para reaver nossos companheiros?

- Bem... posso desfazer o feitiço, mas não assim presa, necessito de meus movimentos.

Óbulo meneou a cabeça. - Me tomas por um tolo Métis? Acaso não acabo de ver o que fez com todos os Curetes em tão pouco tempo?

- Não era minha intenção, isso tudo foi um mal entendido. Estava apenas sendo cautelosa, que reação esperava de alguém que encontra uma equipe de guerra?

Neste ponto Zeus interfere sorridente. - Ora Óbulo, se ela precisa estar livre para retirá-los desse torpor, que seja. Confio que não nos fará mal algum. Dizendo isso soltou a Oceaniade, antes que a Águia pudesse se opor a tal ideia.

Ao se ver livre Métis sacou seu punhal virou-se para atacar Zeus, o qual em um hábil movimento segurou-lhe o punho com firmeza, sem perder o ar sorridente e jovial. Ao olhar pela primeira vez o jovem filho de Cronos face à face, Métis se surpreende e balbucia um inauldível pedido de desculpas enquanto deixa sua arma escapar por entre os dedos.

- Viu? Não lhe disse que ela era de confiança, agora pode libertar meus amigos... Métis, certo?
Desnorteada a oceaniade espalha um aroma cítrico pelo ar, e segue com movimentos rápidos dos braços. Rapidamente os Curetes despertam sem compreender como Óbulo e Zeus estão presentes, e, principalmente, o que aconteceu com a bela dama, para que sua expressão mudasse da altivez imponente para a confusão subserviente.

Com a situação sob controle Óbulo ordenou que Alcmon construísse algo que a mantivesse presa, pois ainda não sabiam de suas reais intenções . Os demais Curetes seguiram escoltando a beldade enquanto Zeus libertava o lobo utilizado como distração por Métis.

- Pobre animal, também estava sobre os encantos dela. Enquanto falava Zeus afagava carinhosamente a criatura. - Mas não posso culpá-lo, ela é mesmo encantadora, não?
Óbulo notou que a feiticeira caminhava com passos curtos, volta e meia olhando para trás, então, dirigindo-se a Zeus:

- Acha que não vejo o que está fazendo, jovem Zeus?

- Ora Óbulo, só falta me dizer que agi de forma errada!

- Arriscou-se por um flerte Zeus! Poderia ter saído seriamente ferido deste encontro!

Mirando os já distantes belos olhos de Métis, negros como as fendas abissais do Oceano, Zeus sorrindo ousou argumentar.

- Nesse tipo de encontro Óbulo, é a inanição que nos deixa seriamente machucados, não a atitude.

Vendo-se incapaz de refutar tal argumento Óbulo indaga:

-
Então Métis é a criatura com quem desejas compartilhar seu destino?
Já de pé, após libertar o animal que se embrenhara na mata, Zeus sentiu um calafrio passar seu corpo com o comentário da Águia.

- Compartilhar o destino Óbulo!? Você transforma qualquer cosia em uma epopéia! Digamos que pretendo compartilhar nossos destinos, mas isso não quer dizer que o faremos para sempre.

Com um sorriso jocoso Zeus indicou que voltaria ao acampamento, o que fez com que Óbulo alçasse voo.


Caminhando floresta a dentro Métis piscou repetidamente os olhos. Teria sido um feitiço? O que aquele jovem teria feito a ela? E qual seria a fonte de todo o poder que emanava de seu corpo?

Absorta nestes pensamentos seguia conduzida pelos guerreiros, volta e meia arriscando olhar para trás, e sempre que o fazia encontrava o olhar fixo e imponente que a fitava com um sorriso simpático.

Ela notou que todos os membros da "comissão" em algum momento deixaram seu posto e foram até o jovem para uma breve conversa, ao que tudo indicava se preocupavam com ele.



À frente do grupo, em marcha acelerada, ia Alcmon, incumbido por Óbulo de construir algo capaz de reter Métis. Enquanto corria pela mata uma gama de possibilidades se desarcotinava pela mente de Alcmon. O guerreiro pensava nos materiais que poderia usar, e como dispô-los de forma a rapidamente construir algo improvisado, mas resistente, depois pensaria em uma cela melhor. Ao chegar ao lugar chamou alguns sátiros e comandou-os para que buscassem determinados materiais.

Vinte minutos depois, quando os demais chegaram em frente ao Monte Ida encontraram uma grande armação de cipós, juncos, galhos, argila, e outros elementos da natureza, que por mais improvisada que parecesse à primeira vista, com uma análise mais minuciosa, se mostrava resistente e bem engenhada.

Colocando a ninfa em sua cela Célmis, o líder dos Curetes deu espaço para que Óbulo pousasse.

- Vamos lá minha cara, comece nos contando como chegou aqui. Alguém lhe enviou?


Com sua altivez recuperada Métis fitou diretamente os olhos de seu inquisidor para responder:

- Bela ave, Óbulo, certo? Estou aqui por conta própria, trilhei meu próprio caminho. Como bem deves saber as coisas não vão bem no Monte Ótris há tempos. Desde que Réia transmutou minha irmã Ásia em uma vasta extensão de terras que agora encobre a parte oriental de Gaia Jápeto vive afastado, no extremo Oriente, cavando e arrancando rochas na esperança de reavê-la, tolo. Réia não engravidou mais, ninguém sabe a extensão do sortilégio que a atingiu, mas todos ficaram muito satisfeitos de seu rompante de ódio ter cessado contra Ásia. Todos menos eu.


- Por quê?



- Ora meu caro, por que não faz sentido! Quando se voltou contra os demais Titãs Réia ainda não tinha como saber se estava infértil, como, após constatar tal fato, ela se manteve calma ao invés de explodir em fúria contra os culpados?


- E a partir desse ponto...


- A partir desse ponto entrei em contato com as ninfas de seu séquito, e após muito tempo reunindo informações descobri que antes do nascimento do último filho Réia veio ao monte Ida, para algum tipo de culto. Então imaginei que ela guardasse por aqui algo de grande valor ou poder.


- E por isso veio para cá sozinha? Inquiriu desconfiado Óbulo.


- Vim pois me preocupo com meu futuro, imaginei que Réia guardasse algo perigoso, com a pretensão de usar contra os demais Titãs em uma vingança, o que poderia afetar meu pai ou até mesmo a mim. Entretanto
, disse Métis lançando um olhar sorridente para Zeus, mudei de ideia quanto a periculosidade do que é guardado por vocês.
Visivelmente aborrecido Óbulo deu um profundo suspiro enquanto movia a cabeça de um lado para o outro.

- Eônis, veja se nossa "hóspede" carece de algum alimento, Jásio, venha comigo preciso pensar no que fazer. Ah, e Zeus, mantenha-se longe de Métis!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Viagem monótona

Pela janela do ônibus vê o nascer de um sol esmaecido. Do rio que acompanha a auto estrada emana uma espessa neblina que acinzenta friamente a paisagem. O bafejar ritmado marca uma mancha no vidro, que surge e desaparece junto com sua respiração.
Pelo vidro superior entra uma brisa que ganha força com a velocidade do ônibus, causando um prazer gélido sobre sua pele. Segue contemplando o rio, que em suas curvas se aproxima e se distancia do veículo, trazendo sempre consigo um ambiente fúnebre e enevoado que os ainda timidos raios de sol lutam para transformar em uma bela manhã.

Viagem monótona...

Neste instante ouve uma voz que um tanto quanto desconcertada lhe pede para fechar a janela devido ao frio.
Olha para trás com calma e vê um belo ser, de olhos ternos, da mesma idade que tu, trajando um gorro e vestindo uma jaqueta jeans que parece não lhe proteger muito do frio. Levando a mão a janela sorri-lhe enquanto veda a causa de tal suplício. Endireita a postura enquanto pergunta-lhe o nome. Certificando-se de que viaja sozinho faz um convite para que se sente ao seu lado, o trajeto será longo, seria bom ter alguém para conversar. A resposta vem com um sorriso e ganhas uma ótima companhia para a viagem que agora se torna muito interessante...

Bem, na verdade, isso é o que descobriu que deveria ter feito, depois de descer do ônibus, já muito longe dali, ainda pensando sobre o acontecido. O que realmente fez foi um pouco diferente...

Viagem monótona...

Neste instante ouve uma voz retraida, um tanto quanto desconcertada que lhe pede algo. Olha para trás de sobressalto e da de cara com uma pessoa de belas feições, ao menos é o que lhe parece nos poucos segundos que a encara.
- Que?
- A janela...
- Ah, sim. Um tanto quanto atrapalhadamente tenta fechar a janela de forma eficiente, primeiro com uma mão apenas, depois com as duas, por fim empurrando-a com o peso do corpo. Como se fechar janelas impressionasse alguém. Após esse esforço épico se volta sorridente, esperando uma resposta. Em troca recebe outro sorriso embaraçado. Pensa rápido em algo para dizer antes que os bancos tampem por completo sua visão, palavras saem de sua boca e não se reconhece em sua fala. Quanta idiotice! Em resposta recebe um murmúrio que pode ser qualquer coisa, mas que provavelmente não é nada, apenas uma resposta dada por educação, ou hábito de se responder quando lhe dirigem a palavra. Lembra-se que não lhe perguntara o nome. Passa boa parte do longo trajeto buscando uma nova oportunidade para se virar e falar algo. Não há motivo para isso...

Viagem monótona!


sábado, 12 de novembro de 2011

Conto para se ler antes de dormir...


Está muito tarde, já é quase meia-noite. Definitivamente não é a hora em que eu deveria estar voltando para casa. A Rebeca vai me matar!

Com esses pensamentos Alberto descia do ônibus próximo a sua casa na região do ABC paulista. Ele apreciava morar em São Bernardo, mas às vezes vinha a mente a ideia de arranjar um apartamento qualquer em São Paulo. Conseguiria chegar em casa bem mais rápido.

Entretanto essa ideia era rechaçada pela bela imagem de Rebeca. Eles já estavam juntos há três anos, desde o começo da faculdade dele, quando ela foi acompanhar uma amiga que estava organizando as atividades do trote de Publicidade e Propaganda da USP, curso para o qual ele havia passado. Ele não gostava de acreditar em coincidências, mas quais as chances de uma estudante da UFABC de Santo André ir ao trote da USP? Claro que as coincidências pararam por aí, a partir do momento que se conheceram Alberto e Rebeca não conseguiram se desgrudar e em três meses já estavam namorando. Agora eles moravam juntos, na casa dela em São Bernardo, o que saía mais em conta financeiramente do que alugar um apartamento, e obviamente era mais cômodo por questões afetivo-sexuais.

Ela já havia avisado que caso Alberto se mudasse, se mudaria sozinho. Até o término da faculdade ela ficaria ali. E ele acatava essa decisão com muita felicidade. A simples lembrança do corpo de Rebeca fazia com que ele desejasse chegar mais rapidamente em casa.

Um ar gélido passa por Alberto. Ele olha em volta enquanto esfrega as mãos em seu próprio corpo na tentativa de se aquecer.

- Ufa! Não deveria fazer um frio desses em pleno dezembro, mas já desisti de tentar entender o clima dessa região estranha. Como sempre, às vésperas do fim de semana o tempo tem que virar, que saco!

Não há mais nenhum transeunte. A rua está estranhamente deserta. Rebeca mora no centro da cidade, a algumas quadaras apenas da Prefeitura. Estranho não ter ninguém. Por sorte a lua cheia está iluminando os pontos onde não há postes o que tornaria o passeio até agradável, não fosse aquele frio dos infernos!

Nesse momento outra lufada de vento, seguida de um odor suave que ele não conseguia distinguir. Enquanto Alberto pensava de onde conhecia aquele cheiro levemente desagradável todos os cães da vizinhança se encontravam em um estado de perturbação descomunal. Latidos, uivos, rosnados...

- Isso não está legal.

Alberto apertou o passo, aquela noite estava muito estranha. Ele detestava lugares ou dias frios. Sempre o lembravam das histórias que a noite sua avó contava quando, ainda criança, ele e seus irmãos a visitavam nas férias. Na pequena casa a alguns quilômetros de Porto Alegre ela desfiava contos assustadores sobre criaturas medonhas. Espiritos vingativos, lobisomens e demônios indigenas. Dona Nisa, sua avó, dizia que cada cultura é responsável por seus demônios, e que por lá ainda rondavam vestigios dos antigos seres indigenas, mas que em breve estes sucumbiriam e seriam sunbstituídos pelas criaturas das cidades grandes, por que cada cultura tem seus medos, e o medo alimenta esses seres. Ao ouvir isso o pequeno Alberto sentia um frio na espinha, que nada tinha a ver com as frias terras do Rio Grande do Sul. Era um frio de medo, e quanto mais medo sentia, mais se imaginava alimentando criaturas aterradoras e maior seu desespero ficava.

- Chega de idiotices! Sou um homem ou um rato? Já passei da idade de ter medo dessas coisas.

Um baque forte sacode um portão de ferro. Do outro lado deste, latindo furiosamente na direção de Alberto, um pastor alemão salta repetidamente de encontro ao portão.

Pálido de susto o rapaz pragueja enquanto se recompõe do susto. - Puto de uma figa! Quase desmaio aqui!

Mas, ao mesmo tempo, se sente aliviado. Não havia por que temer um cão preso. Mais alguns passos e já estaria em frente a sua casa, e sua maior preocupação seria qual desculpa dar para Rebeca por seu atraso. Mesmo assim ele deixa de caminhar e começa a correr em direção a casa.

O vento prossegue, e parece cada vez mais gelado, quase sobrenatural. Junto com ele um odor incômodo. O rapaz pega as chaves do portão. Entra tentando fazer a menor quantidade de ruído possível. Todas as luzes estão apagadas, dessa vez Rebeca não ficou em frente a TV o esperando. Estranho, amanhã sendo sábado ela não precisa acordar cedo. Alberto tenta se lembrar de uma piada que lera sobre a sexta-feira, provavelmente no facebook, caso ela esteja acordada na cama seria um bom modo de desviar do assunto atraso.

Dentro da casa ele segue tateando pelas paredes. Ora, ele não precisava de desculpas ou de histórias, apenas pode dizer a verdade. Abraçá-la e dizer que o dia fica muito longo sem ela ao seu lado, que se pudesse já estaria ali há muito tempo.

Enquanto esses pensamentos se desenhavam em sua mente o rapaz sorria e calmamente se aproximava do quarto. Fora da casa os cães não mais latiam. O vento não soprava. A noite ficou muito silenciosa.

Alberto abre a porta do quarto. A janela aberta permite que a luz da lua ilumine o aposento e o rapaz consegue vislumbrar a silhueta de sua amada sobre a cama. Ao mesmo tempo o odor incômodo emerge com mais força.

Agora ele se lembra de onde conhece esse cheiro. Ainda no Ensino Fundamental um professor de ciências levou um pouco de um material para que a turma descobrisse do que se tratava, Alberto aspirou o material e ficou com aquele mesmo odor incômodo impregnado por algumas horas. Nesse dia o professor lhes explicou que o enxofre, diferentemente do que se pensa no cotidiano, não cheira a ovo podre ou coisa do gênero, isso é a mistura com hidrogênio que produz, em estado puro ele possui aquele odor suave, mas desagradável.

Se aproximando da cama o rapaz treme. Já não sabe se por medo ou por frio. Cada passo como uma eternidade, e seus ouvidos preenchidos por um silêncio mortal, até que ele sente uma mudança inesperada no solo sobre seus pés. Algo viscoso. Líquido.

Ele se abaixa, toca o chão com os dedos e sente um líquido espesso e morno. Assustado se levanta, clica o interruptor e quando a luz invade seus olhos uma imagem aterradora vem junto com ela. O líquido é uma mancha de sangue que vai para o chão através de pingos grossos que escorrem pela lateral do colchão, sobre o mesmo está Rebeca. Alberto se aproxima de sua amada e toca sua face na tentativa vã de acordá-la. Em seu pescoço jaz a marca da brutalidade, quatro cortes profundos de onde já não mais sai gota alguma de sangue.

O garoto se desespera. Isso não faz sentido algum! Que tipo de monstro faria isso? Por quê?

- Vem aqui filho da puta! Desgraçado! Entre soluços e lágrimas o rapaz esmurra o chão ameaçando céus e terra. - Quem cometeu essa atrocidade não sairá impune... Irei caçá-lo aonde for, irei...

A luz se apaga. O cheiro fica mais forte e o frio parece emanar do interior do quarto, bem das costas de Alberto que agora sente náuseas de medo. Em um movimento brusco ele se vira e dá de encontro com um par de olhos vermelhos que parecem arder em chamas, simultaneamente seu pescoço é segurado firmemente por uma mão grande e forte que o aperta impedindo-o de respirar.

Uma voz rouca e baixa praticamente sussura enquanto o cheiro empesteia o ambiente.
- Me chamaste rapaz, pois aqui estou para lhe ensinar uma pequena lição. Pessoas morrem todos os dias, uma de forma rápida e indolor... outras lenta e dolorosamente.

Então Alberto sentiu sua garganta ser apertada de forma que seu grito de dor e agonia foi incapaz de escapar enquanto cinco garras, como facas, perfuravam seu pescoço. De forma lenta... Muito lenta.