quarta-feira, 30 de junho de 2010

Canções e Silêncio – Parte II – O Poeta e o Balseiro


A caminhada se inicia.

Por quarenta dias e quarenta noites ando pelo caminho que o Senhor das Viagens me mostrou, passo por campos floridos onde as flores não mais morrem como anteriormente, mas apenas se protegem da tristeza da minha viagem. Encontro campos verdejantes nos quais Zephiro costuma passear, mas sua presença não pode ser percebida. Não o culpo.

Um bosque denso se ergue entre mim e meu destino. Medo é um sentimento que meu coração está ocupado demais para sentir. Pisar nas folhas mortas faz um ruído tenebroso neste lugar, parece que tudo ao meu redor me rejeita.

Neve começa a cair. O vento frio ao passar por mim se torna ainda mais frio e a paisagem que anteriormente tinha carvalhos e figueiras, agora tem pedregulhos e um tipo de areia cinza. Tenho certeza que estou chegando ao encontro de meu atravessador.

Um pequeno caminho leva até a entrada da caverna que leva às margens do Rio Estige.

Não demoro muito até encontrar o tão famoso rio, possuidor de mistérios insondáveis e seu balseiro, que compartilha da mesma fama.

Caronte é um homem magro, com as marcas do tempo escritas em seu rosto e corpo coberto por farrapos. Está agarrado ao remo que utiliza para guiar a balsa, esperando por almas recém chegadas ao pós-vida. Pelo menos foi esta a forma que escolheu se mostrar para este pobre poeta.

“Quem vem lá?”

Branda Caronte com uma voz sombria que lembra um coro de aflitos.

“Sou Orpheu, filho de Morpheu, poeta e sofredor, preciso que me leve até o Hades ó atravessador do Rio dos Mortos.”

“Por uma moeda levo-te até as sombras mais profundas do Hades, filho de Morpheu”

Aproximo-me dele e retiro uma moeda de minha bolsa e lhe entrego.

Ele não esboça reação alguma a minha presença, não sente dor ou frio. Nada.

“Essa moeda não serve.”

“Como não?”

“Ela me foi entregue pela mão de um homem vivo. E somente o pagamento dos mortos são aceitos aqui.”

“Acredite ó Senhor do Caminho das Trevas, se fosse possível eu já estaria morto agora mesmo para poder estar em companhia de minha amada. Mas por ser filho de um Deus, a dádiva da morte não me foi concedida”

“Sinto muito Orpheu mas não posso permitir que entre no Hades. E não entendo porque alguém em sã consciência desejaria ir até aquele lugar. Sem querer ofender fossa divindade, mas este caminho só foi trilhado até hoje por mortos, loucos e heróis em busca de glórias. E o senhor aparenta não se encaixar em nenhuma dessas categorias.”

“Você está certo Barqueiro, não me encaixo em nenhuma dessas classes. A classe que me encaixo mistura as três que me apresentou mas não é realmente nenhuma delas.”

“E qual seria então?”

“Amante.”

“Amante!?”

“É, ao encontrar o amor de Eurídice, morri para o mundo profano e a nova realidade que provei seria classificada por loucura por qualquer um que nunca tivesse bebido das águas do amor, e agora, sou apenas um semi-deus, que busca reencontrar a glória perdida. Visto que minha amada me foi tirada de forma prematura e ignorante.”

“Suas palavras são belas Rei dos Poetas, mas desconheço o assunto do qual elas tratam. Estou confinado a fazer este trajeto desde que a primeira criatura foi moldada do Caos na criação e estarei ainda aqui para levar a última quando tudo retornar ao Caos. Como posso compreender o “Amor” se nunca poderei sair daqui? Como posso me condoer por sua sina se este tipo de dor nunca me será afligida?”

“Estas palavras que acaba de proferir estão repletas de sentimentos diversos, posso ver dúvida, rancor e inveja no que diz. Mas percebo mais coisas do que o que me foi dito. Vejo que por não ter recebido uma explicação do que sente, acredita não sentir. O sentimento que o Senhor afirma tão categoricamente desconhecer é o que o faz continuar com o seu trabalho todos os dias. Se não amasse o que faz, se não amasse cada um dos mortos que carrega, você não continuaria fazendo o que faz a tanto tempo, porque por mais que você relute em aceitar, sabe que és livre para parar. Suplico para que me deixe atravessar, pois meu sentido de existir se encontra aprisionado nas profundezas do Hades e somente você pode me ajudar neste momento.”

“Jovem poeta, o que acabou de dizer me deixa profundamente irritado. Por sua insolência... e principalmente por fazer sentido... Permitirei que atravesse o Rio dos Imortais, mas não espere que os outros habitantes do Hades sejam tão misericordiosos com você...”

Entro na balsa e navegamos lentamente pelas águas turvas do Rio Estige, após pouco mais de uma hora de travessia sinto um cheiro forte de sangue velho e podridão. Um uivo aterrorizante corta o silêncio das trevas. Deve ser o guardião do Hades. Estou chegando próximo de meu destino.

Fim da Parte II

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Guia do Vestibulando - parte 02


O que você deve fazer no dia da matrícula
Aê!! O dia acordou mais bonito, os pássaros cantavam, todos à sua volta sorriem, e você nunca se sentiu tão bem. É meu amigo, é o seu primeiro dia na Universidade: o dia da matrícula. Você vai se lembrar desse dia ainda por muitos anos, pois é ele que marca numa data específica essa primeira grande mudança na sua vida.
Mas porque toda essa felicidade? Não devem ter te contado, mas você está na merda. Você está saindo de casa pra morar sozinho, vai acumular de uma hora para outra todas as responsabilidades que seus pais absorviam de você, como pagar contas, fazer pequenos concertos na casa, cozinhar, lavar, arrumar, passar, enfim, ser adulto. Lógico que também não terá horário pra voltar pra casa e vão te convidar pra um monte de festas. Mas estar preparado para as coisas boas é fácil. Eu estou aqui pra te preparar pro difícil. Vamos lá.

1) FAÇA AMIGOS. Suas melhores amizades serão feitas quando você estiver na merda junto com outras pessoas na mesma merda que você. No dia da matrícula você terá contato com mais um monte de gente na mesma situação que você, numa cidade nova, sem conhecer ninguém, e acompanhado dos pais pra dar um último apoio. Converse com essas pessoas. Elas, assim como você, estão procurando um lugar pra morar, passar essa primeira noite, comer, e estão ali pela primeira vez. Passe um perrengue junto com essas pessoas que estão na mesma situação que você, procurem casa juntos, é mais fácil ficar na merda junto com mais alguém do que sozinho.

2) CONSIGA LOGO UMA CASA, mas não sem antes pesquisar um pouco. Existem basicamente quatro tipos de moradias para um estudante normal. Os felizardos que morarem com parentes ou formas correlatas nas quais haverá pessoas para cuidarem de sua sujeira, podem pular essa parte.

- Pensionatos: a melhor opção para quem está chegando de paraquedas em uma cidade nova. Os pensionatos geralmente contam com uma pequena estrutura que vai facilitar muito a sua vida, como máquina de lavar, micro-ondas, TV, e o gerente (dono da casa), é claro. Este (ou esta) camarada fica responsável pela manutenção da casa, como trocas de lâmpadas, problemas hidráulicos e elétricos e concertos em geral, além de ser o/a responsável por pagar as contas de água, luz, etc. Além disso, muitos pensionatos também contam com diaristas. Pra você que até então só se preocupava com a grana do salgado da cantina, isso é uma mão na roda, e o fato de ter a diarista à sua disposição, além de te dar tempo de explorar a cidade e a Universidade, é uma nova oportunidade de aprender a fazer todas as coisas que eu te disse para aprender antes e eu sei que você não moveu um dedinho sequer para isso. No entanto toda essa mordomia tem um preço salgado, que pode faltar nos finais de semana para suas baladas, ou para as fotocópias de seus livros novos.

- Repúblicas: a melhor opção para quem já está acostumado a morar sozinho. Recomendo uma passagem de seis meses por um pensionado, e depois desse período você provavelmente estará apto a se mudar para uma república; ou você pode esperar até que já tenha aprendido a cozinhar e cuidar da casa e de suas roupas. Morar em república é mais barato que em pensionato, simplesmente pelo fato de não ter mais ninguém lucrando em cima do quanto você paga para morar. As tarefas ficam dividas entre todos os moradores, e você quase não sente o tranco. Converse bastante com o pessoal com o qual você irá morar, verifique a casa, pesquise bem, pois há repúblicas muito boas, e outras onde até mesmo as baratas se recusam a visitar.

- Kit nets/Apartamentos: quem não gosta ou acredita que não consiga morar dividindo mesmo teto que outros seres humanos pode tentar essa modalidade. Muito mais cara que as duas anteriores, mas em compensação a casa é toda sua para fazer o que quiser, ouvir a música que quiser no volume que desejar. Mas a louça e o banheiro são todos seus também, 100%.

- Moradia Estudantil: para aqueles que não podem pagar as modalidades listadas acima, muitas Universidades oferecem Moradias Estudantis, onde após comprovação de renda abaixo de um certo teto e uma outra tonelada de documentos, o estudante pode morar de graça, ou pagando preços módicos.

Observação Importante 01. Sabe aquela escrivaninha que você adora, o seu Xbox 360 novinho e o laptop que seu padrinho te deu por ter passado no vestibular? Esqueça eles na casa dos seus pais no primeiro mês, pelo menos. Você não conhece as pessoas com as quais vai morar, e infelizmente não podemos saber do que são capazes. A maioria dá sorte e faz amigos para a vida inteira logo de cara, mas muita gente dá azar de morar com pessoas muito erradas.

Observação Importante 02. Ao procurar o lugar onde vai morar, dê uma olhada nos quarteirões mais próximos. Dê preferência a locais onde existam padarias, supermercados, postos de gasolina próximos. Tão importante como ter onde morar, é ter o que comer.

domingo, 13 de junho de 2010

Sabe o Mário?



Acho que essa piada paira no ar, esperando um momento para entrar, talvez por difusão facilitada, em nossas cabeças. Não conheço alguém que não a conhece nesse universo ou no da Nintendo. E o legal dela é que ela não tem graça quando você cai nela, mas você descobre uma nova visão quando consegue pegar alguém com ela, que não consegue parar de perguntar do tal “Mário”.

Com o tempo ela foi adquirindo graça e força impressionante, que você só precisa simplesmente citar o dito cujo para alguém esboçar um sorrisinho de canto de boca (aposto que você riu ao ler o título do texto, leitor – sim, deixemos o “caro” e demais formalidades de lado, estamos íntimos já) e quando alguém pergunta “que Mário?” ela já se lembra da piada e quem citou o bigodudo nem precisa terminar a piada (que é um tanto vulgar) para todos rirem do desavisado.

A reação de quando se cai nessa piada é algo como isso: alguém fala ”então, sabe o Mário?”, não acreditando que alguém cairá e quem ouviu do mesmo modo, mas alguém pergunta “que Mário?”, ai começa a reação: fica um segundo parado, o coração e a respiração param, então ele fecha os olhos e pensa “ CARALHO! Não acredito que caí nessa!” daí abre os olhos e se depara com todos rindo da cara dele... é triste...

Mais uma piada que inexplicavelmente todos conhecem que, apesar de ser muita engraçada no início, com o tempo (sabe... a gente amadurece) se torna babaca é a do “não nem eu”. Essa ainda me lembro da primeira vez que cai nela (sim, “primeira vez”, houve outras, afinal não achei que uma piadinha tão idiota iria ser repetida, então não fiz questão de guarda-la).

Eu devia ter uns 9 anos, era uma tarde agradável, eu estava na casa da minha vó, almoço de domingo, quando minha prima três, TRÊS, anos mais nova veio toda feliz e rodeada pelos meus outros primos me perguntando se eu conhecia a piada do “não nem eu”, e eu poderia ter dito, “negativo”, “não recordo”, “nunca ouvi”, “me contará?”, enfim, uma infinidade de respostas que não sei se existem mas não lembro de outra, que acabaria com a piada, mas eu disse “aquela” que não podia ser dita...

Outra coisa engraçada nela, ou no mínimo curiosa, é o quão ela é paradoxal: a piada em si é o fato do locutor dizer que também não a conhece, porém se ele revela isso e isso é a piada, ele a conhece, o que invalida a sua afirmação!

Outro personagem que sempre aparece em piadas velhas e sem graça é o pintinho. Puta sacanagem (ou falta dela, vai saber) que fazem com ele: tiram seu ânus, sua pata e colocam um palito de fósforo no lugar, aumentam sua cabeça, o nomeiam de Relam, e sei lá mais o que. Mas o que supera todas é a do “quer ouvir uma piada??” “sim” “PIU!!!”... Nossa... essa eu demorei uns 2 anos para me tocar que “piada” está para o pintinho assim como coaxada está para sapo, rugido está para leão, e alguma coisa está para a girafa... enfim... não achei graça mesmo assim... e se você que está lendo (posso te chamar de “você”, certo?) não tinha se tocado, bem... já deve está alfabetizado, então é meio tarde para rir dela.

E para finalizar a minha humilde lista citarei uma piada suja e pesada: o elefante caiu na lama! PUTA QUE PARIU quem inventou essa piada! O FILHO DA PUTA que a conta cria um expectativa no seu ouvinte, geralmente garotos adolescentes sedentos por baixaria, em plena puberdade, já imaginando coisas nojentas, ai manda essa “o elefante caiu na lama!”... o mesmo adolescente com hormônios a flor da pele tem vontade de socar o filho da puta até a cara dele parecer com um elefante na lama, mas geralmente se contém devido a paralisia da reflexão complexa sobre a origem da vida ou se há vida após a morte associada a momentos traumáticos.

Já ouviu a nova versão da piada do “não nem eu”?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A "Parada" que parou São Paulo



No último domingo, 06/06, ocorreu a XIV Parada do orgulho LGBT de São Paulo, este ano com o tema "Vote Contra a Homofobia: Defenda a Cidadania".

Sabemos ser este um evento que, infelizmente, ainda é visto com preconceito por boa parte da população. Portanto, o blog Mente INSANA em corpo são não poderia deixar passar em branco tal acontecimento.

Em primeiro lugar, para os desavisados piadistas que classificam a Parada como "Uma festinha dos torcedores do São Paulo", ou "Um show do Justin Bieber", gostaria de deixar as humildes informações do evento.

A Parada do orguho LGBT de São Paulo é considerada desde 2006 a maior parada gay do mundo pelo Guiness book, com 2,5 milhões de participantes. Em 2010 a estimativa é que tenha atingido algo em torno de 3,5 milhões!

Sei que é complicado compreender as dimensões desses números, por isso farei algumas comparações simples. Para atingir a quantia de 3,5 milhões de pessoas seria necessário unir toda a população das cidades de Resende (130.035 hab), Volta Redonda (261.403 hab), Niterói (479.384 hab) e de toda a Região do ABC Paulista (2.500.000)*. Agora, caro leitor, se você não conhece essas localidades as quais me refiro para compreender a magnitude populacional delas, ao vivo, pense no Carnaval de Salvador, considerado como a maior manifestação popular do mundo! Uma festa grandiosa, que nos seus SEIS DIAS já obteve o incrível montante de 2.700.000 participantes.

A Parada em um dia conseguiu 3,5 milhões em participantes e público.

E vejam só, além dessa incrível participação a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo ainda visa a obtenção de direitos para os homossexuais.

Afinal, na minha modesta opinião, não é muito dificil perceber que existem homossexuais na sociedade , então, por qual motivo as legislações sobre adoção, união civil, preconceitos contra os homossexuais, etc, são praticamente inexistentes? Será que ninguém contou para os integrantes do poder legislativo que o que define um ser humano como tal são suas capacidades de pensar, desejar, amar e agir, e não como se pensa, o que se deseja, quem se ama, ou em prol do que se age? Será que quando alguém agride um homossexual "Por que ele é gay!" deveria ser autuado apenas por agressão? O preconceito, a humilhação deveriam entrar no montante legislativo? É um caso a se pensar.

Eventos como a Parada de São Paulo, conclamando a população a não votar em políticos que sejam intransigentes com a homoafetividade são muito importantes. Devem ser defendidos por todos não só pelos homossexuais. Devemos começar a olhar para as dificuldades dos outros e imaginá-la como se fosse nossa. Eu imagino que, se vivessemos em uma situação inversa, e os heterossexuais fossem a minoria preconizada eu não poderia olhar para trás quando uma garota passasse, ou gritar "Gostosa!" para aquela mulher envaidecida do outro lado da rua. Para citar exemplos torpes e cotidianos.

Para finalizar retomo o princípio, muitos ainda preconizam eventos do orgulho gay, chegam a lutar contra manifestações e fazer ameaças, quando não tomam atitudes. A estes um recado, LGBT têm lutado por cidadania, eles não querem dominar o mundo, querem fazer parte dele, não há porque contrariar as manifestações LGBT. Aproveitemos que vivemos em uma economia capitalista para usar um de seus princípios na vida social. Laissez faire, laissez aller, laissez passer.


*Valor estimado

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Guia do Vestibulando - parte 01





Introdução
Olá caros amigos Vestibulandos! Pensando numa forma prática de melhorar a vida de todos vocês que estão prestando vestibular este ano, e que provavelmente irão enfrentar novos desafios longe de casa e dos amigos ao passarem para uma Universidade no final do ano, fiz um recolhido de experiências pelas quais passei em 6 anos de faculdade, distribuídas aqui em dicas de coisas que, caso feitas, certamente irão deixar essa fase de suas jornadas muito mais suave.

O que você deve fazer antes de ir para a Universidade


1) PESQUISE. Independente do curso que você escolheu, ou ainda não escolheu, do conceito que a faculdade tem, e da facilidade ou dificuldade em passar no vestibular de determinada instituição ou curso, pesquise sobre a cidade onde você pretende morar.
A maior parte do seu tempo você certamente passará dentro do Campus, mas o restante todo, caso você ainda não tenha pensado será na cidade onde fica a sua Universidade. Saiba em qual bairro fica a Universidade, se é fácil e/ou barato morar perto, se os bairros que ficam em volta são bons, se há muitas enchentes na região, quais são os índices de criminalidade. Tudo isso você encontra com certa facilidade no oráculo digital, também conhecido como “Google”. Se possível, visite a cidade.


2) APRENDA A CUIDAR DE CASA. Vamos encarar os fatos: tirando alguns poucos sortudos que irão morar com familiares ou em apart-hotéis, você vai morar sozinho numa kit net, apartamento, num pensionato, ou em uma república. Parece legal, mas você nunca fez mais do que ovos fritos e miojo na cozinha, nunca lavou suas roupas e mal sabe ligar a máquina de lavar, e nessas possíveis moradias não terá ninguém pra fazer isso por você. Não dá pra viver se alimentando somente de comida congelada, miojo, ovos e hambúrgueres, sem contar que pode ser que nem tenha um forno de micro-ondas no lugar onde você vai morar. Então, tire aquele tempinho no final de semana (você não estuda aos domingos mesmo, que eu sei) e peça alguém para te ensinar coisas básicas da cozinha, como arroz, feijão e legumes refogados. Leve um livrinho de receitas com você. Ele poderá salvar a sua vida!
Além disso, não precisa virar uma lavadeira de primeira, mas comece a se familiarizar com o sabão em pó, o amaciante e o ferro de passar roupas, para que quando chegue a hora você tenha pelo menos uma ideia do que precisa fazer com aquele monte de roupas sujas que se acumularam durante a semana, e já estão ocupando um espaço precioso do seu quarto. Lembre-se que você está indo para a Universidade estudar, para que num futuro não muito distante você consiga um bom emprego, o que implica, na maioria das vezes em usar camisas sociais, que não são nem um pouco fáceis de se lavar e passar.


3) RESOLVA SUAS PENDÊNCIAS. Você já tirou Identidade? E CPF? Espero que sim, pois a maioria (para não dizer todas) das provas que você irá fazer pedem esses documentos na inscrição, e sem eles você não tem nem mesmo a chance de fazê-las. No Estado onde você mora as Carteiras de Identidade perdem a validade quando você completa 18 anos? Verifique isso, pois você também pode ser impedido de realizar prova ou se matricular na faculdade por causa disso. Você tem seu histórico escolar em mãos? E o certificado de conclusão do Ensino Médio? Vá até seu colégio e recolha esses documentos. Sem eles você não consegue fazer sua matrícula na Universidade.
Por acaso você está perigando de repetir em alguma matéria no colégio? Deixou alguma dependência da 3ª série pra ser feita somente agora? Resolva isso logo! Seu colégio não vai dar seu diploma se você estiver com pendências, e assim, você não pode entrar na faculdade. Infelizmente, passar no vestibular não é, ainda, certificado de que você já passou no colégio.


continua...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Não quero ser ginecologista


Estou prestando vestibular para Medicina esse ano. Como de costume, as pessoas vivem me perguntando sobre em qual especialidade médica eu gostaria de me especializar. Eu, que já tenho um curso superior, já sei como é complicado, antes de se ter um conhecimento maior sobre qualquer área, decidir sobre o que se quer fazer após concluído o curso. Além do gosto pela coisa, outras variáveis - tais como a oportunidade ou a previsão para o mercado de trabalho nos próximos anos - podem vir a influenciar diretamente nesse tipo de escolha. Como gosto de ser sincero, digo sempre que ainda não sei, que há muitas coisas para se conhecer e fazer antes de escolher uma especialidade (posso até mesmo não escolher nenhuma), mas de uma coisa estou certo: jamais serei Ginecologista.

A maioria fica estupefata, pois acham que como homem, eu deveria pelo menos pensar no caso de ficar mais perto dos belíssimos órgãos sexuais femininos. Acreditam que é o sonho de qualquer homem trabalhar com aquilo que mais gosta. Bom, se eu fosse levar em consideração trabalhar com aquilo que mais gosto, seria um prostituto; não médico. Assim surpresas, as pessoas me questionam o porque de decisão, então, tão precipitada. De facto, devo admitir que num primeiro momento é realmente interessante pensar em trabalhar com mulheres de pernas abertas. No entanto, se pensarmos um pouco mais a fundo veremos que a coisa não é tão bacana assim.

Primeiro, de todas as especialdades médicas que podem ser escolhidas por um homem, a ginecologia é a que mais demora a dar retorno financeiro ao recém-formado. O camarada que se especializa em qualquer outra coisa, logo no início da carreira já começa a tratar de familiares, vizinhos, colegas de infância e de faculdade. Mas e o coitado do Ginecologista, como faz? Primeiramente o formado em ginecologia limita seus clientes apenas ao público feminino, logo, seus primos e colegas de cerveja e futebol não irão se consultar com ele. A mãe dele já tem um ginecologista há anos, e assim como no caso dos cabeleireiros, as mulheres somente mudam de ginecologista por motivo e óbito, mudança de cidade, ou uma cagada indescritível. Logo, a mãe dele não vai se consultar com ele. O mesmo pode ser dito das avós, tias e primas, que mesmo torcendo muito pelo seu sucesso, jamais terão coragem de se abrir em seu consultório. Nem preciso dizer que as amigas, conhecidas e namoradas/esposas de amigos já o eliminam como possível médico somente pelo fato de ser um conhecido.

Em segundo lugar vem o dia-a-dia destruidor de expectativas. Tomemos a minha pessoa como exemplo: não sou nenhum tipo de D. Juan, Amante Latino, ou pegador -  como diriam as massas - sou um simples Nerd estudioso que tem uma singela vida social, boa aparência e um pouco de sorte. Colocando na ponta do lápis, nos meus 25 anos de vida, devo ter feito sexo com pouco mais de duas dezenas de mulheres. Como disse anteriormente, tenho um pouco de sorte e posso considerar que cerca de 80 a 90% delas eram do tipo que você apresenta pra mãe e pode andar de mãos dadas no shopping sem que as pessoas fiquem apontando dedos e rindo. Vê-se que meu histórico não é muito rico se comparado à maioria da população, mas mesmo diante de um espaço amostral tão reduzido, de meninas que aparentemente cuidavam de sua saúde e higiene, eu devo dizer que encarei muita coisa feia. Não falo sobre cortes de cabelo desleixados, formas ou tamanhos, e sim sobre mal cheiro e secreções indesejadas.

Passo a pensar então em como deve ser a rotina de um Ginecologosta. Nenhuma mulher vai ao Ginecologista e diz: "Veja doutor! Ficou bonito esse novo corte de cabelo?" ou "Gostou do meu piercing novo? Vim aqui somente para mostrá-lo ao senhor." Isso JAMAIS ocorrerá. Resta ao infeliz Ginecologista somente cavidades inflamadas, lamacentas de pus e adornadas com verrugas. Se eu que sou eu, já vi tanta coisa feia, imagino no consultório do pobre coitado.

- Doutor, tem dois meses que tá assim roxo no meiozinho e escorrendo essa geleca marrom, mas quando apareceram essas bolinhas verdes em volta fiquei preoupada. 
- Mas minha senhora - diz o médico segurando a ânsia de vômito - a senhora deveria ter vindo aqui há dois meses então!
 - Ah doutor, minha irmã disse que era normal, e que a dela também fica assim. Doutor, o senhor tá escondendo um cadáver no banheiro? Que cheiro horroso, vai lá dar descarga, por favor.
 - Desculpa minha sehora, mas não é do meu banheiro que vem esse cheiro de carniça.

Ui!!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Perceber sem ver




Madrugada. Dois homens caminham pela rua. Um alto, traja casaco marrom pesado, está visivelmente incomodado com o frio excessivo que acomete a região. O outro um pouco mais baixo, traja uma calça jeans e uma camisa branca estampada, a brisa gélida não parece o incomodar.


Marcos se encolhe dentro do casaco. Olha para Gabriel, tão a vontade naquele clima... Olha para o que julga ser um leve sorriso.


- Rindo de que?


- De você, é claro!


- Não sei onde está a graça...


- Em tudo! Nesse frio sobrenatural que você está sentindo...


- Está frio droga!


... Nessa sua cara de Romeu frustrado!


Marcos sente vontade de explodir em uma torrente de despautérios. Mas não adiantaria nada. Ele também achava que tinha feito papel de bobo. E Gabriel tinha assistido a tudo... Agora ria contidamente.


Eles caminham pela calçada. Ao longe figuras humanas escondem seus pecados nas sombras. enquanto estampam seus medos nos olhos. Gabriel olha divertidamente seu amigo.


- Tu gosta mesmo dela?


- Claro Gabriel! Não viu o que fiz???


- Só porque um apaixonado faz idiotices não quer dizer que toda idiotice é fruto de uma paixão. Melhor confirmar, não acha?


- Idiota...


Gabriel gargalha alto.


- Marcos... Você está cego cara!


Marcos para e olha o céu. Praticamente não há estrelas, apenas escuridão. Ele fecha os olhos e pensa por alguns instantes. Gabriel se diverte com a cena.


- Você está certo.


- Hã?


- Você está certo, acho que estou como um cego.


- Viu só? Não falei que essa garota só te faz mal...


- Não, você não entendeu. Eu estou enxergando como um cego!


- ?


Marcos encosta em um poste, fecha os olhos e lembra, e de acordo com suas lembranças narra um acontecimento.


- Um dia estava na praça esperando-a pra ir ao cinema, um senhor cego se aproximou e sentou-se no banco ao meu lado. Perguntei se ele queria ajuda, ou se precisava de algo. Ele disse que não. Que conhecia bem os arredores. Começou a falar das pessoas que moravam por ali. Boas pessoas mas com vários problemas, o bairro estava se tornando perigoso... Falou de política, da falta de ética no senado e de como as pessoas deixavam a oportunidade das eleições passarem em branco. Conversamos alguns minutos, até que ele resolveu partir. Assim que ele se levantou um garotinho passou entre nós e gritou para a mãe. ' Veja mamãe, que bonita essa borboleta azul!'. O velho cego ficou olhando para a direção da voz da criança que contemplava extasiada seu objeto de fascínio. Ele me perguntou se eu achava bonita a borboleta. Fiquei embaraçado. Respondi que sim, que era muito bela e que era uma pena ele não poder vê-la, pois ela tinha uma tonalidade de azul muito bonita. Não sabia se tinham sido boas palavras... Ele sorriu e me disse: ' Não posso ver o azul que você e todos os outros vêem, em compensação ninguém mais pode ver a leve tonalidade de amarelo que agora só eu percebo. Quem é merecedor de pena meu garoto, você que enxerga apenas o que os olhos lhe mostram ou eu que percebo o mundo de várias formas sem ver?'.


Gabriel o olhava estático, compenetrado na ação narrativa.


- Agora, Gabriel, me percebo como aquele senhor cego. Pois contemplo além daquilo que se limita ao visível. Por isso me ridiculariza. Como dizia Nietsche: "Quanto mais alto você voar, menor parecerá aos olhos daqueles que não saem do chão!"


- Nossa Marcos. Acho que o amor está operando milagres em você. Realmente belas suas palavras...


- São sim!


-Mas você ainda é um idiota. Gabriel diz isso e dá um tapinha nas costas de Marcos antes de seguir a caminhada, enquanto este lhe olha perplexo.


Um odor fétido vem com a brisa do mar enquanto ambos seguem pela calçada. Um de cabeça baixa, encolhido pelo frio. O outro de fronte erguida sorrindo levemente. Através da maresia fétida seguem, quase perdidos numa noite imunda.