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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Finalmente

O tecido se move gracioso em um dança provocativa vermelha e dourada, assim como aprendeu quando ainda era muito pequeno. Seu corpo está sublimemente ereto, tal qual um bailarino, mas diferente deste, ele está com um fina espada e uma rosa em suas mãos.

A arena inteira está em silêncio aguardando o próximo movimento, que assim como todos, pode ser o último. O silêncio é quebrado quando após a besta passar furiosa, toda a torcida rompe em um grandioso "Olé!".

O couro do torso do touro toca suavemente a roupa brilhante de seu nêmeses, que apesar da falha imperceptível para a plateia, sabe que cometeu um erro e mesmo decepcionado continua com seu olhar pétreo para o adversário, fazendo pequenos movimentos nessa dança cruel.

O toureiro está na arena e não está, os antigos chamam isso de espirito da arena. Quem comanda seus passos não é a sua vontade própria, mas sim a vontade de todos os toureiros que vieram antes dele e antes dos toureiros, do próprio Deus que ensinou essa arte aos homens.

A plateia veio pelo banho de sangue, mas ele está ali em respeito as antigas tradições e até mesmo em respeito ao próprio touro. Cada trote desembestado da criatura é correspondido com um movimento técnico. A fúria e a razão dançando enquanto são aplaudidas por uma legião de ignorantes.

Tudo é belo, tudo é cruel. O toureiro cansa o touro fazendo o mínimo esforço. A besta tenta desesperadamente matar o toureiro, mas mira no lugar errado. Assim ambos continuam, assim ambos mantem este ritual que só termina com a morte de um dos dançarinos.

Mas neste dia foi diferente, o dançarino não se manteve no espírito da arena, deixou seu coração ser tomado pela mesma fúria que havia no coração do touro. Lembrou-se do dia anterior, quando sua amada resolveu partir e com a fúria, veio o medo e com o medo, a cegueira.

Uma piscada mais longa. Somente estes poucos segundos de trevas absolutas, foram necessários para dar fim a dança. O longo chifre pontiagudo da criatura perfurou seu peito, no exato local onde estava seu já dolorido coração e agora toureiro e touro são apenas um ser horrendo e bizarro circulando pela arena.

A rosa vai o chão e a torcida horrorizada com desfecho do macabro espetáculo grita desesperadamente, retirando crianças agora traumatizadas e se pisoteando-se na busca por alguma saída daquele teatro de horrores. Todos compartilham agora o medo, a fúria, o desespero do touro. O ritual tem o seu pior desfecho.

A consciência do toureiro voa por todos os lugares que já esteve, rememorando alegrias e tristezas, momentos felizes e traumas secretos. Tudo enquanto trota em agonia junto a criatura a qual deveria ter sido o assassino.

Sabendo que tudo está perdido e que suas esperanças de glória e amor terminaram naquela sangrenta arena, utiliza suas últimas forças para, com sua espada, causar um golpe fatal na besta assassina. O ritual foi profanado. Ele sabe que deveria dar ao touro o direito de viver, assim como o teria caso tivesse sido o vencedor da disputa.

Sua mão encontra o couro ainda quente da besta e com um toque quase carinhoso, pede desculpa.

Agora ambos podem finalmente descansar.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Primeira Canção - Parte I: Dez Horas



      Branca estava passando manteiga no pão recém-saído do forno quando escutou batidas a porta. Naquele horário raramente vinham noticias boas e seu coração tremeu antes de abrir os trincos.

        O rosto conhecido sorriu ao vê-la. Estava trajado como quem estava pronto partir a qualquer momento. Essa constatação colaborou para que os temores da clériga se concretizassem, e não correspondendo ao sorriso falou:

- Vocês mal voltaram e já vão partir?

- Bom dia Branca, sei que é cedo, mas preciso falar com Rossat. Espere, que cheiro é esse? Hum... Deve ser um dos seus divinos quitutes! Essa é uma daquelas conjunções astrais na qual você coloca seu dom da culinária em prática?

- Andrew, sabe que detesto cozinhar e só faço isso em momentos especiais, tipo quando vocês voltam de uma longa campanha. Mas parece que vou ter que comer sozinha.

- Não diga isso, trouxe importantes notícias para tratar com o mago rabugento e muita fome para que esses magníficos pãezinhos não tenham que conhecer o dia de amanhã.

- Vou chama-lo, mas se você o devolver como da última vez, você vai precisar de uma boca nova para contar as suas histórias, já que vou arrancar todos os seus dentes.

A pequena clériga tinha um olhar feroz e ao se virar para dentro da casa viu os pés de Rossat descendo as escadas.

- Não precisa me chamar, já levantei – disse o mago com bandagens visíveis por baixo da camisa de linho no tórax e no braço direito – o que é tão importante que precisa me chamar tão cedo? Você esqueceu a regra de que más notícias só depois das dez horas?

- Não é exatamente uma má notícia, então acho que posso usar um horário digamos... alternativo.

        Branca colocava mais um prato na mesa simples e o trio, após uma breve oração, começou a partilhar o café com o deleite de quem sabe que pode ser a última refeição que será feita dentro de muito tempo. Andrew estava um pouco desconfortável com a situação, mas a urgência do caso lhe obrigava a ter que agir dessa fora.

        Após um breve momento de amenidades, o bardo ficou com semblante sério e com um tom de voz mais composto relatou o motivo de sua vinda.

- Velho amigo, sei que muitas aventuras já fizemos e muitas outras estão por vir, seja em nome da Companhia, seja de forma mais discreta. Todas as vezes que sugeriu algo, mesmo com destino nebuloso, aceitei e espero que agora não pestaneje em diminuir esse débito comigo.

        O silêncio posterior a essa fala foi rompido por um galo que anunciava os primeiros raios de sol da manhã e complementando sua petição Andrew continuou.

- Através de um sonho, os antigos mestres me contaram que é a hora de partir em direção a um lugar muito especial, que somente bardos cujas músicas começaram a ecoar pela eternidade tem permissão de ir.

- Ufa, então não temos problemas, porque suas músicas ainda não foram tão longe – afirmou Rossat por trás de um sorriso que tentava quebrar a seriedade da situação.

- Por mais improvável que pareça, é verdade – o bardo falou com um olhar irônico – tão improvável quanto você conseguir derrotar um tigre-demônio.

         Branca que até o momento estava apenas observando a história cortou as brincadeiras da dupla.

- Onde diabos é esse lugar? E se só os bardos podem ir, por que está querendo a nossa ajuda?

- Essa é a questão, o lugar é em um templo nas montanhas de Tiloudes.

- Nunca ouvi falar desse lugar – deu Rossat de ombros, mas a sacerdotisa completou – Está maluco? Aquele lugar é maldito! Poucos foram até lá menos ainda voltaram! Pode tirar seu cavali... seu banjo da chuva e ir sonhando com outra coisa.

        Andrew sabia que a braveza de Branca era por querer o melhor para todos, mas ele tinha que cumprir seu chamado e contava com a ajuda do mago.

- Podemos nos teleportar para lá e voltamos antes do próximo amanhecer.

        Tentou aliviar o arcano.

- Infelizmente não será tão fácil, magias de deslocamento espacial não funcionam por lá, podemos no máximo chegar a uma cidade alguns dias de viagem das montanhas.

         O clima voltou a ficar tenso.

- Ai ai... Sem problemas, só preciso de algumas horas para terminar de arrumar alguns preparativos e que a Branca me ajude com os curativos.

- Você sabe que se eu adiantar a cura, vai ficar com mais cicatrizes, né?

- Sei... Serão apenas mais algumas para a minha coleção – minimizou o mago com um sorriso que fazia seus olhos quase fecharem.

- Então estamos acertados, volto umas dez horas para irmos.

- Talvez eu esteja pronto antes...

- Não precisa. Dez horas eu volto e te conto o resto da aventura – disse Andrew enquanto levantava da mesa e pegava o último pãozinho.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A morte


Faz tempo, não me lembro direito quando,  mas o que lembro é que foi em uma manhã. Meu sono foi perturbado por um delicado chacoalhar que foi aumentando de intensidade até me arrancar do reino de Morpheu, ainda atordoado, com a vista recuperando o foco e se adaptando aos poucos raios da luz matinal que entravam pela janela vi minha morte ao lado da cama.

Nunca a tinha visto antes, mas ao fitar seu semblante soube instantaneamente que era a minha morte, só tive tempo de uma breve oração antes dela começar a falar.

- Pode parar com isso, não vim para te levar agora, vim apenas te falar que hoje eu posso te levar, então é bom começar a arrumar as coisas.

Tentei argumentar,  mas antes que as palavras saíssem ela já não estava mais no quarto. Corri feito um louco, tomei o melhor banho da minha vida, pois tinha a certeza que era o último,  tomei o café com a mesma certeza, falei com todos que quis, escondendo a mesma certeza, pois achei melhor evitar prantos desnecessários antes da hora.

O dia voou e nem sinal da minha morte, fui dormir com a certeza que seria durante o sono que ira passar dessa pra melhor.

De repente sinto o agora conhecido chacoalhar e ao abrir os olhos vejo novamente minha morte.

- Estou pronto - digo com a mais digna certeza - pode me levar para onde for.

- Levar?

Acho que escuto uma risada, se é que a Morte pode rir.

- Não vou te levar, só vim dizer que posso te levar hoje.

Fico atônito.

- Não foi isso que você me disse ontem?

- Sim e direi isso todos os dias pelo resto da sua vida para que nunca se esqueça que estou a um passo de distância,  todas as suas ações devem ser guiadas com a convicção que posso te levar a qualquer momento.

- Devo viver como se não houvesse amanhã?

- Não vim te dizer como deve viver. Vim apenas dizer que estou sempre por perto.

E assim ela desapareceu novamente.

Nos primeiros dias corri para fazer tudo que me desse vontade,  sempre sendo acordado nas manhãs pelo meu insólito despertador, mas os dias foram passando e meu único encontro com a ceifadora era no despertar.

Isso foi me dando confiança para tentar coisas de mais longo prazo,  buscar a ocupação que queria, o relacionamento que desejava, fazer os exercícios que achava interessante, tudo isso sabendo que podia ser a minha última ação,  pensava "se morrer agora, morrerei tendo feito o que quis ".

Teve vezes que tentei barganhar, por motivos mais e menos nobres, as vezes quis negociar alguns minutinhos mais na cama e em outros implorei que ela me desse a garantia que não me levaria pelo menos enquanto os meu filhos fossem pequenos,  mas independente da nobreza dos meus pedidos,  ela apenas falava que poderia me levar a qualquer momento e desaparecia.

Os anos se passaram e a quantidade de sacolejos necessários para me despertar iam aumentando. Foi então que um dia a minha Morte ao entrar no quarto ponderou se deveria me conceder os tão pleiteados cinco minutos, mas ao ver meu sorriso enquanto dormia, sorriu também e me deu muito mais do que cinco minutos,  me deu a eternidade.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Campo Belo




Essa história aconteceu lá pras bandas das Gerais
Na Zona da Mata mineira, na fazenda de meus pais
Tinha lá uma cachorrinha tão bunita de se vê
Mas aconteceu que a coitadinha
por ficar muito véinha
acabou-se por morrê.

Nóis menino ficamo triste c'a morte da companhêra
Num tinha mimo de mãe que acabasse c'a choradêra
E nosso amado pai que num guentava tristeza vê
disse ansim pra nóis menino:
" De manhã vamo à cidade, passeá pr'espairecê"

Dispois de um di'inteirinho, já na hora de vortá
Ouvim'um barui'squisito e viramo pra oiá
Bem na beira da estrada tinh'um filhote latino
Parecia que chorava bem ansim com'os menino
Mas não era para menos que lamuriava sua sorte
Na moita bem atrás dele, encolhida num cantinho
Jazia sua mãezinha e mais uns irmãozinho
e todos dormia quietinho abraçados com a morte.

Levamo pra casa então aquele cachorro de sorte
Tratado a leite com pão o pequeno cresceu forte
e ao companheiro bonito que tinh'os pelo amarelo
por sugestão dos menino dem'o nome de Campo Belo

Campo Belo cresceu longe, distante de seus semelhante
o cachorro mais próximo morava muito muito adiante
talvez seja por isso, por não tê quem imitá
que Campo Belo foi então nos bezerro s'ispeiá

Mamava nas vaca de dia, passava as noite no pasto
pra ficar mesmo igual bezerro só lhe faltav'os casco
Campo Belo foi'squecendo como que era latí
e juntamente aos bezerro foi aprendendo a mugí
inda igualzinh'aos bezerro que tinha medo de gente
o cachorro fugia ligêro quando nos via na frente
Inté n'ora de crescer Campo Bel'os imitou
do tamanho d'um garrote nosso cachorro ficou
seu semblante dava medo, nos bixo, na gent'e nos otro
o padre inté ispaiô que nóis vinha criand'um monstro

Inté que aconteceu duns ladrão chegá no arraiá
as fazenda de todos vizinh'eles vier'à robá
mas de ver o Campo Belo com nosso rebanho a pastá
os ladrão fugiro de medo
achando que aquele mostreng'os iri'atacá

a nossa fazenda foi sarva pelo cão-boi monstruoso
mas isso fez o padr'e nossos vizinh'odioso
eles passaro a dizer que nóis fazia bruxaria
e foro atrás do cão-boi
com foice e faca na mão, fazend'uma gritaria

Campo Belo sumiu, ninguém sabe pr'onde foi
correndo daquele povo que caçava o cão-boi
num sei se por medo ou bondade
pra alegria do padre, o cão-boi tinha fugido
Ficamo triste de novo, sentindo uma baita saudade
daquele cachorro monstruoso
que agente tinh'acostumado a chamar de "meu amigo"

Mas eu te asseguro, Campo Belo ind'anda por lá
pois lugar mais seguro que nossa fazenda não há
os ladrão que antes fugiro acabaro por vortá
mas mal negócio foi esse de vortá pra nos robá
numa noite escura e fria, sem lua pra lumiá
nóis ouvim'um som estranho que fez os pelo arrupiá
parecia um cão e um boi e dois homi a gritá

na manhã do dia seguinte os ladrão foro encontrado
dois corpo posto no chão e do avesso virado
tem que ser do Campo Belo o urro estranho que ouví

pois nunca vi um boi que late e cachorro num sabe mugí

quinta-feira, 19 de março de 2015

Companhia do Tigre Branco - Histórias Ébrias


É impressionante a quantidade de lama que  pode ficar presa na roupa quando se está andado a cavalo em um lamaçal durante uma das piores tempestades que vi nesses últimos anos.

Resolvi adiantar minha chegada, já que os batedores que enviei ainda não deram notícias. Confio plenamente na capacidade deles,  já os vi lutando contra coisas que fariam pessoas normais terem pesadelos por anos e saírem de situações que até hoje me fazem pensar se realmente aconteceram ou não passavam de um delírio.

De qualquer forma, já se passaram dois dias desde a data combinada e dei ordens expressas sobre o quão importante era me manter informado e ser o mais discreto possível na chegada à Rafrin.
Essa cidade cresceu muito em pouco tempo, todos vieram para cá tentar a sorte já que as principais feiras do reino agora passam por aqui, mas não são só louros que essa cidade guarda, os crimes estão cada vez mais constantes e o prefeito da cidade havia nos sondado sobre problemas com uma guilda de ladrões que tem atacado as caravanas da região.  Esperava que Andrew e Rogy me atualizassem sobre a situação, mas pelo visto eu mesmo terei que descobrir.

Já é tarde e nessa chuva somente estabelecimentos de reputação questionável estão com suas portas abertas. Putas com frio me vêem passar e nem se dão ao trabalho de me convidar para entrar em seus salões de ofício. Me abaixo um pouco para ver de cima do cavalo as janelas das tabernas abertas e mesmo a metros de distância sei que é  na "Taberna do Calcanhar de Chumbo" que devo entrar.

A voz de Andrew era mais alta do que o barulho da chuva e antes de entrar espiei pela janela vendo que sua face estava mais rosada que o normal, algo me dizia que era por causa das cinco ânforas de vinho que estava espalhadas pela mesa.

Minha entrada mal é notada, estava com uma capa e capuz escuros que mal deixavam ver meu rosto e a camada de lama impossibilitava qualquer identificação.

Em uma olhada rápida vejo que a taberna não é muito grande, com pouco mais de cinco mesas e um pequeno palco onde pude ver um conjunto de músicos olhando feio para o meu amigo,  pois ele era o centro das atenções naquele lugar. É comum os bardos estarem nessa posição,  mas Andrew era especialista nisso. Ele arranhava tocar um pouco de violão e flauta, mas era ao contar histórias que ele mostrava seu verdadeiro dom. Ele falava e as pessoas ouviam, simples assim.

A família de halflings que pelo que inferi era dona do lugar se esforçava para dividir a atenção entre atender os pedidos e ouvir as histórias. A mais nova, que deduzi ser a filha do casal que estava atrás do balcão já  havia largado a bandeja e estava sentada próximo do bardo ébrio.

E foi assim que prendi a demonia de cabelos vermelhos na privada de uma estalagem no caminho para a Fortaleza do Orc.

Gargalhadas  eram ouvidas e olhares de descrença eram lançadas ao final da história e ele continuou:

- E agora, qual história querem ouvir?

A filha do taverneiro com os olhos brilhando, pediu:

- O senhor disse que era da Companhia do Tigre Branco, nos conte porque ela tem esse nome,  se não for pedir demais...

- Essa não precisa ser um bardo metido a besta para saber - gritou um dos músicos até então ignorados no palco - é por causa dos cabelos brancos do líder deles.

Andrew sorriu com o canto da boca e percebeu que aquela era a sua deixa.

- Muito bem, meu desafinado amigo, você está certo. Mas a pergunta que os senhores devem se fazer é porque um homem que mal chegou aos trinta anos, já está com os cabelos tão brancos!? A resposta para essa pergunta é um dos segredos mais bem guardados da nossa Companhia, mas como vocês ou melhor, quase todos vocês, se mostraram um público tão digno, revelarei, mas espero que não contem para ninguém...

Eu já ouvi dezenas de versões dessa história que Andrew conta sempre que está bêbado,  algumas são trágicas outras fantasiosas demais,  mas sempre gosto de ouvi-las. Antes de me revelar, deixarei o rapaz contar essa última história.

- Vocês já ouviram falar no Tigre Branco do Oriente?

Um arrepio subiu pela minha coluna,  ele não deveria ir tão longe em suas brincadeiras,  receoso com o que poderia ser revelado, continuei a ouvir. Ele empostou a voz e deu seguimento.

Muito longe, lá depois de onde o sol da manhã nasce, existe uma terra de mistérios e magia tão antiga quanto o próprio tempo.

Lá homens tentam descobrir a verdade e muitos não voltam, seja por sucumbirem as vicissitudes do caminho ou por acabarem por descobrir que os monstros que habitam dentro deles são muito piores do que as bestas que espreitam na noite.

Estávamos em um grupo de mais de 20 homens, cada um mestre em sua especialidade, passamos dias perdidos em desertos tão secos que secavam nossas lágrimas de fome antes mesmo delas saírem dos olhos,  cruzamos montanhas que uivavam dia e noite e no vento escutamos a morte nos atraindo para precipícios sem fundo. Tudo isso para chegar nas matas de Malaysa, onde um dos piores demônios do mundo habita, o temível Tigre Branco do Oriente.

- Mé... até parece, não há ninguém que foi tão longe! E esse lugar não passa de uma lenda! Esse tal de tigre não passa da invenção de um bêbum.

- Então me explique como alguém pode ter uma ferida como essa - disse Andrew enquanto levantava a manga da camisa e mostrava um ferida que tinha aproximadamente 15 centímetros e sua cicatriz era de um púrpura profundo - nenhuma criatura desses lados do mundo deixa uma marca parecida.

A visão do ferimento espantou toda taverna e fez calar o nêmesis desafinado do bardo. 

Eu estava ficando cada vez mais preocupado com os rumos que aquilo estava tomando. Existem histórias que não devem ser contadas.

Algumas lições devem ser aprendidas ao se enfrentar criaturas mágicas de outros continentes, e a principal delas é: Elas nunca estão sozinhas.

Nosso grupo já estava reduzido a quatro pobres coitados, os outros ficaram pelo caminho, um deles foi devorado por uma trepadeira cantante de Yr, o que é uma visão no mínimo curiosa, mas isso é uma história para outro dia.

Chegando no que seria o esconderijo da tal criatura notamos que haviam outras vozes dentro da caverna, pois seu som ecoava e reverberava por entre os labirínticos salões do local. Rossat que já era nosso líder na época, demorou poucos segundos para compreender que aquilo que ouvíamos era um feitiço de subjugação e pelo nível daquele ritual uma força ainda mais medonha  estava operando naquele lugar.

Passamos por uma série de armadilhas que com a ajuda fundamental de Nadiram, nosso habilidoso e - por vezes flertador com a morte - ladino, foram abrindo caminho até o nosso derradeiro encontro.

Em um salão com mais de cinquenta metros de altura, vimos a colossal fera em um círculo mágico se debatendo contra correntes de uma luz maléfica que tentavam subjugá-la. Ao seu redor, três mulheres vestidas de preto estavam em um transe hipnótico.

Rossat tomou a dianteira e bradou:

- Identifiquem-se seres das sombras! Vocês estão entre mim e minha conquista, saiam agora e nada de mal lhes será feito.

Uma maligna gargalhada foi ouvida, gelando nossos corações e fazendo Pietro correr como se não houvesse amanhã. Ele não estava de todo errado, se continuássemos  ali, não haveria amanhã.

A voz não vinha de nenhuma das mulheres, mas das três ao mesmo tempo. Tudo ficava um pouco mais morto a cada palavra que ela pronunciava.
- Quem seremos essa noite, minhas irmãs? Acho que Camila é um bom nome. Somos Camila, estrangeiro. Quem é você?

- Podem nos chamar de Gabriel - disse Rossat com um sorriso ameaçador no rosto, desafiando as bruxas. 

Mesmo sem trocarem mais nenhuma palavra, podia sentir o ódio delas vindo em nossa direção. A temperatura havia caído uns dez graus e o silêncio que antecipa a tempestade foi rompido por um relâmpago que saiu das mãos da Camila do meio. Se tivesse olhos menos treinados não teria nem visto os gestos de preparação da magia e não haveria escapado.

Rossat tripudiou.

- Eu estou aqui! Na próxima tente ser um pouco mais precisa.

Ele abriu os braços como quem tenta abraçar a noite.

Os olhos das criaturas começaram a pegar fogo, bolas incendiárias foram arremessadas, mas a Barreira de Espelhos que Rossat conjurou nos defendeu sem maiores problemas. Sempre fico irritado e agradecido pelo fato dele não precisar gesticular nem falar nada para fazer os seus feitiços. Acho que ele aprendeu isso no tempo que passou em uma tribo no Deserto de Al-Birra. 

Estou perdendo o foco, me desculpem.

Tomem nota disso que vou dizer, ao trabalhar em grupo, tenha a certeza que pode confiar em seus parceiros, depois de compreenderem isso, tudo fica mais fácil. E eu confiava em Rossat e Nadiram, sabia que pelo menos um deles tinha um plano. Era bom eles terem um plano. E colocarem em prática logo.

A distração que o nosso feiticeiro havia criado deu espaço para que Nadiram se esgueirasse e incapacitasse uma das Camilas.

Pensamos que a vitória estava nas nossas mãos, mas não contávamos que com menos uma das inimigas o Tigre se libertasse tão rápido e arremessasse longe o ladino, fazendo-o bater a cabeça em uma pedra e desmaiar. 

A criatura devorou as outras duas feiticeiras malignas com uma gana aterradora e após isso voltou seus olhos brilhantes como estrelas explodindo em nossa direção e um mar de fúria tomou seu espírito.

Fazendo um rolamento lateral, tentei usar meu florete contra a vil besta, mas minha arma passou por sua etérea pele. Fiquei desesperado ao perceber que meu ataques seriam em vão e antes mesmo de bolar alguma artimanha, com uma patada também fui jogado para longe e ainda recebendo esse corte no braço da garra daquele demônio. 

Rossat ficou entre mim e a criatura, ele era nossa última chance.

- Então finalmente nos encontramos - disse ele com uma tranquilidade perturbadora - identifique-se criatura, para que possa ter certeza de que é você mesmo quem eu tenho que derrotar.

- Eu sou o Tigre Branco do Oriente! O Espírito da Vingança! Quem ouve meu nome sabe que deve temer!

- HA-HA-HA

Um silêncio constrangedor emergiu após a risada de Rossat.

- Vim de muito longe para obter o seu poder. Seu último hospedeiro está morto à 700 anos e nessa noite um novo pode tomar o lugar. Serei eu.

Eu não havia ideia que esse era o plano dele desde o começo, mas como diversas vezes ele mesmo havia me dito, quase pude ouvir sua voz em minha cabeça repetindo "Apenas confie".

- Você sozinho tentará me aprisionar?

- Não. Eu não tentarei forçá-lo a nada, você entrará por vontade própria. Se tiver coragem, é claro.

Dessa vez foi o Tigre que riu.

- Mostre-me o que pode fazer, criança.

Rossat estava com as palmas das mãos paralelas a poucos centímetros do seu peito. Nesse espaço se materializou o que parecia ser um coração de energia - arisco a dizer que era um pedaço da alma dele - e o Tigre entrou como se passasse por um funil.

A voz da criatura estava em nossas mentes, podíamos ouvi-la rugindo e fomos transportados para uma realidade paralela, lá o ser diabólico parecia menos diabólico. Lá ele transmitia a sensação que vemos quando observamos uma força da natureza, uma tempestade, onde não existe bom ou mal, apenas se é. A mesma força que enche nossos rios cria enchentes que levam tudo embora.

- Eu sou a personificação da Vingança e somente um coração que sabe o que realmente significo pode me receber. 
Teu núcleo clama pelo meu poder e dentro de ti posso me alimentar dos seus mais doces sentimentos. 
Tudo que existir de infame dentro de ti transbordará. 
Posso ver cada mentira, cada artifício, tudo. 
Posso te fornecer meu poder, até que você se torne eu.

- Você pode tentar, mas só usarei seu poder para o que realmente for importante, mesmo desejando a Vingança, aprisionarei estes sentimentos assim como fiz contigo e os usarei como combustível para a minha Verdade.

- Veremos até onde você consegue, criança.

Em um instante estávamos todos de volta a caverna.

Notei que agora os cabelos negros como o breu de Rossat estavam com algumas tiras brancas, como se fosse um tigre invertido.

Olhei para ele e falei:

- Se vamos continuar como um grupo, que ele seja chamado Companhia do Tigre Branco.

E rimos desmaiando no chão de cansaço.

A taverna estava em um silêncio absoluto, todos queria saber se existia algo mais.

Então, é isso. Foi assim que nos tornamos a Companhia do Tigre Branco.

A platéia estava ainda digerindo a história quando levantei e fui em direção a Andrew. Coloquei a mão no seu ombro e sem nem virar para mim ele falou:

- Gostou da história Rossat?

Revelando o meu rosto para os outros acenei positivamente com a cabeça.

A filha do taverneiro ao ver que meu cabelos estavam bem mais brancos do que apenas algumas tiras, levou a mão a boca e pressionou as costas contra o encosto da cadeira, fazendo-a quase cair.

- Você tem que parar de contar essas histórias para crianças, elas podem acabar tendo pesadelos.

- O que posso fazer? Eles pediram.

Trocamos algumas palavras sobre amenidades para deixar mais tranquilo o clima tenso que estava na taverna e assim que tive uma oportunidade de falar a sós com o bardo disse com a voz dura:

- Dessa vez você foi longe demais, isso foi quase o que aconteceu.

Sua ebriedade havia desaparecido e provavelmente nunca havia existido.

- Relaxa, eu sei o que estou fazendo.

- Eu sei, mas não faça isso novamente.

- Ok, ok, como você é chato.

- Onde está Rogy? Conseguiu as informações que pedi?

- Ele está lá encima com a outra filha do taberneiro - o que deve gerar uma confusão, agora que ele não está mais distraído - e já tenho tudo que precisamos, mas podemos fazer isso amanhã?

- Rogy. De novo. Tudo bem, amanhã damos seguimento com o plano.

- Claro.

Fomos em direção a porta na esperança de encontrarmos uma estalagem aberta e dessa vez ouvi um som vindo da chuva que não era a voz de Andrew, mas de um velho conhecido que está sempre me espreitando...

- Logo, criança, logo, logo... 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Canções de Marte

A chuva cai na lona sustentada pela armação de metal do fundo caminhão, sua intensidade aumentou muito nos últimos minutos, o vento e as goteiras são um gélido lembrete que ela não pretende passar tão cedo e alguns milímetros de tecido grosso desse velho Red Ball nos separam de congelar no frio nessa noite.

Fico apreensivo, pois o barulho da chuva e o ronco do motor dificultam ouvir qualquer aproximação que possa acontecer e caso estejamos em risco só perceberemos quando for tarde demais, contudo, escuto um improvavel som vindo da parte mais externa da caçamba, a parte mais castigada pela chuva.

Lentamente o som vai tomando corpo nos tímidos sussurros de quinze soldados que estão sendo levados para o campo de batalha. O cabo que está sentado na minha frente ensaia uma bronca, mas faço sinal com a mão para que deixe os meninos.

A música que estão cantando baixinho dá um pouco de alento nessa tempestade, vejo que muitos dos que estão no coro, assim como eu, não conhecem a letra mas fazem um humhumhum para ajudar que essa pequena luzinha de conforto não se apague. As partes que consigo distinguir do rugido do motor e da chuva fala da saudade de casa e sobre uma garota que vai ficar esperando na janela até que seu amor volte.

É o meu terceiro tour nessa guerra, já levei centenas de combatentes por esse caminho que estamos e sei que um sem número de garotas receberam cartas com plaquetas de metal ao invés de seus amados no decorrer desses anos e em poucas horas esse garotos que mal começaram a criar pelos no peito vão ser jogados nesse jogo voraz que já consumiu tantos dos nossos.

O ponto final dessa viagem os fará ter saudade do campo de treinamento, fazendo até o rastejar na lama e os insultos do instrutor parecerem o paraíso perto do que enfrentarão nesse solo estrangeiro e essa canção que estão entoando talvez seja a última coisa que eles podem fazer antes de serem forçados a se tornarem homens.

Na noite escura, em um caminhão velho a vida segue cantando em direção à morte.




sábado, 10 de janeiro de 2015

A Sacola

       Noite quente de domingo, sentado diante da bancada do botequim José vê o velho proprietário servir a segunda garrafa de cerveja para a senhora loira que fala com ele em um tom alto, chato e estridente. Com notas de intimidade que os anos ou as doses de álcool lhe deram. Em resposta ele sorri e dá um pouco de trela, vez ou outra olha com o rabo de olho, a fim de ver se o outro cliente precisa de algo. Não, ainda está no primeiro copo da cerveja.
       Ontem foi o último dia de festa na cidadezinha, ela já começa a retomar seu ar pacato e modorrento, com as horas se arrastando preguiçosamente por entre as ruas de pedra, as mesmas pessoas, os mesmos cumprimentos. José torce o nariz pensativo. Melhor assim, mais sossego para sua vida, desde que essa maldita festa tinha começado era a primeira vez que conseguia sentar e tomar sua cervejinha sem aporrinhação de turista.
       Olha para a rua, vez ou outra um transeunte carregando sua mala passa diante do bar. Rostos desconhecidos. Talvez não fosse de todo ruim esse alvoroço, às vezes a novidade cai bem. É, promessa de ano novo: Esse ano havia de mudar de vida, ir pra cidade, ganhar um dinheiro bom, ou pelo menos uma boa história, conhecer uma bela mulher...
       Quem queria enganar? Ali nascera a mais de trinta anos, ali estava, ali havia de ficar, naquele lugar onde nada parecia mudar, o tempo parado nas sombras frias de um túnel...
       Nesse instante dois jovens passam diante do bar carregando bolsas e malas. Um deles para, olha rapidamente para o interior do bar e aponta discretamente para José enquanto balbucia algo, o outro entra no bar e faz um leve aceno com a cabeça para os seus ocupantes, o suor escorre de sua barba e seus óculos deixam ver olhos cansados, talvez de uma longa caminhada. Por um instante o olhar do estrangeiro cruza com o de José e este sente um arrepio sombrio. O estranho de pele morena e olhos cansados deposita uma sacola plástica fechada na lixeira, bem ao lado dos pés de José, e vai embora.
       José assiste a caminhada das duas figuras até perdê-los de vista. A entrada do homem moreno não perturbou a fala da loira, e pouca atenção teve do velho,  por outro lado José olhava fixamente para a sacola plástica depositada na lixeira. Quem entraria em um bar só para jogar aquilo ali, e sem falar com ninguém?
       De certo era só alguma garrafa plástica... Não, parecia algo disforme. Talvez uma latinha amassada, mas não havia feito som metálico quando fora ali depositado. Seria comida?
       Quando deu por si José estava arcado por sobre a lixeirinha, um estranho corcunda que voltava a ficar ereto num movimento abrupto e bebericava a cerveja com a face ruborizada, sem olhar para as outras pessoas no botequim enquanto murmurava:
       - Oiá pro cê vê... Que que eu tô fazendo?!
       Terminou sua cerveja, pediu outra. A loira saiu, um boiadeiro chegou com uns amigos, contando o causo do sujeito que caçou uma onça usando um prego como bala, todos riam e bebiam. Menos José, este olhava fixamente para o copo, depois para a sacola na lixeira, tornava a olhar o copo, então bebia.
       As primeiras gotas de chuva começaram a cair, um vento frio entrou pelas portas do boteco e o lembraram do arrepio estranho provocado pelo olhar do estranho. Pagou a conta em um acesso de pressa justificado pela tempestade ajeitou e tornou a ajeitar suas coisas no embornal até que numa tentativa frustrada de ser discreto passou a mão na sacola de lixo e saiu em carreira rua a fora. Direto pra casa, entrou, sentou no sofá e desfez lentamente o laço que fechava o saco.
       Dentro, alguns cogumelos, que deveriam ser brancos, mas já estavam levemente enegrecidos pelo tempo. Por qual motivo alguém carregaria uma sacola de cogumelos ali? Certamente se confundiram, acharam que era algo útil. Já tinha ouvido falar de pessoas que comiam essas coisas, mas sempre soube que era um veneno.
       Ou será que não? Teria o jovem de pele morena e expressão dura dado a ele a chance de ver algo novo, sentir uma experiência nova? Um tio-avô, muito tempo atrás lhe contara algo sobre um amigo que comera um desses, e que disse ter visto coisas maravilhosas.
       Lorotas.
       Saiu de casa para pendurar a sacola junto com o restante do lixo, abriu a porta e sentiu o vento borrifando gotas de chuva no seu rosto, sentou-se no degrau que separava a calçada do portal olhando para o conteúdo de suas mãos e deixando o ar úmido tocar seu rosto.
        Qual criança olhou para o céu contemplando a chuva que cessava, dando espaço para as primeiras estrelas. Lembrou que não sabia o nome de todas, uma ou outra só, que o avô lhe ensinara, as três marias, o cruzeiro... Deus, havia tantas! Alguém saberia o nome de todas? Ele poderia dar o nome a alguma? Elas sempre estavam lá, mas se mudassem, veríamos a diferença?
       Fechou os olhos e se lembrou de quando ainda moço ajudava o pai e os irmãos na roça de feijão, dos banhos de ribeirão e das noites caçando pacas. Das inúmeras cavalgadas, das diversas enchentes, de um ou outro amor não correspondido, do cheiro doce das flores no enterro da mãe, e a água em seu rosto não se sabia se era da chuva ou alguma lágrima ladina que saltara de seus olhos.
       Notou então José que o tempo não havia parado, levantou-se e jogou fora a sacola. Caminhou pela rua, era tempo de ver um novo dia nascer.
   

     

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sussuros do passado - Parte I: Legado


O rangido da porta quebra o silêncio noturno do quarto, voz pueril sonolenta suplica baixinho enquanto caminha em direção a grande cama vitoriana.

- Mãe... Eu posso dormir com você essa noite?

Semidesperta Martha coça os olhos enquanto acende um abajur de porcelana à sua esquerda. A luz revela um garotinho de pijama já quase na beirada da cama.

- Querido, já falei que você está grandinho para querer ficar dormindo com a gente e amanhã é o seu grande dia.

- Mas o papai está no hospital trabalhando... Pensei que você estivesse com medo do escuro e vim fazer companhia.

Ele diz isso já levantado o lençol e rapidamente abraçando sua mãe, deixando-a sem a menor possibilidade de mandá-lo voltar para a cama.

- Você sabe que já sou grande e não tenho mais medo de escuro querido. Me diga a verdade, porque você veio aqui?

- É... bem... Você sabe como é o meu quarto... O chão faz aqueles barulhos estranhos e o vento sempre fica sussurrando alguma coisa que não entendo quando a janela está entreaberta...

Seus bracinhos apertam mais forte e ele deixa apenas os olhos fora da coberta.

- Querido, deixa eu te contar uma história. Há muito tempo atrás, quase no ano de 1800, seu tatataravô, Jonathan, era um jovem marceneiro que resolveu tentar a sorte na recém criada Gotham City. Naquela época ela ainda não passava de um apunhado de casas e seu principal atrativo era o grande porto. Acho que os moradores daquele tempo se assustariam com o que ela se tornou hoje...

Subitamente a voz do pequeno cortou a história.

- O que isso tem haver com os barulhos no meu quarto?

- Já vou chegar lá. Preste atenção na história e você vai descobrir.

O chão de terra batida da avenida principal era guarnecido pelos dois lados com comércio de pouco mais de uma dúzia de colonos que vieram de cantos longínquos do país e alguns até mesmo do velho continente, buscando melhorar a vida naquela que prometia ser a melhor cidade do país.

Mesmo tendo um futuro promissor por ser o caminho das principais rotas comerciais da região e possuir o porto mais desenvolvido, a cidade estava nas mãos da família Cobblepot, que sempre tentava conseguir um dinheiro dos comerciantes e cobrava pesados tributos sobre aqueles que não eram bem quistos por eles.

Alguns diziam ainda que sua fortuna vinha de acordos secretos com os ingleses na época da guerra e com o governo quando a guerra acabou.

Jonathan abriu uma marcenaria que rapidamente se expandiu para uma pequena fabrica de construir navios que prosperava junto com a cidade. Ao cair da noite, quando ia encerrando o dia de trabalho na fábrica viu Rodolfo Cobblepot, um troncudo e narigudo sujeito que tinha fama de ser a cabeça que comandava os serviços sujos da cidade, mandando capangas bater em um trabalhador que devia dinheiro para ele.

Seu tatataravô pensou em ir embora, mas sabia que aquele pobre sujeito tinha uma esposa doente e mesmo sendo um cara honesto e trabalhador, nunca iria conseguir pagar os abusivos juros que se empilhavam na cruel matemática dos Cobblepot.

Em uma tentativa de acalmar os ânimos, Jonathan falou com Rodolfo para deixar o jovem ir embora e que se fosse possível, ajudaria o rapaz a pagar a dívida. Mas o Cobblepot estava irredutível. Para deixá-los como exemplo, mandou seus capangas darem uma surra no seu tatataravô também.

- Ele bateu no vô Jonathan?

- Calma querido, você vai ver que os Wayne são mais duros na queda do que você imagina.

Para surpresa do narigudo, Jonathan conseguiu nocautear os capangas e deixou um belo olho roxo na cara amassada do Rodolfo.

- Uhull! Ele fez um iá! Depois um tchá! E por último um roiá!- Disse o garoto enquanto encenava a luta já em pé na cama.

Depois desse episódio, Jonathan, se tornou popular entre as pessoas de bem de Gotham e frustrando os planos dos Cobblepot, foi eleito xerife, sendo o primeiro homem honesto a ocupar o posto desde que a cidade foi criada.

Após anos servindo a população da cidade, dezenas de cidadãos, como forma de agradecimento pelos serviços prestados, doaram uma pequena parte dos seus terrenos para o Jonathan e fizeram um mutirão para construir essa casa que vivemos hoje.

Dizem que cada pedra, cada madeira, cada prego dessa mansão tem junto deles um agradecimento do povo de Gotham e por isso essa casa sempre falará baixinho "obrigado" para os Wayne.

- É verdade mesmo, mãe?

- Claro que é! Não precisa ter medo dos barulhos dessa casa, eles são só os agradecimentos que os antigos fizeram para o legado da nossa família.

- Hum... tá bom, mas posso dormir com você só mais essa noite?

- Claro que pode - Disse Martha com um sorriso doce - Afinal de contas já é mais de meia noite e hoje é o seu aniversário Bruce.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O passageiro esmeralda



É só respirar fundo, não tem mistério. 

Inspirar. 

Expirar.

Você precisa respirar e logo mais isso já vai passar, é só um funcionamento anômalo do locus ceruleus, todos esses anos lidando com isso serviram para alguma coisa. Isso que está sentindo não é real. 

A sala não está se comprimindo na sua direção.

Inspirar. Expirar.

"Joga essa porra de teclado pela janela e sai correndo antes que essa parede te mate"

Não. 

Estou no laboratório da Universidade de Greenstone, está um dia lindo lá fora e ao meu redor estão os equipamentos mais avançados do país, tenho que orgulho do lugar onde estou, essa crise já está sobre meu total controle, é só respirar.

Viu só? Já estou tranquilo novamente e posso retornar para essa equação.

- trinn trinnn -

- Alô?
- Dr. Robert?
- Nossa, faz muito tempo que não me chamam dessa forma... Pra falar a verdade, faz muito tempo que ninguém fala comigo...
- Não me interessa a forma como você anda sendo chamado. Quero saber sobre a pesquisa, estamos gastando muito dinheiro como o senhor e até agora nenhum dos soros que produziu deu resultado.
- Estou trabalhando na pesquisa... estou desenvolvendo um novo método... se conseguir adaptar as novas descobertas na área de radiação G ao meu novo projeto hadrônico ultra leve kernoniano, vamos avançar significativamente nos estudos... só preciso que me dê um pouco mais de tempo e conseg...
- Esse blábláblá de nerd já está me irritando!

"Esmague esse celular na mesa, não deixe ele falar assim com você"

- Desculpe general Ross... Vou fazer o meu melh...

Ele desligou na minha cara, não que isso seja uma novidade, mas essa pressão toda só faz deixar ainda mais difícil controlar essas crises de pânico.

Inspirar.

Expirar.

Ioga, homeopatia, Valium, nada disso tem adiantado, no entanto, é só eu conseguir terminar esse trabalho e a pressão irá sumir, vou poder tirar umas longas férias em alguma praia paradisíaca do Caribe e relaxar.

Quanto tempo falta? 

"Tempo pra caralho"

Calma não é bem assim, é só desenvolver um composto estável, depois fazer os testes no centro de pesquisas atômicas avançadas do grupo Stark, depois testar em ratos, depois em macacos, depois esperar aprovação do Congresso, depois procurar voluntários, depois fazer novos testes de efeitos colaterais, depois esperar a quarentena, depois pronto.

"É tempo pra caralho"

Tenho certeza que esses pensamentos vão passar e parar de me atrapalhar quando terminar essas tarefas, mas agora sinto como se tivesse mais alguém dentro da minha mente, um passageiro que tenta jogar tudo para o espaço, alguém que não se importa em abandonar a razão para afastar as coisas que o irritam de perto dele, só que eu não sou assim, sou mais forte que esses pensamentos ruins. 

Basta me concentrar na pesquisa e em uns dois ou três anos vou ter terminado tudo, somando esse tempo com os anos que já estou aqui posso dizer, no final disso tudo, que será uma década bem gasta.

Valerá a pena, é por uma nobre causa, vou reproduzir o soro que criou o Capitão América! As possibilidade de aplicação dele são infinitas! Curar doenças degenerativas e motoras, além de poder ser uma esperança de regeneração dos tecidos para pacientes que sofreram ferimentos graves ou queimaduras... Ah! são tantas as alternativas que nem posso imaginar! Aposto que com essa novo método que desenvolvi, combinado com a radiação Gama vou realiz...

- trinn trinn trinn -

- Alô?
- Banner, o seu tempo acabou. Acabei de fazer uma ligação para Casa Branca e finalmente o seu projeto está encerrado. Pegue suas tralhas e saia daí até o fim do dia ou eu mesmo vou chutar a sua bunda desse laboratório.
- Mas general Ross, eu estou tão pert...

Ele desligou na minha cara de novo.

Dane-se, não investi todos estes anos para ser escorraçado dessa forma! Vou mostrar ao mundo que posso trazer um caminho novo com a minha pesquisa, aquele ranzinza do general Ross vai ter que se desculpar! 

- Computador. Iniciar protocolo H.U.L.K.!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Velho Detetive




 - Eu sei Bárbara, pode ficar tranquila... eu sei, eu sei... passo amanhã em casa para pegar umas roupas limpas... uhum... Não, por favor, entenda,... mas o Prefeito... Não!" [CRANK! tu tu tu tu] 

Peço desculpas ao gancho fortemente comprimido junto à base do telefone do outro lado da linha. Bárbara é a única pessoa que conheço capaz de suportar este tipo de situação, mas ela não admite que as crianças sofram devido à minha profissão. Eu também sinto saudades. Comissário... e mais pareço um prisioneiro. Há quatro dias não consigo deixar este lugar... nem dormir direito. Aposto meu bigode que o Batman dorme durante o dia!

O saguão da delegacia está tão cheio de ricaços que mais parece um evento beneficente. Com a diferença que os aqui presentes não vieram doar seu dinheiro, mas reclamá-lo. 
 - Stevenson! Coloque esse pessoal em fila e organize as denúncias. Coloque as ocorrências na minha mesa quando acabar. Sanchez, se perguntarem, diga que já volto. Eu  PRECISO de um pouco de ar.

Saio sorrateiramente para o terraço. Nem preciso ligar o sinal, pois o Cavaleiro já me espera.
 - Sua esposa também trabalha à noite? - pergunto desleixadamente.
 - Minhas atividades não permitem esse tipo de luxo, Gordon. É bom ver que consegue manter seu bom humor intacto. - responde a voz sombria, como se a própria noite falasse comigo.
 - Pelo menos ainda me resta algo de bom. Alguma novidade?
 - Nada concreto, mas acredito que Selina não esteja sozinha.
 - Concordo. Ela é uma ladra... essa exibição toda não combina com ela. Mas quem?
 - Não sei dizer. Robin está... - Eu paro de ouvir o que ele diz quando a imagem de uma pequena coluna de um tablóide me vem à mente: "Médica doidona vai por os malucos na rua - Nova contratada do Arkham afirma que Coringa pode ser curado." - ... e eu vou para residência do Prefeito agora.
Ele parte antes que eu possa dizer alguma coisa. Desço correndo as escadas e vejo que a confusão no saguão não foi resolvida. Atravesso com dificuldades a multidão de magnatas e pulo dentro da primeira viatura que avisto. Penso em como seria bom poder saltar pelos telhados como meu colega de preto, mas penso na reação de Bárbara se soubesse que me arrisco também desta forma, o que afasta o sentimento de frustração.
Dirijo perigosamente pela estrava curvilínea que liga os subúrbios de Gotham ao Asilo Arkham. Aquele Palhaço maldito deve estar com algum tipo de armação. Que irresponsabilidade do Dr. Sharp em deixar o Coringa nas mãos de alguém novo! Não... talvez não seja irresponsabilidade. Desligo a sirene... decido que Sharp não deve saber que estou chegando. Será que esta doutora nova também está envolvida? Não... uma entrevista ao jornal é bandeira demais pra quem está tramando algo. E Selina... onde ela se encaixa? Chego ao sanatório antes de chegar às conclusões, mas certo de que o diretor está envolvido.
Sinto algo de errado no ar no momento em que desligo o motor do carro. Toco o cabo do revólver num movimento involuntário que ajuda aliviar minha tensão. Não sei como o Batman se vira sem uma destas. Avanço cautelosamente através do portão destrancado e dos jardins até a porta do hall do manicômio. Até aqui tudo limpo. A porta está trancada. Bom! A esperança de estar errado começa a tomar conta de meus pensamentos, mas percebo que na parede à minha direita há uma janela aberta. Curioso... não tinha reparado isso. Chego até ela de mansinho e avisto Donnavan Sharp debruçado em sua mesa, a garrafa de uísque aberta. Entro pela janela e me aproximo da mesa. O arrepio já domina cada ínfimo pelo do meu corpo. A cena é perturbadora: em sua mão direita Sharp segura um diamante de origami idêntico ao surrupiado da mansão do prefeito; a mão esquerda aperta, num espasmo grotesco, diversas notas de cem dólares com um Benjamin Franklin maquiado de palhaço, enquanto seu rosto guarda uma expressão que dali jamais sairá... um sorriso demoníaco de prazer e dor... os olhos vidrados. Noto o copo de vidro grosso quebrado no chão... o carpete corroído, e de repente, o som do motor da viatura, e a gargalhada macabra que entra pela janela. 

 - Que Deus nos acuda...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Cela

Asilo Arkham para criminosos insanos - Cela 0801

 Quatorze dias atrás - 19:00h = A porta da cela acolchoada se abre lentamente, por ela entra a jovem Dr.ª Harleen Quinzel para visitar seu mais intrigante paciente. Ele está, como de costume, acomodado no acento, preso em uma camisa de força, olhando para frente e sorrindo. Mas não qualquer sorriso, um sorriso esgarçado, contínuo, que muitos consideram apavorante... Mas ela sabe que ele é apenas mais um incompreendido, na verdade ela consegue enxergar uma melhora substancial no quadro do paciente.

- Olá. Boa noite.
Ainda fixando a parede ele respondeu
- Boa noite doutora Quinzel. A que devo a visita?
- Me chame de Harleen, por favor. Gosto de ser tratada pelo meu nome, assim como gostaria de poder tratá-lo pelo seu.
Direcionando seus olhos atentamente para a jovem
- Você sabe meu nome.
- Err.. Bem, quero dizer, seu nome real.

Ao ouvir tal afirmação o paciente gargalha, de forma alta, estridente e contínua. Isso desagrada a jovem psiquiatra, haviam passado duas visitas sem esses rompantes e agora uma escolha errada de abordagem e pronto. Ela sentia que estava tão perto de alcançar melhoras, de processar uma cura no maior psicopata de Gotham.
Após o riso ele voltou a olhar atentamente para a parede acolchoada, como se novamente estivesse sozinho. Por cinco minutos a médica falou, buscou reaver a atenção do paciente. Por fim desistiu, ao se levantar para ir embora estancou ao ouvi-lo comentar:

- Há canteiros nos jardins do asilo... eles me lembram canteiros que vi há muito tempo.

Sentando-se novamente ela pede para que ele lhe diga mais, ao que o paciente responde negativamente. Não pode falar de algo que não conhece. Somente durante sua entrada no Arkham ele viu de relance o dito jardim.
Eis a chave, aí está a questão. Os olhos de Harleen se iluminam ao fitar um sorriso já nada aterrador. Ela trabalharia com o Coringa fora da cela!


 Treze dias atrás - 12:00h = A portinhola na porta da solitária 0801 se abre, vê-se a silhueta de Donnavan Sharp, atual diretor geral do Asilo Arkham.

- Olá Donnavan, esperava por você. Não quer entrar? Fique à vontade, afinal, a casa é sua. Hahahahaha, hehehe...
- Muito bem seu maníaco, por algum motivo a Drª Quinzel passou toda a manhã me propondo uma nova experiência de tratamento com você. Não gosto da ideia de fazer experiências com você... E se algo der errado? Vai acabar machucando alguém. Ela insistiu para que eu viesse ver sua melhora, ver como você anseia por ser curado... Para mim você continua o mesmo verme psicótico!

O criminoso ouvia atentamente, cada palavra, cada entonação do afamado diretor, membro da mais alta elite de Gotham, e por entre as sensatas e hipócritas palavras do administrador ele sabia que havia mais coisas.

-Nã-nã-não... Olhe os modos Diretor. Cada um de nós tem suas prioridades, apenas peço que me ajude, e quem sabe, eu possa te ajudar.

Disse o criminoso balançando a cabeça divertidamente.
Se afastando da porta Donnavan se sentiu nauseado por um instante, do que aquela aberração estava falando?

- Me ajudar? Com o que?
-Com coisas que um homem como você deseja, mas só um homem como eu pode fazer. Hahahahahahaha


Oito dias atrás - 20:00h = Um homem alto e forte se esgueira até a entrada da cela. Do lado de dentro o criminoso, já sem suas amarras, está deitado tranquilo, até que ouve uma leve batida na porta.

- Olá, cê tá acordado? Murmurou o homem.
-Sssiiiimmm.... murmurou com escárinio uma voz do interior da cela.
- O meu "contratante" disse que você tinha instruções para um serviço.

O homem olhava para todos os lados e suava frio, já não tinha certeza se era uma boa ideia estar ali.

- Você trouxe papel e lápis? Passe pela portinhola da comida aqui em baixo.Pedi ao seu "contratante", hehehehe, que me conseguisse alguém capaz de invadir uma residência. pois bem, quero que deixe o material que eu vou te indicar no telhado de uma casa, alguém irá deixar uma carga lá dentro, você irá trazer essa carga para o "contratante", o diretor. Certo?
- Bem.. acho que sim.
- Você parece nervoso... Minha voz te incomoda? Hahahahahaha

A gargalhada fez com que o homem olhasse em todas as direções, não queria ser notado ali, mas não tinha coragem de reprender o Coringa.

- É estou um pouco desconfortável, mas o diretor me garantiu que você anseia pela sua liberdade, por isso ia ajudar, então tá tudo certo.

O psicopata parecia não prestar atenção ao que o meliante dizia. - Ahan... aqui estão as instruções e o endereço da casa. Este outro papel contém um recado que você deve deixar neste outro endereço que está aí. Por fim quero saber se você consegue uma quantidade relativamente pequena deste ácido.

- Acho que sim.
- Ótimo.

E nesse momento ecoou pelo Arkham uma risada que fez o homem desejar estar em outro lugar, com todas as suas forças.

Cinco dias atrás - 23:00h = Um som leve de metal sendo arranhado acorda o criminoso.
- Olá Gatinha, que bom que aceitou meu convite...
- Como sabe meu endereço? O que você está tramando? 

 Os grandes olhos castanhos por trás da máscara denotavam uma severa preocupação. Não era nada agradável saber que seu paradeiro era do conhecimento do Coringa. Afinal, mesmo com ele preso naquele cubículo chegou na sua correspondência um papel com os dizeres "Olá Gatinha, preciso que me faça uma visitinha. Coringa". Ela precisava ter certeza de que ao menos ele continuava preso.

- Detalhes que não vem ao caso. Quero apenas que realize algo que será igualmente lucrativo para mim e para você.
- E o que seria?
- Gostaria que apanhasse um pequeno suvenir da mansão do prefeito. O Brilho de Gotham. O que me diz?
- O diamante 111 quilates? Eu adoraria, risonho, mas se fosse tão simples eu já o teria pego. Nada feito, estou com outras prioridades agora...
- Podemos unir o diamante a essas "Prioridades" que você fala.

A jovem se aproxima da pequena portinhola para fitar de mais perto a fileira de dentes que aparece sobre a fraca luz vinda do corredor.

- Como assim?
- Bem, somos seres de gostos diferentes. Eu gosto de coisas que escorrem, sangue, entranhas, viscos dos mais diversos. Você gosta de coisas que brilham, diamantes, rubis, ouro... Eu me pergunto, o que tem brilhado mais que ouro para você Gatinha? Seria essa sua prioridade? Seria ELE a sua prioridade?
- Não sei do que você esta´ falando.

Rindo e batendo a cabeça no estofamento das paredes ele retruca:
- Sua vadia, não se faça.. haha.. de idiota. Vamos lá, você atinge o orgulho dessa cidade pra mim, e é claro que o morcego vai te perseguir. E vai te encontrar. Haha-hahaha-hahahahahahah. Ahh... hehe... No telhado, acima da janela do gabinete do prefeito há um compartimento, um mecanismo camuflado, no qual você poderá guardar o diamante e buscar depois que for presa...
- Eu não quero ser presa!

O Coringa balança a cabeça em um ar de desaprovação. Todo mundo insiste em ter vontades por aqui.

- Bem, ELE vai estar lá, e se te prender com o diamante pronto, mas, se ele te prender sem o diamante... Criamos um espaço para futuros diálogos, não?
- Pelo visto você está avido por vingança, só isso.
- Não é o suficiente? Você está ávida pelo quê? Hehehehe. Venha cá, deixe eu te passar os detalhes da minha ideia... Hahaha...Primeiramente gostaria de dar-lhe as boas vindas ao Arkham, NOSSO lar.
- Seu lar Coringa,  não tenho nada a ver com isso aqui.
- Ora, ora minha cara, todos temos a ver com este lugar. Ele aceita a todos de bom grado, sem preconceitos. Quando não são mais capazes de sustentar suas máscaras cotidianas, é pra cá que todos vem. Trocar uma vida inteira de agonia, por uma cama e injeções duas vezes ao dia. Hahahahahaah-hihihih



Hoje - 8:00h = Donnavan Sharp se recosta em frente a cela. Sua voz está tensa, mas satisfeita.
- Você conseguiu... o diamante foi roubado ontem à noite, o seguro de roubo já foi acionado e eu, como membro da elite de Gotham vou receber parte do que contribui para segurar nosso "tão valioso patrimônio". A Mulher-Gato foi presa e antes de retornar à cena do crime Lúcio já havia resgatado o conteúdo do mecanismo e trocado pela pedra falsa. Ele acabou de me entregar o Brilho de Gotham. Infelizmente, não posso oferecer sua tão almejada liberdade... Mas irei estudar as propostas da Drª Quinzel, ela é uma psiquiatra muito competente.
- É, eu sei... tenho notado Diretor Sharp, ela é muito proeminente aqui no Asilo. Estive pensando quais postos ela pode alcançar se não tiver nenhum... empecilho. Hehehehe-hahahaha-hihi-hahahaha

 O Diretor Donnavan Sharp assiste o criminoso se contorcer em uma gargalhada cheia de espasmos caindo na cela. Ainda ouvindo o riso segue para seu gabinete. Chegando lá se dá conta que Lúcio foi embora, melhor, quanto menos contato tiver com esse mercenário menos chances de algo dar errado. A gargalhada ainda ecoa pelos corredores do Arkham. Mas não importa, ele tem o diamante... o dinheiro do seguro... e nenhum envolvimento direto com a situação. Ninguém pode atingi-lo. Ele pega sua garrafa de uísque e enche um copo generoso. Precisa se acalmar, ainda está ouvindo a maldita risada do lunático!
Vira de um trago o conteúdo do copo, que desce por sua garganta de uma forma ácida, rasgante e dolorosa... Ele ainda ouve risos...








Noturna


Uma noite regular em Gotham, tão sombria quanto comum. Na penumbra do hall da casa do prefeito da cidade, uma felina se encontra a olhar charmosamente o cômodo do canto superior, no alto de um móvel velho e empoeirado.

“Hum, essa posição, essa iluminação me faz sentir como um... morcego!” – Selina Kyle se diverte em seus pensamentos.

Havia passado a primeira horda de seguranças da residência oficial da cidade com facilidade. Adentrar a mansão não foi tarefa das mais exigentes. Agora se encontra a caminhar suavemente sobre o tapete que leva ao home office do chefe político da cidade.

Dois seguranças armados, um a caminhar lentamente à sua frente, de costas e o outro que não consegue notar sua presença, uma vez que sutilmente abaixou-se e usou o corpo do primeiro para esconder-se, ardilosa como o mais terrível dos bichanos.

Com a adrenalina passando por sua corrente sanguínea e fundindo-se com seu collant preto, por entre a máscara seus olhos avaliam rapidamente suas possibilidades e, em fração de segundos, põe sua mão direita nas boleadoras presas em seu cinto.

Ao mesmo tempo em que lança com precisão seu par de boleadoras no pescoço do guarda que se encontra mais próximo à sua frente, pega seu velho e sempre efetivo chicote, já acertando certeiramente a testa do segundo guarda que só teve tempo de arregalar os olhos. Este cai desacordado e o primeiro atingido, no chão e sentindo as delicadas, porém cruéis mãos da Mulher-Gato a tampar sua boca, agora sente a respiração ao pé do ouvido:

- Quero que me aponte com os olhos onde está o cofre, se pensar em gritar ou me atacar, rasgo seu peito aqui e agora – praticamente sibila a Gata, mostrando em sua mão esquerda as afiadas unhas de metal prontas para entrar em ação.

Com o suor frio escorrendo por suas têmporas, o guarda olha para baixo, diretamente para um compartimento inferior da estante de livros do prefeito.

- Muito bem, bonitão – Selina guarda suas garras, passa a mão delicadamente sobre a testa de sua presa e com um forte murro, põe o guarda para um cochilo noturno instantâneo.

Dirige-se ao lugar indicado, passa os dedos pelos livros e ao ver um pequeno bloco verde, que ela percebe não ser um livro e que seu lugar em meio aos Vade Mecums do prefeito não faz sentido algum, ficou fácil para a princesa do crime de Gotham. Desloca o bloco para frente, ouve um ‘click’ e vê a portinhola da estante se abrindo à sua direita.

O cofre, daqueles antigos, não oferece o menor desafio para a srta. Kyle que em uma série de movimentos rápidos e precisos o abre sem maiores dificuldades.

Mais de 100 quilates brilham à sua frente, com aquela lapidação clássica e perfeita, o diamante praticamente traduz-se em Poder da Elite de Gotham.
- E os malditos medrosos são tão ingênuos ao achar que a residência imperial seria o lugar certo pra guardar essa belezinha... hãn hãn – pensa alto consigo, balançando levemente a cabeça.

Pega a pedra e ao deslocar-se à janela mais próxima, um guarda chega correndo à porta:

- Parada! A Mulher-Gato está aqui! – grita o assustado homem, já empunhando sua Sub-Macine Gun.

Em um pulo, a Felina vai à janela e com seu chicote já em mãos, prepara-se para a rápida fuga, ouvindo os primeiros tiros sendo desferidos da veloz arma do sujeito.

Por centímetros não teve seu tornozelo atingido ao sair, e seu chicote, agora levando-a pra cima, faz com que em segundos esteja no telhado da mansão, agachando-se para engatinhar como manda o figurino.

Três, quatro ‘passos’ e olhando para baixo, aquela sombra com aquelas orelhas quase felinas enche seu peito, fazendo o coração pulsar como ainda não havia pulsado aquela noite.

- Eu acho que vi um gatinho... – Dispara a Gata, achando-se totalmente sagaz ao citar o desenho que passava distraidamente na TV de sua sala pela manhã.

- Dessa vez não, Selina. – Com a bat-garra empunhada, o Cavaleiro das Trevas atira em suas mãos e pés, que com um movimento rápido esquivam-se para a direita.

Colocando-se de pé e em posição de combate, com uma charmosa expressão de satisfação, a Felina, com aqueles grandes olhos castanhos focam o olhar atento do Batman:

- Estive esperando por você, Morcegão. Há quanto tempo esteve aí? – indaga a antiga bailarina.
- Tempo suficiente, sabendo que você viria atrás do Brilho de Gotham. – responde o Homem-Morcego.
- Então presumo que também esteve esperando pelo que está por vir, certo? – pergunta curiosa.
- Na verdade, este embate já acabou. – Retruca Bruce e, nesse momento, seu fiel escudeiro surge das sombras e segura os braços da tentadora vilã. – Você está presa Selina, sem mais perguntas, agora você só deve resposta às autoridades.
- Por essa eu não esperava, bonitão. Mas nós dois sabemos que muito em breve nos veremos novamente – diz calmamente Selina, com uma piscada, já sendo algemada por Robin.

E Bruce, com seu olhar misterioso, fita a algoz. Como se não quisesse estar fazendo aquilo, apenas cumprindo uma espécie de dever...

- A pedra não está com ela – diz o garoto prodígio, após revistá-la.

E com a chegada da polícia, um Batman parecendo confuso, em algum tipo de conflito interno, apenas conclui:
- Bom, essa questão já não concerne ao meu departamento. Vamos.

E pelo vidro da viatura policial, Selina vê as duas sombras adentrando a escuridão, e suspira...

“É, acho que agora sim topei com um verdadeiro desafio.” – pensa a anti-heróina.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O item mais valioso de Gotham



- Invasão de propriedade, furto qualificado, roubo, formação de quadrilha, receptação, falsidade ideológica, lesão corporal grave, homici...
- Sinto muito Comissário, mas não tem nenhum homicídio nessa lista.
- Não é o que a Interpol diz senhorita Kyle.

A voz de Gordon ressoa alta e firme pela pequena sala esverdeada, enquanto observa profundamente os olhos castanhos da moça que permanece com ares de princesa.

- Você não deveria acreditar em tudo que lê nesses relatórios...
- Esses relatórios poderiam ser lidos durante a noite toda e nós não esgotaríamos a sua lista de crimes Selina. Ambos sabemos quais crimes você cometeu ou não. Por que você não facilita o seu lado e me diz logo onde você escondeu o Brilho de Gotham?
- O brilho de Gotham? Não me lembro de ter feito nada sobre isso. A cidade já estava era cinzenta quando cheguei.

Ela falava isso enquanto mirava com olhar travesso o espelho que ocupava meia parede logo em frente a mesa e a cadeira a qual estava algemada.

- Você não está em posição de fazer piadinhas. Estou falando de um diamante de 111 quilates que foi roubado da moradia oficial do Prefeito durante a noite passada.
- Aquela pedrinha brilhante? Deixe-me pensar... Ela deve estar junto com as outras pedrinhas brilhantes, no meu apartamento no Eastside.
- Já reviramos aquele lugar de cabeça para baixo e não encontramos nada lá! Não brinque conosco Selina! O Prefeito está furioso e o Harvey vai encontrar um jeito de te deixar fora das ruas para sempre.

Ao terminar a frase, o Comissário, jogou uma pasta contendo várias fotos de pedras precisas sobre a mesa à frente da detenta.

- Todos esses roubos foram feitos em um espaço de tempo que só você conseguiria fazer. O quê você planeja Selina? Você já roubou as coisas mais valiosas de Gotham, onde você pretende chegar?
- Cuidado Comissário, você não tem mais idade para poder ficar se exaltando desse jeito. A cidade ainda tem muitas coisas valiosas em seus cofres... E pode ter certeza que nunca mais vai ouvir meu nome quando eu conseguir o item mais valioso de Gotham.

O velho policial estava visivelmente cansado, fazia três noites que não dormia por causa das ocorrências na delegacia. Apesar de não concordar com essa política, Gordon sabe que Departamento de Polícia sempre da uma atenção especial quando algum crime acontece na casa dos ricos da cidade, acontece que nas últimas noites essa atenção foi elevada ao seu nível máximo, pois oito de cada dez ricaços de Gotham haviam tido as suas casas roubadas. Até mesmo o Prefeito teve um dos símbolos da cidade roubado de dentro de sua própria casa, o Brilho de Gotham.

Após limpar com as costas da mão o suor da testa, ele voltou a interrogar Selina Kyle.

- Eu sei que você não irá parar por aqui. Desista do seu plano e assuma a autoria desses roubos Selina, assim, talvez, você possa ver o sol nascer de fora de Blackgate algum dia.
- Pobre Gordon, acha mesmo que vai me manter aqui por muito tempo?
- Conseguirei te manter aqui por tempo suficiente para impedir que você consiga fazer qualquer outro roubo.

Ela olhou com olhar de descrença para o Comissário. 

- Eu gosto de você policial, por isso vou te dar uma dica do próximo item que irá para minha coleção. Você sabe que sou um mulher de gostos raros.
- E qual é o seu próximo grande passo? - Agora era Gordon que estava com o sorriso no rosto.
- Chegue mais perto e conto no seu ouvido.

Antes de se aproximar o tira conferiu se ela estava mesmo presa e após checar duas vezes aproximou-se da senhorita Kyle com o máximo cuidado.

Sua expressão mudou repentinamente após ouvir as poucas palavras ditas pela jovem, era como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir.

Uma campainha toca e ele sai ainda meio atordoado da sala.

Na sala ao lado, por trás do espelho, está o promotor Havey Dent e o Prefeito, que está nervosamente caminhando de um lado para o outro.

- O que o meus eleitores vão pensar... vamos Gordon, me diga que ela deu alguma pista de onde vai atacar ou onde estão os itens roubados!
- Ela fez apenas mais uma piadinha senhor Prefeito.
- Não é possível! Olhe para ela, quem diria que ela é a maior ladra de Gotham? Como pode essa bailarina magricela me dar tanta dor de cabeça.

Todos os presentes se voltaram para observá-la através do espelho enquanto ela, do outro lado, parecia conseguir entender e se divertir com toda a situação.

- Vamos para o meu escritório - sugeriu Dent - já redobramos a segurança na delegacia e ela não irá a lugar algum daqui.

Mesmo consternado, o Prefeito consentiu e os três foram caminhando a passos receosos pelo corredor que levava até o escritório do promotor.

- Tem certeza que não existe meio dela fugir?

O voz do Prefeito não conseguiu esconder o medo.

- Não, como Harvey havia dito, redobramos a segurança aqui e ela ainda está algema... Maldita! Soem o alarme! Ninguém entra e ninguém sai sem a minha autorização.
- O que aconteceu?
- De algum jeito ela conseguiu pegar a chave do meu bolso!

Contra qualquer protocolo de segurança, o Prefeito correu em direção a sala de interrogatório, na esperança de ainda encontrar a gatuna por lá, mas antes mesmo de chegar, em seu coração ele já sabia a triste verdade.

- Ela não está aqui! - Gritou da porta da sala.

Gordon e Harvey se entreolharam sabendo que essa noite ainda estava longe de acabar, mas antes de irem em direção ao local da fuga, o promotor segurou o braço do colega.

- Comissário, ainda estou com curiosidade, o que ela lhe falou? Qual é o item mais valioso de Gotham?
- Você não vai acreditar, Harvey... Ela quer roubar o coração do morcego.