quarta-feira, 1 de julho de 2015

Campo Belo




Essa história aconteceu lá pras bandas das Gerais
Na Zona da Mata mineira, na fazenda de meus pais
Tinha lá uma cachorrinha tão bunita de se vê
Mas aconteceu que a coitadinha
por ficar muito véinha
acabou-se por morrê.

Nóis menino ficamo triste c'a morte da companhêra
Num tinha mimo de mãe que acabasse c'a choradêra
E nosso amado pai que num guentava tristeza vê
disse ansim pra nóis menino:
" De manhã vamo à cidade, passeá pr'espairecê"

Dispois de um di'inteirinho, já na hora de vortá
Ouvim'um barui'squisito e viramo pra oiá
Bem na beira da estrada tinh'um filhote latino
Parecia que chorava bem ansim com'os menino
Mas não era para menos que lamuriava sua sorte
Na moita bem atrás dele, encolhida num cantinho
Jazia sua mãezinha e mais uns irmãozinho
e todos dormia quietinho abraçados com a morte.

Levamo pra casa então aquele cachorro de sorte
Tratado a leite com pão o pequeno cresceu forte
e ao companheiro bonito que tinh'os pelo amarelo
por sugestão dos menino dem'o nome de Campo Belo

Campo Belo cresceu longe, distante de seus semelhante
o cachorro mais próximo morava muito muito adiante
talvez seja por isso, por não tê quem imitá
que Campo Belo foi então nos bezerro s'ispeiá

Mamava nas vaca de dia, passava as noite no pasto
pra ficar mesmo igual bezerro só lhe faltav'os casco
Campo Belo foi'squecendo como que era latí
e juntamente aos bezerro foi aprendendo a mugí
inda igualzinh'aos bezerro que tinha medo de gente
o cachorro fugia ligêro quando nos via na frente
Inté n'ora de crescer Campo Bel'os imitou
do tamanho d'um garrote nosso cachorro ficou
seu semblante dava medo, nos bixo, na gent'e nos otro
o padre inté ispaiô que nóis vinha criand'um monstro

Inté que aconteceu duns ladrão chegá no arraiá
as fazenda de todos vizinh'eles vier'à robá
mas de ver o Campo Belo com nosso rebanho a pastá
os ladrão fugiro de medo
achando que aquele mostreng'os iri'atacá

a nossa fazenda foi sarva pelo cão-boi monstruoso
mas isso fez o padr'e nossos vizinh'odioso
eles passaro a dizer que nóis fazia bruxaria
e foro atrás do cão-boi
com foice e faca na mão, fazend'uma gritaria

Campo Belo sumiu, ninguém sabe pr'onde foi
correndo daquele povo que caçava o cão-boi
num sei se por medo ou bondade
pra alegria do padre, o cão-boi tinha fugido
Ficamo triste de novo, sentindo uma baita saudade
daquele cachorro monstruoso
que agente tinh'acostumado a chamar de "meu amigo"

Mas eu te asseguro, Campo Belo ind'anda por lá
pois lugar mais seguro que nossa fazenda não há
os ladrão que antes fugiro acabaro por vortá
mas mal negócio foi esse de vortá pra nos robá
numa noite escura e fria, sem lua pra lumiá
nóis ouvim'um som estranho que fez os pelo arrupiá
parecia um cão e um boi e dois homi a gritá

na manhã do dia seguinte os ladrão foro encontrado
dois corpo posto no chão e do avesso virado
tem que ser do Campo Belo o urro estranho que ouví

pois nunca vi um boi que late e cachorro num sabe mugí

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A prisão inescapável

Meu corpo é minha prisão inescapável
Estou confinado por uma muralha de células
Músculos em rebelião e dor paralisante
Me encarceram diariamente

Além dos muros físicos outra barreiras se levantam
Rotinas tentam me automatizar
A transformação em construto nubla os pensamentos
A ilusão de Maya testa minha vontade

Apesar do destino certo
A morte é apenas a realocação em outra prisão
A transcendência ocorre apenas pela arte
Arte de subverter a prisão
Arte de transformar
Arte de Ser

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sonhos Indomáveis

Tenho sonhos maiores que meu sono
Sonhos que me tiram o sono
Sonhos que me consomem
Digerem, corroem

Sonho com lugares distantes
Outras civilizações
Outras realizações

A realidade tenta extingui los
Mas acaba sendo moldada por eles

Sonhos indomáveis

domingo, 17 de maio de 2015

Carta para o meu futuro afilhado

Jair,

Faz algumas horas que você nasceu e esse acontecimento fez o dia de hoje ser um dos dias
mais felizes da minha vida.

Como já estou nesse mundo a algumas horas a mais que você, gostaria de te dar algumas
dicas.

Mas antes de tudo Bem Vindo! Esse é o Mundo! Existem muitos coisas legais para se fazer
por aqui, muitas coisas para se ver, provar, conhecer... Existe pizza! Isso é uma das melhores coisas
que tem por aqui, é meio difícil de explicar o quão gostoso é, mas fique tranquilo, pode deixar que
te mostro... Opa, estou me desviando do assunto!

Aqui você também pode fazer muitas coisas, rir, brincar, dançar, cantar, mas sinceramente,
eu não sou muito bom nessas duas últimas coisas que dei de exemplo, mas juntos podemos tentar
melhorar minhas terríveis habilidades.

Ah! Uma coisa importante sobre rir, tente não fazer isso enquanto bebe Coca Cola, ela pode
acabar saindo pelo seu nariz e fazer uma sujeirada, por mais engraçado que seja ver alguém fazendo
isso, quando acontece com a gente não é tão legal assim.

Ok, isso foi estranho, mas existem muitas coisas estranhas nesse mundo e conhecê-las
também é importante.

Nas muitas futuras horas da vida, algumas serão muito boas, outros não, alguns horas você
irá ganhar sorvete, em outras não, mas sempre procure motivos para rir! Só lembre daquela dica
sobre a Coca Cola.

Você via encontrar muitas pessoas na sua vida, algumas delas vão ser muito legais e
simpáticas enquanto outras serão mal educadas e irritantes, mas não fique bravo com elas, as vezes
só tiveram um dia ruim e assim que esse dia passar elas voltarão a ser legais.

É importante lembrar que sempre vai poder contar com a sua família! Sua mãe. seu pai e
seus irmãos sempre irão te amar, mesmo que te deem broncas de vez em quando e pareçam malucos
em algumas horas.

Além disso, você ganhou de brinde mais dois super parceiros, eu e a sua dinda Laura!

Vamos sempre te apoiar e batalhar para que seja a melhor pessoa do mundo!

Das coisas que eu posso desejar, espero que você tenha coragem para mudar as coisas que
precisam ser mudadas, inteligência para aceitar que algumas coisas não podem mudar e sabedoria
para conseguir distinguir uma opção da outra.

Meus mais sinceros votos de felicidade,

Com amor,

Tarso J. M. Santana

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O blogger havia deletado esse texto, por isso estou adicionando-o novamente.

domingo, 5 de abril de 2015

Soneto Errado


Minta para mim
Minta baixinho
Minta como se eu fosse importante
Minta sua mais doce mentira

Prometo apenas mentir também
Mentirei como se houvesse algo aqui dentro
Como se essa noite fosse inesquecível
Como se não fosse o vinho falando

E acreditemos
Acreditemos em nós
Acreditemos na lua que não vemos

E vamos sonhar
Sonhar que isso não irá passar
Sonhar que não estamos mentindo.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Companhia do Tigre Branco - Histórias Ébrias


É impressionante a quantidade de lama que  pode ficar presa na roupa quando se está andado a cavalo em um lamaçal durante uma das piores tempestades que vi nesses últimos anos.

Resolvi adiantar minha chegada, já que os batedores que enviei ainda não deram notícias. Confio plenamente na capacidade deles,  já os vi lutando contra coisas que fariam pessoas normais terem pesadelos por anos e saírem de situações que até hoje me fazem pensar se realmente aconteceram ou não passavam de um delírio.

De qualquer forma, já se passaram dois dias desde a data combinada e dei ordens expressas sobre o quão importante era me manter informado e ser o mais discreto possível na chegada à Rafrin.
Essa cidade cresceu muito em pouco tempo, todos vieram para cá tentar a sorte já que as principais feiras do reino agora passam por aqui, mas não são só louros que essa cidade guarda, os crimes estão cada vez mais constantes e o prefeito da cidade havia nos sondado sobre problemas com uma guilda de ladrões que tem atacado as caravanas da região.  Esperava que Andrew e Rogy me atualizassem sobre a situação, mas pelo visto eu mesmo terei que descobrir.

Já é tarde e nessa chuva somente estabelecimentos de reputação questionável estão com suas portas abertas. Putas com frio me vêem passar e nem se dão ao trabalho de me convidar para entrar em seus salões de ofício. Me abaixo um pouco para ver de cima do cavalo as janelas das tabernas abertas e mesmo a metros de distância sei que é  na "Taberna do Calcanhar de Chumbo" que devo entrar.

A voz de Andrew era mais alta do que o barulho da chuva e antes de entrar espiei pela janela vendo que sua face estava mais rosada que o normal, algo me dizia que era por causa das cinco ânforas de vinho que estava espalhadas pela mesa.

Minha entrada mal é notada, estava com uma capa e capuz escuros que mal deixavam ver meu rosto e a camada de lama impossibilitava qualquer identificação.

Em uma olhada rápida vejo que a taberna não é muito grande, com pouco mais de cinco mesas e um pequeno palco onde pude ver um conjunto de músicos olhando feio para o meu amigo,  pois ele era o centro das atenções naquele lugar. É comum os bardos estarem nessa posição,  mas Andrew era especialista nisso. Ele arranhava tocar um pouco de violão e flauta, mas era ao contar histórias que ele mostrava seu verdadeiro dom. Ele falava e as pessoas ouviam, simples assim.

A família de halflings que pelo que inferi era dona do lugar se esforçava para dividir a atenção entre atender os pedidos e ouvir as histórias. A mais nova, que deduzi ser a filha do casal que estava atrás do balcão já  havia largado a bandeja e estava sentada próximo do bardo ébrio.

E foi assim que prendi a demonia de cabelos vermelhos na privada de uma estalagem no caminho para a Fortaleza do Orc.

Gargalhadas  eram ouvidas e olhares de descrença eram lançadas ao final da história e ele continuou:

- E agora, qual história querem ouvir?

A filha do taverneiro com os olhos brilhando, pediu:

- O senhor disse que era da Companhia do Tigre Branco, nos conte porque ela tem esse nome,  se não for pedir demais...

- Essa não precisa ser um bardo metido a besta para saber - gritou um dos músicos até então ignorados no palco - é por causa dos cabelos brancos do líder deles.

Andrew sorriu com o canto da boca e percebeu que aquela era a sua deixa.

- Muito bem, meu desafinado amigo, você está certo. Mas a pergunta que os senhores devem se fazer é porque um homem que mal chegou aos trinta anos, já está com os cabelos tão brancos!? A resposta para essa pergunta é um dos segredos mais bem guardados da nossa Companhia, mas como vocês ou melhor, quase todos vocês, se mostraram um público tão digno, revelarei, mas espero que não contem para ninguém...

Eu já ouvi dezenas de versões dessa história que Andrew conta sempre que está bêbado,  algumas são trágicas outras fantasiosas demais,  mas sempre gosto de ouvi-las. Antes de me revelar, deixarei o rapaz contar essa última história.

- Vocês já ouviram falar no Tigre Branco do Oriente?

Um arrepio subiu pela minha coluna,  ele não deveria ir tão longe em suas brincadeiras,  receoso com o que poderia ser revelado, continuei a ouvir. Ele empostou a voz e deu seguimento.

Muito longe, lá depois de onde o sol da manhã nasce, existe uma terra de mistérios e magia tão antiga quanto o próprio tempo.

Lá homens tentam descobrir a verdade e muitos não voltam, seja por sucumbirem as vicissitudes do caminho ou por acabarem por descobrir que os monstros que habitam dentro deles são muito piores do que as bestas que espreitam na noite.

Estávamos em um grupo de mais de 20 homens, cada um mestre em sua especialidade, passamos dias perdidos em desertos tão secos que secavam nossas lágrimas de fome antes mesmo delas saírem dos olhos,  cruzamos montanhas que uivavam dia e noite e no vento escutamos a morte nos atraindo para precipícios sem fundo. Tudo isso para chegar nas matas de Malaysa, onde um dos piores demônios do mundo habita, o temível Tigre Branco do Oriente.

- Mé... até parece, não há ninguém que foi tão longe! E esse lugar não passa de uma lenda! Esse tal de tigre não passa da invenção de um bêbum.

- Então me explique como alguém pode ter uma ferida como essa - disse Andrew enquanto levantava a manga da camisa e mostrava um ferida que tinha aproximadamente 15 centímetros e sua cicatriz era de um púrpura profundo - nenhuma criatura desses lados do mundo deixa uma marca parecida.

A visão do ferimento espantou toda taverna e fez calar o nêmesis desafinado do bardo. 

Eu estava ficando cada vez mais preocupado com os rumos que aquilo estava tomando. Existem histórias que não devem ser contadas.

Algumas lições devem ser aprendidas ao se enfrentar criaturas mágicas de outros continentes, e a principal delas é: Elas nunca estão sozinhas.

Nosso grupo já estava reduzido a quatro pobres coitados, os outros ficaram pelo caminho, um deles foi devorado por uma trepadeira cantante de Yr, o que é uma visão no mínimo curiosa, mas isso é uma história para outro dia.

Chegando no que seria o esconderijo da tal criatura notamos que haviam outras vozes dentro da caverna, pois seu som ecoava e reverberava por entre os labirínticos salões do local. Rossat que já era nosso líder na época, demorou poucos segundos para compreender que aquilo que ouvíamos era um feitiço de subjugação e pelo nível daquele ritual uma força ainda mais medonha  estava operando naquele lugar.

Passamos por uma série de armadilhas que com a ajuda fundamental de Nadiram, nosso habilidoso e - por vezes flertador com a morte - ladino, foram abrindo caminho até o nosso derradeiro encontro.

Em um salão com mais de cinquenta metros de altura, vimos a colossal fera em um círculo mágico se debatendo contra correntes de uma luz maléfica que tentavam subjugá-la. Ao seu redor, três mulheres vestidas de preto estavam em um transe hipnótico.

Rossat tomou a dianteira e bradou:

- Identifiquem-se seres das sombras! Vocês estão entre mim e minha conquista, saiam agora e nada de mal lhes será feito.

Uma maligna gargalhada foi ouvida, gelando nossos corações e fazendo Pietro correr como se não houvesse amanhã. Ele não estava de todo errado, se continuássemos  ali, não haveria amanhã.

A voz não vinha de nenhuma das mulheres, mas das três ao mesmo tempo. Tudo ficava um pouco mais morto a cada palavra que ela pronunciava.
- Quem seremos essa noite, minhas irmãs? Acho que Camila é um bom nome. Somos Camila, estrangeiro. Quem é você?

- Podem nos chamar de Gabriel - disse Rossat com um sorriso ameaçador no rosto, desafiando as bruxas. 

Mesmo sem trocarem mais nenhuma palavra, podia sentir o ódio delas vindo em nossa direção. A temperatura havia caído uns dez graus e o silêncio que antecipa a tempestade foi rompido por um relâmpago que saiu das mãos da Camila do meio. Se tivesse olhos menos treinados não teria nem visto os gestos de preparação da magia e não haveria escapado.

Rossat tripudiou.

- Eu estou aqui! Na próxima tente ser um pouco mais precisa.

Ele abriu os braços como quem tenta abraçar a noite.

Os olhos das criaturas começaram a pegar fogo, bolas incendiárias foram arremessadas, mas a Barreira de Espelhos que Rossat conjurou nos defendeu sem maiores problemas. Sempre fico irritado e agradecido pelo fato dele não precisar gesticular nem falar nada para fazer os seus feitiços. Acho que ele aprendeu isso no tempo que passou em uma tribo no Deserto de Al-Birra. 

Estou perdendo o foco, me desculpem.

Tomem nota disso que vou dizer, ao trabalhar em grupo, tenha a certeza que pode confiar em seus parceiros, depois de compreenderem isso, tudo fica mais fácil. E eu confiava em Rossat e Nadiram, sabia que pelo menos um deles tinha um plano. Era bom eles terem um plano. E colocarem em prática logo.

A distração que o nosso feiticeiro havia criado deu espaço para que Nadiram se esgueirasse e incapacitasse uma das Camilas.

Pensamos que a vitória estava nas nossas mãos, mas não contávamos que com menos uma das inimigas o Tigre se libertasse tão rápido e arremessasse longe o ladino, fazendo-o bater a cabeça em uma pedra e desmaiar. 

A criatura devorou as outras duas feiticeiras malignas com uma gana aterradora e após isso voltou seus olhos brilhantes como estrelas explodindo em nossa direção e um mar de fúria tomou seu espírito.

Fazendo um rolamento lateral, tentei usar meu florete contra a vil besta, mas minha arma passou por sua etérea pele. Fiquei desesperado ao perceber que meu ataques seriam em vão e antes mesmo de bolar alguma artimanha, com uma patada também fui jogado para longe e ainda recebendo esse corte no braço da garra daquele demônio. 

Rossat ficou entre mim e a criatura, ele era nossa última chance.

- Então finalmente nos encontramos - disse ele com uma tranquilidade perturbadora - identifique-se criatura, para que possa ter certeza de que é você mesmo quem eu tenho que derrotar.

- Eu sou o Tigre Branco do Oriente! O Espírito da Vingança! Quem ouve meu nome sabe que deve temer!

- HA-HA-HA

Um silêncio constrangedor emergiu após a risada de Rossat.

- Vim de muito longe para obter o seu poder. Seu último hospedeiro está morto à 700 anos e nessa noite um novo pode tomar o lugar. Serei eu.

Eu não havia ideia que esse era o plano dele desde o começo, mas como diversas vezes ele mesmo havia me dito, quase pude ouvir sua voz em minha cabeça repetindo "Apenas confie".

- Você sozinho tentará me aprisionar?

- Não. Eu não tentarei forçá-lo a nada, você entrará por vontade própria. Se tiver coragem, é claro.

Dessa vez foi o Tigre que riu.

- Mostre-me o que pode fazer, criança.

Rossat estava com as palmas das mãos paralelas a poucos centímetros do seu peito. Nesse espaço se materializou o que parecia ser um coração de energia - arisco a dizer que era um pedaço da alma dele - e o Tigre entrou como se passasse por um funil.

A voz da criatura estava em nossas mentes, podíamos ouvi-la rugindo e fomos transportados para uma realidade paralela, lá o ser diabólico parecia menos diabólico. Lá ele transmitia a sensação que vemos quando observamos uma força da natureza, uma tempestade, onde não existe bom ou mal, apenas se é. A mesma força que enche nossos rios cria enchentes que levam tudo embora.

- Eu sou a personificação da Vingança e somente um coração que sabe o que realmente significo pode me receber. 
Teu núcleo clama pelo meu poder e dentro de ti posso me alimentar dos seus mais doces sentimentos. 
Tudo que existir de infame dentro de ti transbordará. 
Posso ver cada mentira, cada artifício, tudo. 
Posso te fornecer meu poder, até que você se torne eu.

- Você pode tentar, mas só usarei seu poder para o que realmente for importante, mesmo desejando a Vingança, aprisionarei estes sentimentos assim como fiz contigo e os usarei como combustível para a minha Verdade.

- Veremos até onde você consegue, criança.

Em um instante estávamos todos de volta a caverna.

Notei que agora os cabelos negros como o breu de Rossat estavam com algumas tiras brancas, como se fosse um tigre invertido.

Olhei para ele e falei:

- Se vamos continuar como um grupo, que ele seja chamado Companhia do Tigre Branco.

E rimos desmaiando no chão de cansaço.

A taverna estava em um silêncio absoluto, todos queria saber se existia algo mais.

Então, é isso. Foi assim que nos tornamos a Companhia do Tigre Branco.

A platéia estava ainda digerindo a história quando levantei e fui em direção a Andrew. Coloquei a mão no seu ombro e sem nem virar para mim ele falou:

- Gostou da história Rossat?

Revelando o meu rosto para os outros acenei positivamente com a cabeça.

A filha do taverneiro ao ver que meu cabelos estavam bem mais brancos do que apenas algumas tiras, levou a mão a boca e pressionou as costas contra o encosto da cadeira, fazendo-a quase cair.

- Você tem que parar de contar essas histórias para crianças, elas podem acabar tendo pesadelos.

- O que posso fazer? Eles pediram.

Trocamos algumas palavras sobre amenidades para deixar mais tranquilo o clima tenso que estava na taverna e assim que tive uma oportunidade de falar a sós com o bardo disse com a voz dura:

- Dessa vez você foi longe demais, isso foi quase o que aconteceu.

Sua ebriedade havia desaparecido e provavelmente nunca havia existido.

- Relaxa, eu sei o que estou fazendo.

- Eu sei, mas não faça isso novamente.

- Ok, ok, como você é chato.

- Onde está Rogy? Conseguiu as informações que pedi?

- Ele está lá encima com a outra filha do taberneiro - o que deve gerar uma confusão, agora que ele não está mais distraído - e já tenho tudo que precisamos, mas podemos fazer isso amanhã?

- Rogy. De novo. Tudo bem, amanhã damos seguimento com o plano.

- Claro.

Fomos em direção a porta na esperança de encontrarmos uma estalagem aberta e dessa vez ouvi um som vindo da chuva que não era a voz de Andrew, mas de um velho conhecido que está sempre me espreitando...

- Logo, criança, logo, logo... 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Bem-vindo à Arena (Welcome to the Grind)

Levante e brilhe.

São 6 da manhã, você ainda nem desligou o seu despertador e as vozes na sua cabeça começam a dizer que está muito cedo, muito escuro e muito frio para sair da cama.

As dores no corpo começam uma rebelião, fingindo que seu cérebro não está ordenando-lhe para se mover. Uma legião de vozes está gritando em coro unânime para apertar o botão de soneca e voltar à terra dos sonhos.

Mas você não pediu a sua opinião.

A voz que você escolheu ouvir é uma que te desafia. A voz que diz que há uma razão para você ter definido esse alarme em primeiro lugar.

Então, sente, coloque os pés no chão e não olhe para trás, porque temos trabalho a fazer.

Bem-vindo à Arena

Cada dia será uma série de batalhas entre o caminho certo e o caminho fácil. Dez mil caminhos para o delta do rio surgem diante de você, cada uma prometendo ser o caminho de menor resistência.

A questão é que você está indo contra a correnteza.

Quando você fizer essa escolha, quando decidir virar as costas para o que é confortável, seguro, e que alguns chamariam de "senso comum". Bem, esse é o primeiro dia, dai em diante só fica mais difícil.

Então é preciso ter certeza que isso é algo que você realmente quer. Porque o caminho fácil sempre estará lá pronto para afastá-lo. Tudo que você tem a fazer é segui-lo.

Mas você não vai, não é? A cada passo, vem à decisão de tomar o outro.

Você está no seu caminho agora, mas isso não é sobre de quão longe você veio.

Você está em uma luta contra um adversário que não se pode ver, mas pode sentir.

Você pode senti-lo respirando bem atrás de você.

Você sabe o quem é, certo? Isso mesmo, é você.

Seus medos, suas dúvidas, suas inseguranças todos eles alinhados como um pelotão antiaéreo pronto para derrubá-lo do céu.

Mas não desanimamos.

Eles podem não ser facilmente derrotados, mas estão longe de ser invencíveis.

Lembre-se, esta é a Arena.

A batalha definitiva entre você, sua mente, seu corpo, e o diabo em seu ombro dizendo que  “é apenas um jogo”, “isto é apenas um desperdício de tempo”, “Seus oponentes são mais fortes do que você”.

Abafe a voz da incerteza com o som do seu próprio coração, queime a sua insegurança com o fogo aceso dentro de você.

Lembre-se porque você está lutando e nunca se esqueça de que o momento é uma amante cruel, ela pode destruí-lo com o menor dos erros, está sempre procurando o ponto fraco da sua armadura, aquele que você se esqueceu de preparar.

O diabo se esconde nos detalhes, mas a questão permanece .... Isso é tudo que você tem?

Tem certeza?

Quando a resposta for "sim", você já fez tudo o que pode para se preparar para a batalha. Essa é hora de seguir em frente e corajosamente enfrentar o seu inimigo.

O inimigo interior.

Agora você deve levar essa luta para o campo aberto, em território hostil.

Você é um leão em um campo de leões, todos caçando a mesma presa ilusória com uma fome desesperada, que diz: "A vitória é a única coisa que pode mantê-lo vivo".

Acredite na voz que diz: "você pode correr um pouco mais rápido.” “você pode fazer as coisas melhor”.

Para você, as leis da física são apenas uma sugestão.

Sorte é para aqueles que querem acreditar que a vitória só pode acontecer por acidente.

Suor, por outro lado, é para aqueles que sabem que é uma escolha.

Portanto, decida agora, porque o destino não espera por ninguém.

Quando chegar a sua hora e mil vozes diferentes estiverem tentando dizer: "Você não está pronto para isso!".

Invés disso, ouça a pequena voz que diz: "Você está pronto! Você está preparado! É tudo com você agora!".


Então, levante e brilhe.